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  • Foto do escritorCarlos Eduardo Pinto de Pinto

Um pouco do mar do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, 03 de março de 2023

Carlos Eduardo Pinto de Pinto*


Inspirado pelo recente aniversário do Rio, que completou 458 anos no dia 1º de março, decidi escrever sobre um dos aspectos mais marcantes de seu imaginário – a paisagem marinha. Devido ao tamanho do texto, limito minhas reflexões ao período entre o fim do século XVIII ao início do XX, ciente de que, mesmo neste recorte, muita coisa ficará de fora. É preciso deixar matéria para os próximos escritos...


Começo em diálogo com o artigo de Luciene Carris aqui para o Box Digital de Humanidades, Os originais cariocas do Rio, sobre os tupinambás que habitavam o sopé daquele que viria a ser conhecido como Morro da Glória. Em seu texto, a autora dialogou com uma das seis telas ovais de Leandro Joaquim (1738-1798) criadas para figurar em um dos pavilhões do Passeio Público (inaugurado em 1783), e que são identificadas como as primeiras imagens da cidade produzidas por uma pessoa nascida em seu território (LEANDRO, 2023). Os temas são: a Igreja da Glória, o Largo do Paço, uma procissão marítima, a visita de uma esquadra inglesa, os arcos da Lapa e a pesca de baleias.


Um dos aspectos comuns às imagens é a presença da água, com a Baía de Guanabara figurando em cinco deles. A relação da cidade com o mar pode ser notada na escolha das atividades realizadas ali – pesca, navegação, procissão e visita diplomática –, indicando o quanto o território urbano estava conectado com sua porção marinha, sendo as praias um lugar associado à política e ao trabalho. Não poderia deixar de mencionar, ainda que esse aspecto não esteja presente nas imagens do pintor, que também pelo mar chegava a maior parte da mão de obra escravizada ao Rio colonial. O lazer não estava totalmente desassociado das águas - se pensarmos que uma procissão poderia ser apreendida como atividade religiosa e cultural –, mas não era seu principal aspecto.


Os ângulos escolhidos por Leandro Joaquim também são muito significativos – em quatro das seis obras, a perspectiva é construída a partir do mar, que se integra com a paisagem urbana, destacada ao fundo. No outros dois, se dá o inverso – o mar é visualizado a partir da cidade, mas somente ele está no quadro, enquanto a urbe permanece subentendida, “atrás” de quem contempla. Essa prevalência do enfoque desde o mar é comum às imagens do Rio no período, permanecendo assim até as primeiras décadas do século XIX. Afinal, é a partir das rotas marítimas que se tem a primeira visão da cidade e o registro dessa mirada parece ter sido o favorito de artistas locais e viajantes por algumas décadas.


Revista militar no Largo do Paço, de Leandro Joaquim, final do sec. XVIII. Vale observar o ângulo escolhido pelo pintor, que observa a cidade de dentro da Baía de Guanabara, incluindo suas águas no quadro, enfocando os marinheiros que se abastecem de água doce no chafariz do Mestre Valentim. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra14160/revista-militar-no-largo-do-paco. Acesso em: 02 mar. 2023.


Conforme avançamos no século XIX, se tornam mais comuns as vistas panorâmicas, tomadas a partir do alto dos morros. Nestas imagens, o mar já não aparece como porta de entrada, mas como moldura, que envolve e dá continuidade à malha urbana. Um desses panoramas é o de Alfred Martinet (1821-1875), O Rio de Janeiro e seus arredores, de 1849, em que o Pão de Açúcar surge em meio à Baía de Guanabara, a partir do alto do Corcovado. Segundo Anna Maria Fausto Monteiro de Carvalho (2000, p. 45), “na maioria dessas tomadas o que se constata é a visão de uma urbe que se expande mansa e luminosa, com suas construções alvas coroadas de brique, na qual mais repousam do que circulam diminutas figuras humanas e de animais”. Ainda pela perspectiva da autora, o mundo do trabalho associado às águas não desaparece totalmente desses panoramas, mas se torna mais raro. O mar, na maior parte dos casos, se mostra como parte da monumentalidade da natureza, que envolve e abraça a urbe.


O Rio de Janeiro e seus arredores, de Alfred Martinet, 1849. Parte da monumentalidade da natureza que envolve e abraça a cidade, o mar está distante, como objeto de contemplação. Disponível em: https://artsandculture.google.com/asset/rio-de-janeiro-e-seus-arredores-do-corcovado/JAGGHbSOI4b8Qw?hl=PT-BR. Acesso em: 02 mar. 2023.


Isso não significa, claro, que o mar tenha deixado de estar associado ao trabalho no período imperial – a pesca, o comércio e a navegação ainda eram atividades de centenas de trabalhadores, escravizados ou livres. Inclusive, alguns lugares estavam intimamente associados com esse aspecto, caso da Praia do Peixe, famosa por seu Mercado, também chamado “do Peixe”.


Na passagem do século XIX para o XX, uma novidade foi se tornando cada vez mais ligada à orla carioca: o banho de mar. A princípio praticado com propósito terapêutico, aos poucos o “ir à praia” se tornou uma das formas de lazer identificadas com a cidade. Enquanto o Centro do Rio perdia muitas de suas praias – como a mencionada Praia do Peixe –, aterradas durante as reformas urbanas que marcaram o início do período republicano, a Zona Sul e suas praias oceânicas começaram a ocupar o imaginário dos cariocas e viajantes.


Na década de 1920, o Rio já era, indubitavelmente, uma “Metrópole à beira-mar”, para citar título recente de Ruy Castro (2019). Porém, mais que estar “à beira” – o que acontecia desde sua fundação –, a cidade agora entrava no mar:


(...) os bondes, os automóveis e os túneis já haviam levado a cidade até Copacabana. Mas as casas, construídas de frente para as ruas internas, viam a praia apenas como quintal. Só em 1922, com a reurbanização da Avenida Atlântica (...), os passeios à beira-mar, a pé ou de carro, se tornaram comuns e as pessoas, em massa, desceram à areia. (CASTRO, 2019, p. 56)



Capa do livro A invenção de Copacabana, de Julia O'Donnell. A criação de Jussara Fino parte de uma foto de Augusto Malta retratando o bairro em 1915. Embora os banhistas não estejam literalmente na água (já que o mar mal aparece no registro), é possível perceber a mudança de perspectiva, em que a orla ocupa novo lugar no imaginário urbano, associada ao lazer, ao esporte, à elegância e ao turismo. Disponível em: https://www.amazon.com.br/inven%C3%A7%C3%A3o-Copacabana-Culturas-urbanas-1890-1940/dp/8537810274. Acesso em: 02 mar. 2023.


Acontecera, enfim, a “invenção de Copacabana”, para lembrar mais um título, este de Julia O’Donnell (2013). A foto de 1915 de Augusto Malta (1864-1957), utilizada por Jussara Fino como base para a capa do livro, dá uma boa dimensão do tipo de imagem que seria produzido ao longo do século XX, tendo as praias como cenário privilegiado. De cara, um detalhe técnico nada desprezível: as fotografias ocupariam em grande parte o lugar das pinturas, retirando as cores das imagens até a popularização das fotos coloridas em meados do século. Em seguida, as ações capturadas pelo click: o calçadão e suas ondas de pedra portuguesa, as mansões (que seriam paulatinamente substituídas por edifícios de apartamentos formando, por fim, um “paredão”) e os banhistas na larga faixa de areia, praticando esportes e (presumivelmente) tomando banhos de mar. O lazer e as atividades físicas – logo acompanhadas do apelo turístico – se associariam intimamente às imagens do mar do Rio, deixando o trabalho em segundo plano. Isso, claro, não significa que ele não exista mais – do contrário, como o biscoito Globo e o mate com limão chegariam até os banhistas?


Carlos Eduardo Pinto de Pinto é historiador e professor de História (UERJ)


Referências Bibliográficas

CARVALHO, Anna Maria Fausto Monteiro de. A construção da imagem da Baía de Guanabara. In: A paisagem carioca. Rio de Janeiro: Prefeitura do Rio de Janeiro, 2000.

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar: o Rio moderno dos anos 20. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LEANDRO Joaquim. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2023. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa23553/leandro-joaquim. Acesso em: 02 mar. de 2023. Verbete da Enciclopédia.

O’DONNELL, Julia. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.




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