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  • Foto do escritorLuzimar Soares

Dialeticamente vivendo

Guarulhos, 16 de maio de 2022.

Luzimar Soares *.


Sou amante dos livros e isso, por si só, traz uma carga muito grande de vocábulos que se somam aos que já carregamos. Nos primeiros anos escolares, adquirimos tantos conhecimentos que sequer nos damos conta. A vida adulta traz uma infinitude de responsabilidades. As leituras, dependendo da carreira que escolhemos, tornam-se mais raras, isso significa dizer que, talvez, nosso vocabulário diminua, ou seja, aquilo que não usamos, o nosso cérebro “apaga”.



Crédito: Wix.


Aqui começa minha primeira dialética: memória e esquecimento. Sempre ouvi que brasileiro tem memória curta, especialmente naquilo que está ligado à política. Será mesmo que é real? Ou vivemos numa sociedade com pouco letramento e, por conta disso, a dicotomia entre lembrar e esquecer é mais aparente do que em outras sociedades? Aliás, as outras sociedades também não são dicotômicas com suas vidas políticas?


Em ano de eleição, parece que tudo fica mais aflorado, e os amantes das grandes verdades aparecem para apontarem os dedos aos erros dos outros, perigosamente, em muitos casos, esquecendo-se de suas próprias colocações e feitos em termos idos. Possivelmente por isso, hoje, fala-se tanto em polarização. Todavia, essa polarização talvez tenha um outro nome: dialética.


Como já referido, sou amante de livros e leio todos, muitas vezes até porque sou teimosa e não me permito começar uma leitura e não terminar, parece que fiquei devendo algo para alguém, no caso, eu mesma. No entanto, no ano de 2014, eu adquiri um livro que, até hoje, não consegui terminar de ler. Chama-se: “A Dialética da natureza”, escrito por Friedrich Engels. E, por que não terminei a leitura desse livro? Porque ainda não consegui transpor as muitas faces da dialética que são apresentadas em suas linhas.


Sendo assim, o que me fez lembrar desse livro e querer falar sobre foi um momento de epifania causado em um evento. Neste, coloquei-me na sombra, e dali pude observar as pessoas que estavam sob os holofotes e luzes que clareavam quase que a totalidade dos presentes, excetuado a mim, que das sombras podia enxergar a todos. A dialética da luz e da sombra me fez pensar no calor, mas especialmente na energia. Aqui, refiro-me a energia nas suas mais diversas forças e, para falar sobre ela, recorro a Engels que, ao falar dos movimentos da terra, usa a palavra energia para esclarecer seu pensamento sobre os processos terrestres.


O termo energia não corretamente, por certo, todas as relações de movimento, já que apenas considera um aspecto do mesmo – ação – mas não reação. O termo é também apresentado como alguma coisa exterior à matéria, como algo como algo que lhe tivesse sido enxertado. Apesar disso, deve ser ele preferido a expressão força.


Ouso comparar a energia terrestre à humana. Enquanto nos divertimos, trabalhamos, lemos, estudamos, estamos dispondo e dispersando energia. Nossos corpos são feitos de energia, e essa vitalidade da vida se transforma em força para lutarmos por nossos objetivos. Sendo assim, acredito na dicotomia nos corpos de luz e sombra também.


Nesse caminhar dicotômico de descobertas e esquecimentos, deparo-me com uma das obras de Ecléa Bosi que fez um estudo sobre as operárias e suas leituras. Nesse livro, ela fala, dentre muitas outras coisas, sobre as diferenças entre as comunicações escritas e orais.


As diferenças entre a comunicação oral e a escrita são diferenças de ordem semântica, psicológica e sociológica e geram diferentes comportamentos e percepções. O olho do leitor, buscando um significado após o outro, faz uma decodificação linear do real. As novas linguagens eletrônicas exigem uma outra decodificação, simultânea, que recupera, de uma outra forma, a percepção do homem letrado. O livro isola, a palavra falada agrupa. O livro leva ao “ponto de vista”, a uma atitude crítica, a palavra falada implica uma participação emotiva.

As assimetrias da vida são traduzidas de muitas maneiras. A história está cheia de dialéticas, sejam elas naturais ou criadas democrática ou ditatorialmente. Vão se construindo, traçando relatos de enaltecimentos ou apagamentos dependendo de quem é o vencedor da luta no momento. Mas, para além disso, quando o poder muda de mãos, criam-se novas narrativas como forma de recontar e, assim, inverter ou não o papel de cada ser histórico. Cabe salientar que a história não é única, ela é feita de muitas nuances e muitas versões.


Sendo assim, é importante lembrar que, mesmo sabendo que a história não é única, a pós-verdade não é uma opção, mas se precisa compreender o apagamento das pessoas para trazer a baila não somente as histórias, mas as resistências. Em seu estudo intitulado “Nem tudo era italiano”, o professor Carlos José Ferreira dos Santos, mostra essas dicotomias de forma muito interessante.


No lugar do perigoso e do indomável, um parque seguro; do promiscuo, o saudável; do feio, o belo; da sujeira, o asseio e a higiene; da imoralidade, a moralidade; da barbárie a civilização. No lugar da antiga Várzea frequentada por incivilizados negros e mestiços, um confortável parque construído a partir do projeto do francês Cochet – alterações que podem ser acompanhadas pela comparação entre as plantas de 1895 e 1928.


Sociedades escolhem suas dialéticas em alguns casos, por exemplo, nem sempre o que é lixo e sujo para uma sociedade é para outra, bem como, da era estudada. Por conseguinte, ao se analisar uma colocação, é necessário verificar a temporalidade a qual se refere. A água, por exemplo, já foi perigosa, de acordo com José Carlos Rodrigues,


Dentro desse quadro urbano que pretendia separar orgânico de inorgânico, útil de inútil, que pretendia localizar e classificar, compreende-se que o ar e a água fossem elementos perigosíssimos. O contágio e a infecção se davam, fundamentalmente, acreditava-se, mediante esses dois canais.


Por fim, mas voltando ao começo, a dialética das coisas, estão o tempo todo em nossas vidas. A dicotomia compõe o que somos, amor e ódio, luz e sombra, sonho e realidade, etc. Mas, não acredito na nossa pouca memória, talvez precisemos, sim, de mais estudos, de mais leituras de escolas realmente democráticas que agucem o pensamento crítico e nos façam, dicotomicamente, entendedores da nossa história.


Referências:

BOSI, Ecléa. Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias. Petrópolis: Vozes, 1997.

FRIEDRICH, Engels. A Dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

RODRIGUES, José Carlos. Higiene e ilusão: o lixo como invento social. Rio de Janeiro: NAU, 1995.

SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza: 1890 – 1915. São Paulo: Annablume ̸ Fapesp, 2017.


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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