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Ser mulher

Luzimar Soares Bernardo*

Guarulhos, 01 de fevereiro de 2022.


Sei que já escrevi aqui sobre o tema, inclusive, o último artigo de 2021 foi sobre a sororidade. Todavia, nesta segunda quinzena de janeiro, o mundo, sim, o mundo perdeu Elza Soares. E por que digo o mundo? Porque Elza foi e continuará sendo gigante, é desses artistas que não cabem em um país, não pertencem a uma nação, ela é global.



Crédito: Freepik.



Mas, a intenção aqui não é biografar Elza Soares. Ela que, por coincidência do destino, tem o mesmo sobrenome que eu, ela que nunca desistiu de viver a vida, mas, especialmente, nunca desistiu de ser autêntica. O que busco aqui é sobre a mulher, puxando como lugar de partida uma frase dessa mulher incrível: “venho do país da fome”.

A resposta dada por ela é de sua primeira apresentação, quando, por suas declarações, claramente, ela havia percebido o ar de desprezo causado por sua aparência, pois, de acordo com seus relatos, ela não tinha roupas adequadas para a ocasião. Portanto, utilizou de um subterfúgio que depois virou “moda”: usou alfinetes para diminuir o tamanho de seu vestido, sendo possível, assim, apresentar-se.

A pergunta a ela dirigida de forma debochada mostra uma crueldade por parte de seu questionador que dói na pele só de ouvir. A mulher é subjugada absolutamente o tempo todo: não pode ser magra, mas não pode ser gorda, não pode ser alta, tampouco baixa, não pode ter estrias, muito menos malhada demais. A aparência feminina é material de discussão absolutamente o tempo todo.

Além de ser sempre alvo de controle social, a mulher brasileira é, também, responsável financeiramente pelos seus lares. Em 16 de fevereiro de 2020, o jornal O Estado de Minas publicou matéria sobre a quantidade de mulheres que respondem pelo sustento financeiro de suas casas.


Segundo o Ipea, 43% das mulheres que são chefes de domicílio hoje no Brasil vive em casal – sendo que 30% têm filhos e 13% não. Já o restante das 34,4 milhões das responsáveis pelo lar se dividem entre mulheres solteiras com filho (32%), mulheres que vivem sozinhas (18%) e mulheres que dividem a casa com amigos ou parentes (7%). “Elas não estão mais ali porque foram abandonadas. É um movimento que faz parte do processo de empoderamento feminino e deixa as mulheres cada vez menos vulneráveis socialmente”, frisa Ana Tereza.

Os dados acima mostram uma mudança de paradigma como o frisado: “Elas não estão ali porque foram abandonadas”. A frase levanta algumas questões a meu ver. Primeiro, o abandono, sim, ele ainda é muito comum, e não estou me referindo ao abandono da mulher somente, mas o abandono dos filhos. Muitos progenitores, quando se separam da mulher, separam-se, também, dos filhos e os deixam a cargo total das mães. Segundo, o que significa estar ali? A mulher, mãe, assim como Elza, não suporta a dor de ver seu filho passar fome. Ela se reinventa, transforma roupas, aprende a fazer o que nunca imaginou que teria talento para conseguir.

A saída da mulher para o trabalho, especialmente para o trabalho que lhe permita ser dona de si e, por conseguinte, emancipar-se, é uma luta antiga. Ainda que sejamos diminuídas, somos como água, encontramos brechas para nos reinventarmos e construirmos nosso espaço. Segundo Michele Perrot em seu estudo Os Excluídos da História:


As mulheres não são passivas nem submissas. A miséria, a opressão, a dominação, por reais que sejam, não bastam para contar a sua história. Elas estão presentes aqui e além. Elas são diferentes. Elas se afirmam por outras palavras, outros gestos. Na cidade, na própria fábrica, elas têm outras práticas cotidianas, formas concretas de resistência- à hierarquia, à disciplina - que derrotam a racionalidade do poder, enxertadas sobre seu uso próprio do tempo e do espaço.

As mulheres se reinventam, resistem, subvertem a ordem dada, transformam o país da fome para alimentar seus filhos, Elza Soares é um excelente exemplo dessa mulher que não se permite desistir, ela está numa galeria em que existem muitas outras, a fome de comida tem cheiro, tem cor, tem dor, tem medo. Maria Carolina de Jesus, quando escreveu seu diário, dedicou muitas passagens para falar sobre a falta de alimento: “Fui lavar roupas. O sabão era pouco. A Dona Dolores deu-me uns pedaços. Eu comecei a sentir tonturas, porque estava com fome”. Em outra passagem, ela diz: “Despertei. Não adormeci mais. Comecei sentir fome. E quem está com fome não dorme”.

Essa fome de alimentos, é seguida por outro tipo de fome. A gigante Elza Soares lutou muito para saciar a fome de comida para seus filhos e, depois, a de cultura para seu país. No entanto, tem outros tipos de fome. A mulher nunca está segura, e a segurança, possivelmente, é onde se encontra um dos lugares mais perigosos para as mulheres, mais especificamente a violência sexual. O corpo feminino nunca, nunca mesmo, está liberto, somos objetificadas absolutamente o tempo todo. Angela Davis acredita que a violência sexual é mediada por poderes governamentais, não consigo discordar dela.


Se nós não compreendermos a natureza da violência sexual como sendo mediada pela violência e poder raciais, classistas e governamentais, não poderemos ter esperanças de desenvolver estratégias que nos permitam um dia purgar nossa sociedade da violência opressiva misógina.

Somos massacradas, diminuídas, somos mortas diariamente, apenas por sermos mulheres. Há alguns anos tive uma discussão com um colega de trabalho que acredita não haver necessidade do uso do termo feminicídio, que a tipificação é bobagem. Óbvio que fiquei enfurecida e tentei lhe explicar nossa fome, dessa vez, nossa fome de segurança.

Lutar para sermos respeitadas é algo que me move, por isso, grito viva a mulheres como as que citei e a muitas outras mais. Lutar, resistir, crescer, ser e, especialmente, dizer: parem de nos matar!


Viva Elza!


Viva Maria Carolina!


Viva o feminismo!



*Luzimar Soares Bernardo é historiadora (PUC-SP).


Referências:

DAVIS, Ângela. Mulheres, cultura e política. São Paulo: Boitempo, 2017.

JESUS, Maria Carolina. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2001.

PERROT, Michele. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro ̸ São Paulo: Paz e Terra, 2020.

https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2020/02/16/internas_economia,1122167/amp.html

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