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Forma moderna de misoginia – Red Pill



Guarulhos, 01 de abril de 2023.

Luzimar Soares*



O eterno retorno é uma ideia misteriosa, e Nietzsche, com essa ideia, colocou muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir tal como foi vivido e que essa repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?

A Insustentável Leveza do Ser (1984)

Milan Kundera



Recentemente tenho ouvido, lido e visto muitas coisas sobre a tão famosa The Red Pill (TRP), que vem a ser “A Pílula Vermelha”. Há alguns anos, quando ouvi essa referência fora do contexto do famoso filme Matrix, achei só mais uma bobagem de alguém que estava entediado e resolveu entrar em fóruns da internet e ler algo que lhe coubesse nos pensamentos.




Crédito da imagem: Wikipedia.


No entanto, mais recentemente, ouvi de um colega de trabalho algumas colocações que me deixaram intrigada, porém, como não estava exatamente interessada na forma como foi colocada a questão, deixei passar sem dar muita importância. Dias depois, já numa outra situação, a conversa veio à tona mais uma vez. Parei para ouvir, e fui re-associando a conversa de outrora.


Pois bem, eis que aparece nas mídias televisivas, sociais e impressas, a história do rapaz que ensina a “pegar” mulher. O influenciador digital (sic) conhecido como “Coach do Campari”, sentiu-se ofendido por um vídeo que uma atriz fez o ironizando, e mandou uma mensagem para ela exigindo a exclusão do vídeo. Ainda que em nenhum momento o nome dele seja citado na publicação, ele tem certeza que é sobre sua publicação.


Alguns dias depois do episódio acima, foi publicado em alguns jornais, matéria de investigação policial sobre uma festa em uma mansão em um bairro de classe alta da cidade de São Paulo, promovida por “coachs” estrangeiros como forma de imersão num curso que ensina homens a “pegarem” mulheres. Esses pseudo instrutores levam seus cursos a países que eles consideram ter oferta de mulheres, levando em consideração algumas questões, tais como: grande abismo social.


A matéria destaca alguns pontos sobre como e onde acontecem as festas, eventos esses que seriam a prática daquilo que ensinam durante o curso. Algo que chama a atenção é, justamente, os países onde são feitas as “graduações” dos participantes. O curso completo inclui imersão em seis países.


O curso, oferecido a estrangeiros de vários países, cobra a partir de US$ 12 mil (cerca de R$ 63 mil) em troca de consultoria de conquista e viagem de duas semanas para algum país. Além do Brasil, houve edições na Costa Rica (em fevereiro de 2022), Colômbia (julho de 2022) e Filipinas (agosto de 2022). A próxima etapa será na Tailândia, em agosto.


O pacote com seis países, chamado de World Tour, sai por US$ 50 mil (cerca de R$ 262,7 mil), segundo o site do grupo. (g1.globo.com)


Buscando compreender todas essas notícias e falas e o crescimento de alguns comportamentos, li cada matéria e assisti cada vídeo que consegui, bem como busquei artigos acadêmicos para tentar assimilar essas tais TRPs. Em um artigo, descobri uma série de siglas utilizadas para dar suporte a um movimento (ou vários), que amparam essa nem tão nova forma de misoginia. Segue:


MGTOW: "man going their own way" - homem seguindo seu próprio caminho (tradução minha);

Red Pill: Pílula Vermelha;

Incel: "involuntary celibates" - celibatários involuntários;

Sigma: os que dividem as mulheres entre as que “são para casar e as que são para pegar”;

Alfa: o forte;

Beta: o sensível. (terra.com).


Uma análise sobre todas essas designações mostra tanto ódio pela mulher, que cada linha lida traz à baila o perigo e a violência contra o feminino. Cada sigla acima aglutina um tipo de homem que enxerga a mulher de uma forma distinta, entretanto, absolutamente todos alinhados à extrema direita. De acordo com matéria do site Terra: “Cada grupo tem suas características próprias, mas todos têm em comum a misoginia e a visão de que o feminismo só serve para estragar a sociedade”.


Ora, por que tanto medo da mulher? O que leva um homem a pagar entre 12 e 50 mil dólares para aprender a se relacionar com uma mulher? É bem verdade que relacionamentos interpessoais têm suas dificuldades, no entanto, o que se percebe nesses cursos e, especialmente, nesses “especialistas”, é uma infinidade de grosserias, desrespeito, agressividade, mas, acima de tudo, de fragilidade masculina que precisa diminuir a mulher para se perceber enquanto homem.


É inegável o crescimento da presença feminina em muitos espaços e, talvez por isso mesmo, esses movimentos tenham alcançado esse nível. Talvez pela presença constante da mulher, pelo crescimento de leis que impõem o respeito à vida humana, pela militância feminina que exige ser tratada como igual, essa força se levante. Parte desse movimento exibe um ódio tamanho contra as mulheres que não consegue perceber que a humanidade simplesmente precisa biologicamente da fêmea e do macho para existir.


Gostaria de sugerir que aqueles que acreditam no “poder do macho”, na superioridade masculina, seja ela: física, mental, cognitiva, ou qualquer uma forma de superioridade, pautados na crendice de que o feminismo prega a destruição do homem, a buscarem o significado das palavras.


Feminismo = movimento em prol dos direitos da mulher e da igualdade de gêneros.

Femismo = Ideologia que busca a inversão da lógica do patriarcado, almejando construir uma sociedade matriarcal, em que o poder é exercido somente por mulheres.


Nós mulheres, feministas, militantes, atuantes, políticas e presentes, somos também: parceiras, defensoras, aguerridas, buscamos o direito à humanidade, o que significa dizer que estamos na luta para continuarmos vivas. Para sermos respeitadas, pelo direito de decidirmos sobre nossos corpos, para não sermos confundidas com coisas. Parafraseando E. P. Thompsom, não queremos ser levadas ao mercado para sermos vendidas como vacas com uma corda envolta no nosso pescoço. Não somos inimigas dos homens, lutamos por nossas sobrevivências.


Ser mulher é, também, militar para, no mínimo, ser capaz de perceber os comportamentos dos “redpillados”, os quais são: Ser "redpillado", para os homens que se opõem às mulheres de alguma forma, significa deixar de ser ingênuo e passar a ser aproveitador. (terra.com) – Enfrentar esse pensamento / comportamento é exaustivo, mas, na verdade, a mulher o enfrenta desde sempre. Como um eterno retorno, os ensinamentos desses “instrutores”, a meu ver, não passa de uma nova roupagem para o machismo e para a misoginia que sempre esteve presente. Portanto, ser feminista é continuar no enfrentamento do mito insensato.



Referências:

DIAS, Carlos Henrique. 'Coaches' estrangeiros promovem festa em mansão em SP e usam mulheres como 'cobaias' para alunos de curso de conquista. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/03/15/coaches-estrangeiros-promovem-festa-em-mansao-e-sem-avisar-usam-mulheres-como-cobaias-para-alunos-de-curso-de-conquista.ghtml. Acesso em: 28 mar. 2023.

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Editora Nova Fronteira S.A, 1984.

NORONNHA, Heloisa. MGTOW, Red Pill, Incel, Sigma, Alfa: o que significam esses termos? Disponível em: https://www.terra.com.br/nos/mgtow-red-pill-incel-sigma-alfa-o-que-significam-esses-termos,54f26d36b87e9beb8599f756abe6370748f0erwp.html#:~:text=Ser%20%22redpillado%22%2C%20para%20os,apenas%20fazer%20sexo%20com%20elas. Acesso em: 28 mar. 2023.

THOMPSON, Edward, P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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