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A saga de um meteorito encantado


Rio de Janeiro, 01 de setembro de 2021.

Luciene Carris*


No dia 02 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções destruiu o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista. São melancólicas as minhas recordações daquele dia. As imagens das labaredas que consumiram a construção circularam o mundo. Cerca de 20 milhões objetos foram perdidos entre fósseis, múmias, peças indígenas, além de livros raros. O certo é que o incêndio mostrou a necessidade da melhoria da preservação dos museus brasileiros, isto é indiscutível. Mas demonstra também a falta de interesse da sociedade pelas instituições científicas e culturais do país, ou melhor, a precariedade de políticas públicas destinadas para tais entidades. Não podemos esquecer o caso recente incêndio no galpão da Cinemateca Brasileira de São Paulo.


O Museu Nacional, que é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui uma longa história. Criado em 1818 como Museu Real por D. João VI, funcionou durante um tempo no Campo de Santana. Até o fatídico acontecimento de 2018, já na Quinta, quando completou 200 anos, foi considerado um dos museus de história natural e antropologia mais importantes do mundo. O casarão tornou-se a morada de D. João em 1808, foi a residência da Família Imperial, ao longo dos anos sofreu diversas transformações e reformas até se transformar naquele palácio em estilo neoclássico como bem lembramos. Sediou ainda primeira Assembleia Constituinte Republicana entre 1889 e 1891. No ano seguinte, dois anos depois da Proclamação da República, foi transformado em um museu de história natural.




As minhas recordações do palácio e da Quinta da Boa Vista são inúmeras. Qual turista ou carioca não visitou o lugar? Comecei a visitar em tenra infância com os meus pais. A Quinta era o lugar adequado para encontrar outros migrantes nordestinos como a minha família. Aliás, o bairro de São Cristóvão, onde se localiza o espaço da feira nordestina, durante um bom período serviu como ponto de chegada e partida de migrantes. Nas minhas reminiscências de outrora, a Quinta era um espaço de lazer gratuito e de confraternização com direito à piquenique, aos passeios de pedalinho, à visita ao antigo zoológico e ao museu, cujo cheiro do espaço característico ainda guardo na memória olfativa. Possuo ainda o registro imagético daquelas múmias que bem lá no fundo me amedrontavam. Um outro estranho objeto era alvo das minhas fantasias. Era um meteorito que me causava um certo espanto. “Como poderiam existir objetos que caem do céu aleatoriamente?”, e, me indagava, ainda, se eles cairiam na minha cabeça em algum momento.


Deixando de lado as fantasias juvenis, tempos depois o curioso objeto se tornou parte da minha pesquisa, ainda que indiretamente. Me deparei com a história do traslado do meteorito de Bendegó, quando estudei a trajetória da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro entre 1883 e 1945. Nas páginas da sua revista é possível vislumbrar a epopeia do seu traslado do sul da Bahia para o Rio de Janeiro. É uma história que ainda me fascina eventualmente, quando releio as atas e os noticiários da revista dessa associação.



Crédito: Site do Museu Nacional, UFRJ.


Em 1784, um certo Joaquim de Motta Botelho comunicou ao en­tão administrador da capitania da Bahia, Dom Rodrigo José de Menezes, ter encontrado “uma pedra extra­ordinária que supunha conter ouro e prata”. Para tanto, um carretão de madeira puxado por bois foi projetado. Porém, a tentativa malogrou, “o carretão na descida da colina, tomou carreira; os eixos se incendiaram e foi encalhar no riacho Bendegó, a 180 metros do lugar onde tinha caído”. Tempos depois, em 1810, o geólogo Aristides F. Mornay foi designado para estudar as fontes minerais no inte­rior da província, resolveu, então, procurar o tal do Bendegó. Acreditava-se que a pedra era de ouro e prata, porém Mornay suspeitava que se tratava apenas de um meteorito.


Cerca de dez anos mais tarde, os naturalistas alemães Johann Baptiste von Spix e Carl Friedrich Phillipp von Martius, em viagem pelo interior do Brasil, encontra­ram o objeto enterrado no riacho. Os naturalistas conseguiram extrair apenas duas amostras com pouco mais de alguns quilogramas, uma vez que já haviam sido retiradas todas as pequenas saliências pelas pessoas da região. Muitas partes do Bendegó haviam sido já enviadas para os museus de Munique, de Petersburgo, de Berlim e de Copenhague. Em 1886, o D. Pedro II achava-se na Europa, quando recebeu a visita de alguns cientistas da Academia de Ciências de Paris que lhe pediram para que fosse realizada a remoção do objeto do interior da Bahia. Mas só no ano seguinte, algumas medidas seriam efetivamente tomadas.


Uma comissão especial partiu do Rio de Janeiro no dia 20 de agosto de 1887 liderada pelo engenheiro José Carlos de Carvalho. Para o trans­porte da pedra construiu-se um “(...) carretão de ferro batido montado sobre dois pares de rodas de flange e dois pares de rodas de madeira”. As dificuldades no traslado foram inúmeras. O conhecimento técnico aplicado desdobrou-se em inúmeras questões. Primeiro, o levantamento de várias pontes provisórias para ultrapassar os riachos, além de 32 córregos e lagoas. Além disso, houve a necessidade de se abrir novos caminhos até o porto, numa extensão de cerca de 26 quilômetros. Tudo isto, fora os acidentes que aconteceram no percurso. Basta dizer que o meteorito caiu cinco vezes de cima do carro que lhe servia de transporte. Até chegar ao porto de Salvador, veio pela estrada de ferro da Bahia ao São Francisco que era monopólio de uma companhia inglesa, de­pois foi transportado por navio até o Rio de Janeiro.



Desenho do carro que transportou o Meteorito de Bendegó.

Relatório, 1888. Fonte: Archive.org.


O Bendengó finalmente chegou à Corte no dia 15 de junho de 1888, de­pois de 120 dias de viagem sendo, em seguida, levado ao Arsenal de Mari­nha para que fosse estudado. Dez dias depois, seria realizada uma sessão consagrada ao meteorito na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro no Centro, com a presença de Princesa Isa­bel, do Conde d’Eu, além de outras notabilidades do cenário intelectual e político da época. No lugar onde fora encontrado o meteorito ergueu-se um monumento no formato de uma pirâmide retangular em homena­gem ao monarca, no município de Monte Santo. Como se observa, o traslado do meteorito envolveu diversas pessoas e empresas, inclusive as doações em dinheiro do Barão de Guahy, Joaquim Elísio Pereira Marinho, então presidente da província da Bahia. O objeto ficou exposto na Praça da Aclamação, atual Campo de Santana, e mais tarde foi recolhi­do ao Museu Nacional. Para a Exposição Universal realizada em Paris, em 1889, construiu­-se uma reprodução no tamanho original em madeira. Constam, ainda, outras réplicas como uma reprodução em gesso, que se encontra no Museu do Sertão, além de outras encontradas no Museu Geológico da Bahia e no Museu Antares de Ciência e Tecnologia na Bahia.


Meteorito de Bendegó, Relatório, 1888. Fonte: Archive.org


Em 1896, um estudo sobre o meteorito constatou a presença de níquel e de ferro, entre outros elementos químicos, mas nada de metais preciosos como se cogitou um dia. Dada a sua estrutura, o objeto sideral de cerca dois metros e cinco toneladas resistiu bravamente ao incêndio que consumiu o Museu Nacional. Não seria por menos depois da longa epopeia que envolveu logística e pessoal capacitado. Mas no imaginário da população local, a sua remoção provocou uma grave seca. Não por acaso virou ainda tema do cordel A saga da Pedra do Bendegó, como se observa nos versos a seguir: “A pedra constituída de ferro, níquel e encanto. Até o dia de hoje provoca tristeza e encanto. Queremos nossa pedra de volta. De volta pro nosso canto."


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


Referências:


AMORIM, Diego; TEIXEIRA, Fábio. Resistente a altas temperaturas, meteorito Bendegó do Museu Nacional fica intacto após incêndio. O Globo, Rio, 03/09/2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/resistente-altas-temperaturas-meteorito-bendego-do-museu-nacional-fica-intacto-apos-incendio-23033158 Acesso em: 31 ago. 2021.


CARDOSO, Luciene Pereira Carris. O lugar da geografia brasileira: a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (1883-1945). São Paulo: Annablume, 2013.


CARVALHO, José Carlos de. Meteorito de Bendegó. Relatório apresentado ao ministério da agricultura, commercio e obras publicas e a Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro sobre a remoção do meteorito de Bendengó do sertão da provincia da Bahia para o Museu Nacional, 1888. Disponível em: https://archive.org/details/livro_CARVALHO-JOSE Acesso em: 31 ago. 2021.




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