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Gato sem rabo, entre leitores e a literatura

Rio de Janeiro, 02 de junho de 2022.

Luciene Carris*.


De acordo com a quinta edição da pesquisa “Retratos da Leitura do Brasil”, feito pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Itaú Cultural, publicado em 2020, que teve como objetivo identificar os hábitos do brasileiro em relação à literatura, se constatou que 52% dos leitores são mulheres. A região geográfica do país com o maior número de leitores correspondeu ao Sudeste com 42%, seguido pelo Nordeste com 28%. Verificou-se que o pior índice se concentrava na região Centro-Oeste com uma taxa expressiva de 46% de não-leitores. De uma maneira geral, ocorreu uma queda de 4% de leitores desde a última edição da pesquisa realizada em 2015. A crise econômica, a falta de programa de distribuição de livros e a falta de investimento em bibliotecas são alguns dos fatores determinantes para a diminuição.


Acervo pessoal.


A pesquisa revelou ainda dados relevantes sobre a idade, a renda, a escolaridade, a cor ou raça, entre outros aspectos, além disso, considerou como leitor o indivíduo que leu, inteiro ou partes de um livro. Vale a pena a leitura criteriosa desse relatório que apresenta um diagnóstico sobre a leitura e o leitor no país, aliás o link se encontra nas referências. É bom ressaltar que se trata de uma amostra de abrangência nacional, realizada em 208 munícipios entre outubro de 2019 e janeiro de 2020, além disso, é o resultado de 8.076 entrevistas.


Um dos pontos que atrai a atenção nesta análise é o grupo citado dos catorze autores de que os leitores mais gostam. Reproduzo aqui a pergunta do questionário: “Quais são os autores de literatura, ou seja, de contos, crônicas, romance ou poesia, que o (a) sr (a) mais gosta ou gostou de ler?”. A ordem dos autores é a seguinte: Machado de Assis, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Coelho, Zíbia Gasparetto, Maurício de Souza, Augusto Cury, Clarice Lispector, Alejandro Bullón, José de Alencar, Cecília Meireles, William Shakespeare e Vinícius de Moraes. Entre as mulheres mais citadas, além de Zíbia Gasparetto e de Clarice Lispector, aparecem os nomes das escritoras britânicas J. k. Rowling, conhecida pela série de obras escritas sobre Harry Potter, e Agatha Christie, que se destacou como escritora de romances policiais. Contudo, apesar da queda da leitura (de 42% para 35%), a Bíblia continua sendo o livro mais citado entre os gêneros literários.


Não é demais destacar a importância do hábito da leitura para a formação pessoal e profissional, bem como o poder transformador que a leitura pode acarretar para a sociedade. Em síntese, um bom texto é aquele que transforma a realidade. Como função humanizadora, a leitura pode ser entendida como uma forma de vivenciar a alteridade, como uma experiência que vai além do próprio texto, pois expande o olhar e a visão sobre o mundo. Contudo, o gosto pela leitura é um aprendizado cultural, que deveria ser iniciado quando crianças em casa e no ambiente escolar. De acordo com Antônio Cândido,


A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório, mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório). Analisando-a, podemos distinguir pelo menos três faces: ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado; ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos; ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente (CÂNDIDO, 2011, p. 178-179).


Gostaria de apontar um outro ponto neste curto ensaio. Bom, se as mulheres correspondem à 52% dos leitores do país, não podemos dizer que representam o mesmo número enquanto escritoras. Aparentemente, os autores continuam em sua maioria sendo homens, brancos e de classe média, apesar de algumas mudanças nos últimos tempos, a invisibilidade e o silenciamento de mulheres escritoras, no Brasil e no mundo, ainda é um problema.


A este exemplo, para polemizar mais um pouquinho, vou reproduzir uma parte do artigo publicado no blog QG Feminista. O artigo examina a conhecida obra organizada por Italo Moriconi, Os cem melhores poemas brasileiros do século, publicado em 2001. Na seleção, constatou-se que “apenas 19 tinham sido escritos por mulheres. Escritos por homens: todos os 81 restantes. O número de autoras é ainda menor que o de poemas: 12. Autores? 47. Nenhuma mulher negra”. Podemos argumentar a escolha do autor como subjetiva e/ou pessoal, ou refletir sobre as relações entre saber e poder que pautam a sua seleção, entre outros aspectos.


Há quase cem anos, em 1928, a escritora britânica Virginia Woolf realizou duas palestras para faculdades femininas na Universidade de Cambridge, o tema escolhido foi mulheres e a ficção. Mas o caminho delineado foi outro. A leitura da obra é interessante, pois apresenta muitas questões que afligem o universo feminino até hoje, apesar de muitas conquistas e avanços, como mulheres escritoras premiadas. Contudo, até 2020, dos 117 Prêmios Nobel de Literatura apenas 16 foram concedidos às mulheres. O certo é que em determinada passagem a escritora provocou: “Vocês têm noção de quantos livros sobre mulheres são escritos no decorrer de um ano? Vocês têm noção de quantos são escritos por homens? Têm ciência de que vocês são talvez o animal mais debatido do universo?” (p. 397). Assim, as mulheres foram alvo da pena de muitos escritores ao longo dos séculos, mas isto não significou representatividade, nas suas palavras:


As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente, a terra ainda seria pântanos e selvas. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas. (p. 549)


Uma das soluções encontradas dada pela autora foi: “uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”. Assim, Woolf apresentou uma situação hipotética, “o que teria acontecido se Shakespeare tivesse tido uma irmã incrivelmente talentosa chamada, digamos, Judith”. Nesse sentido, questionou se a suposta irmã teria oportunidades de desenvolver a sua aptidão, de aprender gramática, lógica, de ser aventureira, ter acesso à livros e de aprender “harmonia das palavras”, etc. Como um gato sem rabo, uma metáfora criada pela autora, - quando se deparou com o animal considerado grotesco e raro em um almoço no campus da universidade -, seria a mulher que escreve sobre ficção. Não raro vale a reflexão de que mulheres em tantos outros espaços, ainda hoje, são um gato sem rabo.


Referências:

CÂNDIDO, Antonio. Vários escritos. RJ: Ouro Sobre Azul, 2011.

WOLFF, Vírginia. Um teto todo seu. SP: Tordesilhas, 2014. (versão Ebook)

Machismo na literatura brasileira: o canône tem sexo, cor e classe social. QG Feminista, 23/09/2019. Disponível em: https://medium.com/qg-feminista/misoginia-na-literatura-brasileira-26c83d64b31 Acesso em: 30 mai. 2022.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


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