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  • Foto do escritorElizeu Santiago

Por que comemorar a Independência?

Rio de Janeiro, 01 de setembro de 2022.

Elizeu Santiago*


O homem moderno parece se fascinar com os centenários. Em 1976, mesmo diante do fracasso da Guerra do Vietnã, americanos de todos os espectros políticos celebraram o bicentenário da sua independência através de milhares de iniciativas espalhadas pelos quatro cantos do país. Cem anos antes, Dom Pedro II era o convidado de honra do presidente Ulysses Grant na Exposição do Centenário na Filadélfia, momento de estreia do telefone de Graham Bell e da inauguração de mais de 200 novos edifícios.



Independência ou Morte, 1888. Museu Paulista.


Na França, o centenário da Revolução Francesa foi comemorado com a monumental Exposição Universal de 1889. Estima-se que 32 milhões de visitantes tenham comparecido ao evento, notavelmente lembrado pela inauguração daquele que seria o seu principal cartão-postal: a Torre Eiffel. Cem anos mais tarde, uma vez mais, os franceses tomariam as ruas das principais cidades para assistir a desfiles, exposições e inaugurações de novos edifícios.


Para não ir tão longe, em 1922, o Brasil celebraria o seu centenário com pompa e circunstância. Ainda hoje, a Exposição Internacional do Centenário da Independência é o maior evento do gênero na história do país. Em 11 meses de festividades, 6 mil expositores e 14 países estiveram representados na capital carioca. Estima-se que mais de 3 milhões de pessoas tenham comparecido às celebrações que contaram com numerosas conferências e publicações, além de novos edifícios.


À semelhança da atualidade, o mundo em 1922 se recuperava de uma severa pandemia. Domesticamente, inflação e turbulências políticas permeavam o governo de Epitácio Pessoa: crise entre as oligarquias, greves e lutas operárias e o estouro de rebeliões militares como as revoltas tenentistas. Não foi, portanto, em um céu de brigadeiro que as festividades do centenário ganharam as ruas. De lá para cá, seguimos a tradição. Celebramos os centenários das nossas principais cidades, do Descobrimento e até mesmo da chegada de Dom João VI.


É, pois, com pesar e espanto que se assiste às poucas e frágeis iniciativas em nossa mais importante efeméride. A apatia com que governo e iniciativa privada tratam o monumental marco histórico não deixa de ser o reflexo do Brasil em que vivemos. Em tempos de profunda polarização e irracionalidade política, comemorar torna-se um ato imperioso de otimismo e esperança. Do latim, “commemorare” significa “trazer à memória”; isto é, memorar ou recordar.


Lembremos, pois, em 1822, da imagem unificadora de Dom Pedro I em meio às facções políticas ou da tradição de conciliação nacional inaugurada sob o seu cetro. Único país latino-americano a conservar a integridade territorial, o Brasil de Pedro I teve a mais avançada carta constitucional do seu tempo, ainda hoje a mais longeva de nossa história. Lembremos, pois, do espírito progressista de José Bonifácio, defensor da reforma agrária e do fim da escravidão. O patriarca da Independência, dono de um vanguardista olhar ao meio-ambiente, seria taxativo ao dizer que “Destruir matos virgens [...] é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza”[1].


Em um rápido balanço, ao olhar para as últimas décadas, há motivos para comemorar: construímos um Estalado laico protegido pela constituição de 1988, avançamos na promoção dos direitos trabalhistas e na ampliação de direitos políticos de parcelas antes excluídas da sociedade. Mesmo que distante do seu melhor momento econômico, construímos uma das dez maiores economias do planeta.


Igualmente, há razões de sobra para o pessimismo. Somos o país em que o 5G convive com metade da população sem saneamento básico; somos o segundo maior produtor agrícola do mundo enquanto 33 milhões de brasileiros passam fome. O nosso gigantesco passivo social cresce dia a dia. A desigualdade é uma das nossas marcas registradas.


Efemérides centenárias são catalisadoras naturais do encontro, da mobilização e do debate aberto de nossos desafios e possibilidades. A não comemoração do nosso Bicentenário é um duplo prejuízo. De um lado, perde-se a possibilidade de novos olhares sobre o passado; do outro, a oportunidade de refletir sobre o futuro. Ainda há tempo. Em 2023, celebraremos o bicentenário de nossa primeira constituinte; em 1824, da primeira constituição. Em 1825, os duzentos anos do nosso reconhecimento internacional e do nascimento de Pedro II, o mais longevo e consciente governante entre nós. Que sigamos a tradição.


[1]ANDRADA E SILVA, José Bonifácio de. Obras de José Bonifácio de Andrada e Silva. Coleção Formadores do Brasil. Organização e introdução de Jorge Caldeira. São Paulo: Editora 34, 2002.

*Elizeu Santiago é Doutor em Ciência Política, Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) e Diretor do Centro de Ensino e Pesquisa do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ).

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