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A Subserviência Feminina, até onde vai, ou, de onde vem?


A história das mulheres não é só delas, é também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da literatura. É a história do seu corpo, da sua sexualidade, da violência que sofreram e que praticaram, da sua loucura, dos seus amores e dos seus sentimentos

( Mary Del Priore, 2004)


Guarulhos, 15 de setembro de 2021.

Luzimar Soares*


A primeira vez que ouvi a palavra subserviência, senti um incômodo gigante. Primeiro, desconhecia o significado, o que, diga-se de passagem, é normal, levando em consideração que não é um vocábulo utilizado na cotidianidade; pelo menos, naquele momento, não era para mim. Interpelei meu interlocutor, especialmente porque a subserviente, no caso, era eu. Ao descobrir o significado da palavra, senti uma indignação absurda: nunca, jamais, de maneira alguma, eu? Justamente eu, que sempre me considerei dona de mim, forte, altiva! Como ele ousava usar de um substantivo tão indigno para se referir às minhas atitudes? Passado o episódio, esta palavra sempre me incomodou, não pelo motivo que havia tirado o eixo da relação, mas porque, após a compreensão da importância do termo, passei a ter outra visão sobre mim mesma e, obviamente, sobre as outras mulheres.




A partir do conhecimento da ação, comecei uma longa trajetória para buscar perceber esse comportamento, especialmente no agir feminino em, basicamente, todas as relações. Um desses âmbitos, obviamente, incomodava mais. Justamente aquele em que conheci o vocábulo: nos locais de reuniões sociais. Os casais passaram a ser meu foco: os apelidos, a forma de pedir as coisas, ou, até mesmo, as imposições sociais, aquelas que passam desapercebidas porque já fazem parte das convenções sociais. Para ficar mais palatável, a famosa frase que quase todas as mães repetem: “pergunta para seu pai”. Ou, “se seu pai deixar”. Raramente, vê-se (pelo menos em público), nas conversas de família, uma discussão do tipo: vamos decidir juntos como fazer?

Mediante tantas inquietações e perguntas que assolam os pensamentos e dificultam a compreensão de comportamentos sociais, travei uma luta, primeiramente comigo mesma. Se tudo isso que está posto é tão bem aceito, para que se indagar a respeito? Muitas das minhas buscas não faziam sentido nem mesmo para mim. Todavia, o tempo foi passando, e determinados comportamentos cada vez me incomodavam mais. É necessário que esclareça uma questão: mesmo que tudo já dito antes causasse, algumas vezes, náuseas em mim, é imperioso dizer que uma trajetória acadêmica tardia me fez demorar bastante para compreender as inquietudes ressoantes nos pensamentos.


As religiões e o feminino


Evidentemente, o comportamento de subserviência não é somente feminino, ele permeia as relações em todas as instâncias, perpassa os ambientes de trabalho, as relações de convivência dentro das organizações onde, muitas vezes, acontecem os abusos de poder, os assédios morais, as humilhações, as cobranças, tudo isso é repleto de busca pela subserviência do outro. As relações, até as mais superficiais, trazem um toque de necessidade de poder. Talvez, essa busca de dominação seja advinda da formação das sociedades. Não entrarei em área que desconheço, todavia, se analisarmos a formação da sociedade brasileira em específico, é facilmente encontrado o comportamento de subjugação do outro. A dominação que pode ser entendida como a primeira, de acordo com algumas historiadoras feministas, é do homem sobre a mulher.

Os hábitos que os missionários descreviam eram ou reminiscências do cristianismo primitivo ou deturpações promovidas pelo Diabo; não havia a hipótese de serem concebidos apenas como estranhos ao universo cristão. Essa possibilidade feria um importante princípio da ortodoxia cristã: a ideia da monogenia dos seres humanos e de que todos os homens são descendentes de Adão e Eva, como registrado na Bíblia. (RAMINELLI, 2004, p. 12)

As religiões tradicionais, no que se refere às impostas pelo eurocentrismo e que são baseadas nos escritos bíblicos, relegam à mulher um espaço de submissão total. Ainda, quando a eleva a mãe do Salvador, isto lhe é imposto, sem nenhuma “consulta” ou permissão. O feminino carrega a marca do pecado original, por esta razão, a mulher deve ser impingida da responsabilidade de todos os males da humanidade.

Adão obedecia aos preceitos divinos e não tocava no fruto proibido. Logo após a sua criação, Eva não se conteve, comeu da fruta e ainda a ofereceu ao companheiro. Desde então, a raça humana sofre os castigos divinos, originados do desatino de uma mulher. (RAMINELLI, 2004, p. 25)

Esse pensamento de que a mulher pecadora é responsável por todos os sofrimentos da humanidade perpassa todas as camadas sociais e molda comportamentos até os dias atuais. O senso comum, ainda, credita ao feminino o peso da expulsão do paraíso, ignorando totalmente a ciência, ou fingindo que a mesma não existe. Dessa maneira, justificando as piores atrocidades, bem como os hábitos mais nefastos à vida feminina. Até o presente, as narrativas pautadas por frases bíblicas, tais como: “a mulher precisa obedecer ao marido”, “uma mulher precisa saber se portar em sociedade”, ou, “quando o homem não encontra o que quer em casa vai procurar na rua”. Esta última frase, numa referência clara à questão sexual, sustenta a primícia da subserviência feminina.

Quebrar esse paradigma religioso me parece um caminho a ser construído na busca por uma estrutura social menos opressora com relação à mulher. A sociedade patriarcal brasileira permanece no lugar de subjugar o feminino, em episódios nos quais o intuito é difamar uma mulher. Os adjetivos utilizados são sempre aqueles que atacam o feminino na honra, até mesmo quando o intuito é atacar o homem, usa-se de frases que diminua sua genitora.

As vestimentas e o comportamento social e afetivo da mulher, dentre outras coisas, são pautados pela necessidade de seguir uma estrutura determinada por homens que criaram o tipo ideal de mulher, como há pouco foi divulgado por um meio de comunicação: “bela, recatada e do lar”.

Aqui, o que busco é provocar o pensamento para modificar uma realidade cruel que, ainda hoje, subjuga a mulher e a coloca à margem.



*Luzimar Soares é Historiadora (PUC-SP).


Referências:


PRIORI, Mary Del. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.

RAMINELLI, Ronald. Eva Tupinambá. IN: DEL PRIORI, Mary. (Org.) História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.


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