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  • Foto do escritorYgor Pires Monteiro

Muitas faces de um personagem real - Carlos Marighella nas artes

Rio de Janeiro, 02 de junho de 2023

Ygor Pires Monteiro*


Carlos Marighella foi militante do movimento estudantil, membro do Partido Comunista Brasileiro, deputado federal constituinte pela Bahia, marido, pai, poeta e líder revolucionário da ALN (Ação Libertadora Nacional). Considerado inimigo número um da ditadura civil-militar por liderar um movimento de luta armada com projeto socialista, ele foi assassinado em 04 de novembro de 1969 na Alameda Casa Branca em São Paulo pelas forças repressivas. Desde a criação e a divulgação de versões oficiais para sua morte pela ditadura e pela grande imprensa da época, que negaram o fato de ter sido executado em uma emboscada, o nome Carlos Marighella foi colocado em um esquecimento forçado na memória pública do Brasil.


Dos anos 1990 em diante, diversas iniciativas de familiares de vítimas, dos próprios alvos da repressão e de setores sociais progressistas não deixaram o debate sobre as violações dos direitos humanos pela ditadura ser abandonado. Nesse contexto, Marighella retornou gradualmente ao espaço público através de ações políticas e memorialísticas que reconheceram as responsabilidades do Estado brasileiro sobre sua morte e a importância de sua luta política (SOARES, 2012). Além das iniciativas relacionadas ao governo do país, as obras de arte contribuíram para a retirada do personagem das profundezas do esquecimento, cada uma delas elaborada com características e efeitos próprios.




Carlos Marighella denuncia a violência da ditadura civil-militar após sair da prisão em 1964. Disponível em: http://memorialdademocracia.com.br/card/carlos-marighella-resiste-a-prisao. Acesso em: 30 mai. 2023


Nem sempre as produções artísticas tinham como interesse a construção biográfica de Carlos Marighella. Muitas vezes, este trabalho que mapeia uma trajetória mais ampla do homem coube à academia e aos estudos das Ciências Humanas. Vários foram os autores que se debruçaram sobre a história de vida de Marighella e propuseram um olhar que o devolvesse para a memória nacional, sendo a biografia Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, escrita pelo jornalista Mário Magalhães, o trabalho mais recente (MAGALHÃES, 2012). Quando direcionamos nossas atenções para as artes, o interesse pelo passado brasileiro e pelo personagem ganha outras possibilidades e sentidos.


O teatro representou Carlos Marighella através da montagem da peça O amargo santo da purificação, encenada pela companhia gaúcha Ói Nois Aqui Traveiz pela primeira vez em 2009. Embora transite por diferentes passagens de sua vida, a peça não faz uma biografia linear e tradicional, já que parte dos poemas de Marighella para transformá-los em canções dramatizadas pelos atores. Como não se trata de uma encenação biográfica convencional, o grupo utiliza o personagem como símbolo que permite vislumbrar a cultura brasileira como um todo em suas ligações com a África (a partir de máscaras que remetem ao continente) e em suas correlações com a proposta estética nacional-popular de Glauber Rocha.


A música popular brasileira também se interessou pelo líder revolucionário. Em 2012, Caetano Veloso lançou a canção Um Comunista no álbum Abraçaço, que faz referência ao baiano da Baixa do Sapateiro. O artista começou a marcar seu nome na cultura brasileira por ter feito parte do Tropicalismo, movimento musical da segunda metade da década de 1960 que renovou o fazer artístico no Brasil e questionou o conservadorismo da sociedade. Por ser um dos músicos que desafiou a ditadura civil-militar, a criação de uma canção que aborda Carlos Marighella se torna ainda mais expressiva. Na letra, o ceticismo do autor em face da possibilidade de uma transformação social sob as bases do socialismo convive com a valorização das qualidades pessoais e da importância da luta de Marighella.


No mesmo ano, Mano Brown e os Racionais MC’s produziram a música e o clipe Mil Faces de um Homem Leal. Em muitos sentidos, o engajamento público de Mano Brown por diferentes causas sociais e políticas o faz poder ser comparado com o próprio Carlos Marighella. Não por coincidência, o cantor quase interpretou o personagem no filme Marighella de 2021, dirigido por Wagner Moura. Na letra do rap, passado e presente se encontram e a luta de Carlos Marighella por justiça social e ampliação de direitos às camadas populares é ressignificada para se comunicar com as periferias e com os grupos subalternizados de hoje. A canção foi feita para fazer parte do documentário Marighella de 2012, dirigido por Isa Grinspum Ferraz.


Trecho do clipe Mil Faces de um Homem Leal do rap homônimo produzido pelos Racionais Mc’s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8. Acesso em: 30 mai. 2023.


Antes dos filmes de 2012 e 2021, Carlos Marighella já havia aparecido no cinema. On vous Parle du Brésil: Marighella foi um documentário feito pelo cineasta francês Chris Marker em 1970 para traçar a história política do personagem através de depoimentos de amigos e companheiros de luta. Marighella: Retrato Falado do Guerrilheiro de 2001 foi um documentário dirigido por Silvio Tendler, conhecido documentarista brasileiro que produz filmes capazes de fazer proliferar a memória política do país, que percorre a trajetória política do homem em meio ao sonho de transformação social do país e as derrotas causadas pela repressão. E Carlos Marighella, Quem Samba Fica, Quem Não Samba, Vai Embora de 2011 foi um documentário produzido por Carlos Pronzato, diretor interessado em fazer convergir as lutas políticas de Marighella ao contexto político mais amplo da América Latina.


O nome Carlos Marighella começou a ganhar maior repercussão em 2012, em função também do lançamento do documentário Marighella. Para além de reconstituir passagens de sua vida ou conectá-lo com o contexto da década de 1960 no Brasil e no mundo, a cineasta Isa Grinspum Ferraz concebeu o filme dentro de uma chave afetiva singular. Sobrinha do revolucionário, ela constrói uma narrativa que tenta reunir pistas para esclarecer quem era o tio Carlos, alguém misterioso com que conviveu esporadicamente na infância e a deixou sempre muito curiosa. Traços documentais e ficcionais se encontram em uma abordagem que faz convergir a história política do país e a história pessoal da realizadora, assim como Petra Costa realizou anos depois em Democracia em Vertigem.


O cinema ficcional já o havia representado em Batismo de Sangue em 2006. Porém, o personagem é coadjuvante e tem pouco tempo de tela em uma trama que aborda o apoio de frades dominicanos à luta armada contra a ditadura civil-militar brasileira. A aparição mais efetiva em um filme de ficção se dá em Marighella de Wagner Moura, lançado oficialmente no Brasil em 2021. Inspirada na biografia escrita por Mário Magalhães, a produção se concentra nos últimos anos de vida de Carlos Marighella após ter decidido pela via armada de oposição à ditadura. Por mais que a representação cinematográfica faça uma leitura do passado em questão, a narrativa repercute ainda mais por fazer comentários ao tempo presente do país, notadamente a violência contra a população negra e a escalada da extrema direita nos últimos anos.


Teatro. Música. Cinema. Onde quer que Carlos Marighella seja representado nas artes, seu nome reassume papel significativo na memória pública do Brasil e não permanece na zona problemática do esquecimento forçado. O revolucionário pode reaparecer como uma forma de se destacar os personagens negros que fizeram a história do país. Pode ajudar a esclarecer passagens importantes de um passado essencial para a compreensão do presente. E pode ainda ser um guia para o enfrentamento de problemas sociais contemporâneos. Qualquer que seja a intenção, as obras artísticas encontram seu próprio lugar de autonomia que não a obriga repetir os procedimentos e objetivos de um trabalho acadêmico. Mesmo que a frase do documentarista John Grierson se refira especificamente aos documentários, podemos pegá-la emprestado para nos referirmos às artes como um todo. As artes fazem um “tratamento criativo da realidade” (NICHOLS, 2016), logo têm muito a contribuir para a compreensão de nossa história. Contribuições que passam pela construção de uma linguagem própria e pela geração de vínculos emocionais e descargas sensoriais que nos fazem nos apropriarmos de nossa história dando importância aos sujeitos históricos.


Referências bibliográficas


MAGALHÃES, Mário. Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo. SP: Companhia das Letras, 2012.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. SP: Papirus Editora, 3ª reimpressão, 2016.

ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na história. SP: Paz e Terra, 2010.

SOARES, Wagner dos Santos. De inimigo público a herói nacional: representações da morte de Carlos Marighella. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual de Maringá, 2012.


Ygor Pires Monteiro é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ (PPGH-UERJ) e crítico de cinema.

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