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Happy Pride!

Uma proposta de esboço historiográfico sobre a trajetória LGBTQIA+ no Brasil


Toronto, 15 de junho de 2022.

André Sena*.



Uma das melhores definições do termo Historiografia que já encontrei ao longo dos anos, é também a mais simples. Entendo inclusive que seria ainda melhor chamá-la de explicação simplificada, sem o prejuízo de tornar-se reducionista, do que propriamente de definição. A encontrei pela primeira vez na obra homônima de Charles Olivier Carbonell, quando iniciava meus estudos de graduação, em 1994. Alguns professores meus não gostavam do livro, exatamente por sua simplicidade, por sua concepção textual sob a forma de um manual, dentre outras frescuras da academia. O livro me fascinou precisamente por isso, e pela diversidade de abordagens, distanciada de uma análise eurocêntrica habitual, falando inclusive da historiografia chinesa e árabe, em que pese certos anacronismos conceituais.



Crédito da imagem: Vecteezy.



Carbonell “definia” historiografia como uma “história do discurso”, o que me remetia a diferenciação que fazem os alemães entre historiógrafos e historiadores, para definir o mesmo ofício: pode-se em alemão utilizar o termo Gechichtsschreiber (mais ligado a elaboração textual) ou Historiker (mais conectado a pesquisa acerca do passado) para nos referirmos a um historiador.


Penso ser uma armadilha confundirmos a explicação de Carbonell em torno da história do discurso, com o que hoje está na moda chamarmos de guerra de narrativas. Não. A historiografia é uma ferramenta utilizada pelos próprios estudiosos de história (especialmente o que chamamos de crítica historiográfica) que elege como objeto crítico a produção de narrativas, especialmente (mas não mais exclusivamente nos dias digitais em que vivemos) do texto grafado sobre o passado ou sobre o presente, como é o caso da História do Tempo Presente, gênero historiográfico que tem adquirido enorme visibilidade de uns anos para cá.


O Box Digital de Humanidades desta quinzena de junho propôs-se presentear nosso público leitor com textos de convidados e autores permanentes que circulassem em torno da temática LGBTQIA+, que muitos gostam pejorativamente de chamar de “sopa interminável de letrinhas”, mas que eu, positivamente denomino, a partir da reflexão do intelectual e ativista canadense transgênero Jo Jefferson, de “alfabeto da diversidade”. Coube a mim, o que faço com muito prazer, esboçar algumas ideias sobre a historiografia LGBTQIA+ brasileira para este Mês do Orgulho de 2022.


Decidi para isso escolher alguns títulos que abordam esta temática no Brasil, e que penso serem incontornáveis para uma leitura ao mesmo tempo iniciática e agradável sobre a história desse conjunto de minorias, que sofreu e ainda sofre enorme preconceito em nosso país, mas que ao mesmo tempo vem demonstrando, ao longo da história brasileira, enorme resiliência e heroísmo. É a eles que dedico este texto.


A quarta edição, revista e ampliada de Devassos no Paraíso. A Homossexualidade no Brasil. Da Colônia a Atualidade, de João Silvério Trevisan, é o meu ponto de partida nesse sentido. Um livro celebrado no Brasil e no exterior (Peter Burton o elogia publicamente no Gay Times), a obra busca criar uma espécie de etnografia histórica das diversas sexualidades que floresceram no Brasil em um extenso período, especialmente das homossexualidades e transexualidades.


Devassos influenciou toda uma geração de ativistas, e me recordo que quando adolescente, uma das razões que me levavam a comprar e colecionar rigorosamente todo mês a G Magazine (a playboy das bichas), além das óbvias, é claro, era poder ler a coluna do Trevisan, em um dos poucos espaços dedicados naquela época à reflexão gay, especialmente depois do fechamento do jornal Lampião da Esquina (que circulou no Brasil entre 1978 e 1981), pertencente a uma geração anterior a minha, e um dos primeiros veículos da imprensa alternativa dedicados a população LGBTQIA+ no Brasil. Todo o acervo material do Lampião da Esquina encontra-se (ou ao menos até pouco tempo era assim) sob a guarda do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, no Rio de Janeiro, e importantes historiadores como Márcio Caetano se dedicam arquivisticamente à sua pesquisa e análise.


Márcio Caetano, com quem tive o privilégio de atuar no Brasil por certo tempo como ativista, aparece na cena historiográfica LGBTQIA+ brasileira como uma das jovens vozes de reflexão, que de alguma maneira sucederam a historiografia marcada por Trevisan em Devassos do Paraíso. Juntamente com o historiador norte-americano James Green, Caetano publicou recentemente uma obra que se mostra valiosa em termos de contribuição historiográfica e sociológica sobre a cena brasileira. Intelectual engajado politicamente, organizou junto com Green, Marisa Fernandes e Renan Quinalha a obra História do Movimento LGBT Brasileiro. Seu caráter prosopográfico (voltado para uma história de instituições) é inegável, somando-se a este uma narrativa em torno do conceito sociológico de Bewegung, ou seja, de uma análise das diversas forças ativas da sociedade civil organizada sobre o tecido social, neste caso especialmente dos diversos grupos e instituições de advocacy que - mesmo com um passado histórico relativamente fresco – fizeram, fazem e farão história no sentido dinâmico e político em nosso país. Uma obra especial e valiosa, sobretudo se desejarmos compreender a história de movimentos que vem sendo cada vez mais demonizados e desqualificados pela onda obscura e retrógrada que vem tomando o país de assalto, de baixo para cima, desde 2014, e especialmente a partir de finais de 2018.


Frescos Trópicos. Fontes sobre a Homossexualidade Masculina no Brasil é uma obra que me inspira o prazer da leitura e a memória dos tempos em que eu buscava no Brasil uma literatura histórica sobre mim mesmo. Ainda com a presença de James Green na concepção da obra, a ele se soma o tradutor, ensaísta e historiador brasileiro Ronald Polito. Um minucioso levantamento de fontes documentais sobre homens gays no Brasil é apresentado na obra, que remonta a fontes do século XIX, à época em que adquiri o livro, algo raro de se ver. O fato do tratamento e da crítica documental serem o objeto do livro, em nada torna sua leitura aborrecida. Pelo contrário, a obra, cujo título faz uma brincadeira com o clássico de Levi-Strauss Tristes Tropiques, é de leitura rápida e supreendentemente agradável. Além de toda a capacidade dos autores de nos apresentar informação documental (normalmente chata...) de forma leve e encadeada.


Encerro meu texto por aqui com uma boa notícia historiográfica: James Green acaba de nos brindar com uma edição revisada de uma obra de sua autoria, que marcou profundamente todos aqueles que buscavam, alguns anos atrás, um texto de fôlego sobre a homossexualidade (especialmente a masculina) no Brasil. Além do Carnaval. A Homossexualidade Masculina no Brasil do século XX, foi relançada em 2019, contando com novas perspectivas do autor, sem prejuízo para o texto da primeira edição. Pode-se dizer que Além do Carnaval acompanha de perto o modelo analítico da clássica obra de George Chauncey Gay New York. Gender, Urban Culture, and the making of the gay male world. 1890-1940 (ao menos é essa impressão que tenho), somada ao talento de Green para a pesquisa histórica, o que confirma seu pioneirismo como brasilianista e pesquisador das homossexualidades em nosso país, e sucessor da cadeira de História do Brasil ocupada por anos por nada mais nada menos do que Thomas Skidmore, na Universidade Brown, nos Estados Unidos.


Há muito o que falar, ou melhor...o que historiografar. Escolhi títulos que considero importantes para a formação de uma consciência histórica geral e popular sobre a questão LGBTQIA+ no Brasil, especialmente a partir de espectros contemporâneos. Há muita gente boa e talentosa que começa agora a pesquisar e produzir trabalhos históricos sobre a questão Queer e sobre as diversas formas de Transexualidades, temas que vem assumindo uma visibilidade exponencial há pelo menos duas décadas no país, embora sempre estivessem de uma forma ou outra na cabeça de certos intelectuais presentes na cena Brasileira como Cassandra Rios, Peter Fry e Luís Mott, por exemplo.


Espero com esse texto ter contribuído, ao menos sob o formato de uma apresentação geral, para a coluna Mês do Orgulho, que apresentamos nesta quinzena do Box Digital de Humanidades. Celebrar a comunidade LGBTQIA+ é celebrar a própria democracia e sua capacidade de autoaperfeiçoamento, em meio aos processos históricos onde essa comunidade desponta como ator social. Pode-se fazer isso de diversas maneiras. Escolhi a historiografia como veículo de celebração.


Happy Pride!!!


André Sena.


REFERÊNCIAS:

OLIVIER CARBONELL, Charles. Historiografia. Teorema, 1992.

TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso. A Homossexualidade no Brasil. Da Colônia a Atualidade. Editora Objetiva, 2018.

GRREEN, James. CAETANO, Márcio. Et al. (org.) História do Movimento LGBT no Brasil. Alameda Editorial, 2018.

GREEN, James. POLITO, Ronald. Frescos Trópicos. Fontes sobre a Homossexualidade Masculina no Brasil. Ed. José Oplympio, 2006.

GREEN, James. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina do Brasil no século XX. 2ª. Edição, UNESP, 2019.


*André Sena é historiador (UERJ).

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