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  • Foto do escritorLuzimar Soares

Meu pai aos 91 anos.


Guarulhos, 01 de fevereiro de 2023.

Luzimar Soares*



Eu sou fio do Nordeste,

Não nego meu naturá

Mas uma seca medonha

Me tangeu de lá pra cá.

Lá eu tinha meu gadinho

Não é bom ne maginá,

Minha bela Vaca Estrela

E o meu lindo Boi Fubá,

Quando era de tardezinha

Eu começa a aboiá,

Ê ê ê ê Vaca Estrela,

Ô ô ô Boi Fubá.


Patativa do Assaré.



Em momentos anteriores já escrevi para este canal sobre o tema da velhice, aliás, este é um tema que, a mim, é bastante caro. Dissertei sobre os direitos, bem como a respeito das memórias dos idosos. Todavia, nesta edição, quero pedir licença para falar sobre um idoso específico: meu pai.


Hoje, 01 de fevereiro, meu progenitor completa 91 anos de idade e segue numa rotina de movimentos que começam muito cedo. Minhas primeiras lembranças com relação ao meu pai são de um homem muito forte, ao mesmo tempo que absolutamente acessível. Sua fortaleza enquanto ser humano começou a ser edificada quando, ainda muito jovem, ficou órfão de pai (ele tinha 10 anos).


José Bernardo Filho

Acervo Pessoal.


Ao assumir a responsabilidade compartilhada com seus irmãos, todos tão jovens quanto ele, da manutenção da casa, atingiu a maturidade dos afazeres antes da maioridade legal. Sua primeira e grande aventura fora do seio familiar foi uma mudança, quando tinha apenas 17 anos, para a cidade de São Paulo. É preciso aqui apontar para o fato de que estamos falando do fim da década de 1940. Nascido em 01 de fevereiro de 1932, seu deslocamento para o estado de São Paulo se deu em caminhões, portanto, uma travessia que demorava mais de um mês. Nada que hoje seja sequer pensado.


O homem que deixou sua mãe e irmãos no interior do Ceará e migrou para São Paulo, retornou ao seu estado e lá contraiu matrimônio e construiu sua própria família. Quis ter e tem muitos filhos – somos doze – e, no ano de 2000, mais uma vez, tornou-se migrante. Vendo a idade avançar, e com quase todos os filhos(as) morando em São Paulo, fez mais uma vez seu caminho de ida (ou vinda), dessa vez, ao lado de sua parceira de vida, a mulher com quem divide tudo desde o ano de 1958.



José Bernardo Filho e sua esposa Vicentina.

Acervo Pessoal.


Na sua juventude, meu pai foi o conselheiro dos vizinhos, o homem solicitado para dirimir conflitos, portanto, o conciliador. Lembremo-nos, falo de uma realidade no interior do estado do Ceará em um período anterior à criação de uma das políticas públicas mais importantes: o SUS. Nesse contexto, ele era, também, o responsável por cuidar dos enfermos. Lá não havia enfermeiros que aplicassem injeções. Os doentes que necessitavam de tratamentos com esse tipo de medicamento, tampouco tinham condições de se dirigem até a cidade mais próxima para receberem seus medicamentos. Sendo assim, meu pai era quem se deslocava até o enfermo, por vezes pedalando uma bicicleta; outras, montado em um de seus cavalos.


Suas funções enquanto homem conhecedor dos números (pouquíssimo das letras) era ser responsável por calcular o tamanho dos roçados dos adjacentes, com medições primárias. Ele fazia cálculos complexos de hectares cultivados para permitir que seus vizinhos que eram arrendantes, e também os arrendatários, conseguissem negociar as formas de utilização das terras na hora de dividirem as colheitas.


Acumulou, ao longo de sua vida, muitos conhecimentos e, depois que se mudou para São Paulo, já aposentado e com tempo livre, frequentou a escola para jovens adultos. Mesmo depois dos 70 anos de idade, voltou a estudar e, orgulhosamente, pode ler o seu livro preferido: a Bíblia. Durante anos, leu todos os dias um pouco, mas leu também livros que lhe falavam sobre sua terra. Leu livretos de literatura de cordel, leu tudo que lhe dava prazer.


Hoje, completando mais um ano de vida, cheio de ansiedade por seu dia, com muitas debilidades impostas pelo peso da idade, conserva em sua essência a vontade de ser dono de si. Esse “ser dono” é no sentido de ter autonomia sobre a própria vida, fazer as pequenas coisas. Ele tem consciência das suas limitações, pede ajuda quando percebe que não conseguirá, todavia, conserva a vontade de ter autonomia nas pequenas coisas.


Mantém em seu pequeno sítio um roçado onde cultiva algumas coisas: milho (enquanto escrevo esse texto, minha mãe está cozinhando pamonhas com o milho que ele cultivou), feijão, cana de açúcar, chuchu, batata doce, mandioca e algumas ervas para fazer chá, tais como: erva-cidreira, capim santo, endro e outros. Esse cultivar o mantém lúcido e ativo. Quando calça suas botas de trabalho e pega sua enxada, é como se engolisse mais alguns anos de vida. O trabalho no roçado é, do meu ponto de vista, seu elixir da vida.


O homem que criou 12 filhos (seis mulheres e seis homens), que migrou para melhorar a vida, voltou por sentir necessidade e, depois, fez novamente a travessia do país, dessa vez, para ficar perto de sua prole. Ainda é dono de si, mantém sob sua guarda seus valores de vida, suas vontades de continuar edificando coisas, especialmente aquelas ligadas ao cultivo de alimentos. Concomitantemente a isso, compreendeu sua fragilidade e pede ajuda para se manter lúcido.


Lapsos de memória são uma constante em sua vida e, ultimamente, a frase que mais repete é: e agora, o que vou fazer? Pergunta essa que faz a si mesmo, como forma de reavivar sua memória e permanecer no mínimo controle de suas atividades diárias. Criou uma rotina, como forma de se manter ativo, e se permite descansar quando percebe que está fraco. Dentro de sua fortaleza, reconhece a fragilidade da sua idade e pede ajuda, seja para lembrar de algo, para organizar, ou até para se levantar.


Mantém suas opiniões políticas, conta histórias de sua juventude e depende dos filhos(as) e cuidadoras para realizar muitas tarefas. Mesmo com todos os restringimentos, sua sabedoria lhe permite discernir entre os assuntos. Gosta da rotina e de manter controle sobre aquilo que ainda consegue, toma água em horário pré-estabelecido por ele mesmo, não gosta de muito barulho, e, todo domingo, espera ansioso pela chegada de qualquer um dos filhos(as).

A idade avançada tem muitos desafios. Possivelmente, o maior deles é o temor da solidão. Talvez, em razão disso, repete sempre: ninguém gosta de conversar com velho, já dizia o Vicente (seu sogro). Sendo, hoje, o mais velho de seus irmãos que está vivo, também reitera: é muito duro ter 90 anos.


Assim, na correria do dia a dia, me sinto feliz, orgulhosa e privilegiada: sou filha de José Bernardo Filho, cearense, pai de doze avô, de vinte e quatro, e bisavô de doze, marido de Vicentina, irmão, tio, sogro, mas, acima de tudo, um homem singular a quem posso cuidar para que ele continue saudável e orgulhoso de sua cultura.

Feliz Aniversário, Pai.


Referências:

BERNARDO, Luzimar Soares. Direito dos Idosos – O que preconiza a lei e o que se vive. Disponível em: https://www.boxdigitaldehumanidades.com/post/direito-dos-idosos-o-que-preconiza-a-lei-e-o-que-se-vive Acesso em: 22 jan. 23.

_______________________. As memórias como forma de vida. Disponível em: https://www.boxdigitaldehumanidades.com/post/as-mem%C3%B3rias-como-forma-de-vida Acesso em: 22 jan. 23.


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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