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Luz e sombra na lente de Evandro Teixeira

Rio de Janeiro, 02 de abril de 2022.

Luciene Carris*


A imagem escolhida para ilustrar o texto é conhecida, amplamente disseminada em vários meios de comunicação, em periódicos e em livros didáticos. A cena que imortaliza uma situação lamentável da história política do nosso país foi publicada na primeira página do Jornal do Brasil, e se tornou um símbolo contra a repressão militar, pois contribuiu para moldar o imaginário sobre “os anos de chumbo” da ditadura civil-militar no país. A mensagem era clara e direta: cidadãos resistindo de um lado, militares oprimindo do outro. A fotografia de Evandro Teixeira recebeu o nome de “Caça ao estudante”, e foi tirada na “sexta-feira sangrenta” de 22 de junho de 1968, na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro, palco de importantes manifestações políticas a partir do século XX.


Aquela semana começou com a prisão do líder estudantil Jean Marc von der Weid. A insatisfação era geral contra o projeto de reforma do ensino superior, que se pautava nos acordos adotados entre o Ministério da Educação e o United States Agency for International Development. Era uma quarta-feira, dia 20 de junho, estudantes se reuniram no Teatro de Arena da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Urca, e foram duramente reprimidos. O ápice foi a fatídica sexta-feira, quando ocorreu uma passeata com o apoio da sociedade civil.



Caça ao estudante. Sexta-feira Sangrenta. Rio de Janeiro, 1968.

Fotografia de Evandro Teixeira/Acervo IMS


O conflito tomou uma proporção épica com direito à bomba de gás lacrimogênio jogada de helicópteros e uma controvérsia no saldo de mortos. Calcula-se que vinte e oito pessoas vieram à óbito, além de centenas de feridos e cerca de mil presas, bem como muitos veículos incendiados. Poucos dias depois, em 26 de junho, uma nova manifestação popular tomou às ruas do Centro, recebeu o nome de “Passeata dos 100 Mil” e foi também registrada pela lente de Evandro Teixeira. A leitura de Ana Maria Mauad e Mauricio Lissovsky apresenta algumas reflexões interessantes sobre os personagens envolvidos, os policiais, o estudante e o leitor do jornal:


Os antagonistas estão bem representados por seus tipos, policiais e estudante com os respectivos apetrechos: cassetetes e botas de um lado, óculos e barba do outro. O conflito, condensado em três personagens, demonstra tão bem a superioridade da força policial e a violência da ação repressiva que quase passa despercebida a mancha de uma pedra na mão direita do estudante. Mas sua qualidade decisiva é que os personagens estão voltados para nós, exibindo seus rostos, suas feições e suas emoções, o que nos diferencia de meros leitores de jornal. Graças a essa frontalidade, somos testemunhas de um acontecimento que não se desenrola em uma tela ou palco e que apreciamos em segurança, mas de um que vem em nossa direção (Mauad; Lissovsky, 2021, p. 14).


Passeata dos Cem Mil, Cinelândia, Rio de Janeiro, 1968.

Foto de Evandro Teixeira/Acervo IMS.


Em 1957, Evandro Teixeira, um baiano de um povoado do interior da Bahia, chegou ao Rio de Janeiro aos vinte e dois anos de idade. Depois de uma breve passagem no Diário da Noite, de Assis Chateaubriand, ingressou em 1963, no Jornal do Brasil, onde trabalhou por cerca de quarenta e sete anos e se consagrou como uma referência no fotojornalismo mundial. Projetou o Brasil para o mundo, recebeu o reconhecimento internacional pelo seu importante trabalho, inclusive o seu nome consta na Enciclopédia Suíça de Fotografia. Além disso, foi alvo da pena do escritor Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou o belíssimo poema “Diante das fotos de Evandro Teixeira”. Adjetivado por Paulo Herkenhoff de “poeta da do ângulo de visão e do ponto de vista”, o fotógrafo recebeu diversos prêmios e homenagens como a exposição “Evandro Teixeira: a constituição do mundo”, realizada no Museu de Arte do Rio em 2015.


O seu trabalho envolveu o universo da música e da praia, bem como as manifestações contra a ditadura militar nas ruas do Centro do Rio de Janeiro. Realizou ainda uma série de fotografias sobre os cem anos de Canudos, no sertão da Bahia. Foi o primeiro fotógrafo a registrar a chegada do general Castelo Branco ao Forte de Copacabana, logo depois do dia do Golpe de 64. Para ele o risco era grande, pois “os militares, inclusive o comandante do forte, achavam que eu era o fotógrafo do Forte de Copacabana e me deixaram trabalhar” (2012, p. 237). Anos depois, cobriu o golpe militar e a queda do governo de Salvador Allende e a morte do poeta Pablo Neruda no Chile em 1973.


Em seu testemunho sobre as manifestações de 1968, evidenciou o papel do Jornal do Brasil na cobertura dos acontecimentos, a truculência do conflito, a desproporção das forças entre os envolvidos, e por último, ressalto a importância das ruas, o que nos remete ao direito à cidade como espaço possível de reivindicações e de lutas. Nas suas palavras,


(...) em 1968, a Cinelândia foi o grande palco de manifestações no Rio de Janeiro, especialmente dos estudantes. Era tudo por ali, Cinelândia, Avenida Rio Branco, Candelária. Os estudantes, especialmente, paravam em frente ao prédio do Jornal do Brasil para fazer barricadas e enfrentar a polícia. Eles faziam isso porque contavam com o apoio do jornal. E para fotografar esses confrontos era fácil, dava para fazer tudo da janela, com um ângulo privilegiado de visão. Alguns manifestantes morreram nesses confrontos, pois a disparidade era muito grande: os estudantes enfrentavam a cavalaria com bolinhas de gude, para derrubar os cavalos, e a cavalaria não saía dos quartéis só para intimidar, não, ela descia o sarrafo. Alguns morreram vítimas de baionetas ou de bala mesmo (2012, p. 238).

Na polarização política atual que vivemos, a fotografia icônica do repórter fotográfico Evandro Teixeira foi grosseiramente manipulada, se transformou em um “meme” irônico que circula pelas redes desde 2020. Na sociedade contemporânea, a imagem passou a ocupar o lugar da escrita e da palavra, e é facilmente compartilhada, sem levar em conta o direito à imagem, tão pouco sem se realizar grandes reflexões sobre a sua origem e o que significa o direito à liberdade de expressão. De todo modo, as ruas continuarão sendo ocupadas pelos cidadãos insatisfeitos e, ao que tudo indica, as imagens permanecerão na órbita da retórica visual do poder.

*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


Referências:

BONI, Paulo César. Entrevista: Evandro Teixeira. Discursos fotográficos, Londrina, v.8, n.12, p.217-252, jan./jun. 2012. Disponível em: https://www.uel.br/revistas/uel/index.php/discursosfotograficos/article/viewFile/11936/10520 Acesso em: 31 mar. 2022.

Evandro Teixeira: a constituição do mundo. Exposição, Museu de Arte do Rio. Disponível em: https://museudeartedorio.org.br/programacao/evandro-teixeira-a-constituicao-do-mundo/ Acesso em: 31 de mar. 2022.

MAUAD, Ana Maria; LISSOVSKY, Maurício. As mil e uma mortes de um estudante: foto-ícones e história fotográfica. Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 34, nº 72, p.4-29, Janeiro-Abril 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eh/a/wQS8HB8WNDvs3pcMRY8nyqD/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 31 mar. 2022.

OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Cidade: História e desafios. Rio de Janeiro: Ed. Fundação Getulio Vargas, 2002.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Bolsonaro e seu reino: retóricas visuais do poder. Revista Zum, 06/07/2020. Disponível em: https://revistazum.com.br/zum-quarentena/bolsonaro-e-seu-reino/ Acesso em: 31 mar. 2022.

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