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A pesquisa fora da academia



Guarulhos, 15 de junho de 2023.

Luzimar Soares*


Recentemente, escrevi sobre a necessidade de maior investimento em pesquisas acadêmicas, todavia, sabemos que muitas pesquisas são desenvolvidas por pesquisadoras(es) independentes. Muitos se munem apenas do desejo de trabalhar para encontrar respostas para questões que as incomodam. Muitos dos trabalhos têm como foco levantar as necessidades de suas comunidades e ̸ ou de suas lutas enquanto pessoa menorizada.


É sabido que a academia não absorve toda a mão de obra que é formada. Desconheço estudos que falam exatamente sobre as razões pelas quais muitos mestres, doutores e pós doutores não são absorvidos pelo mercado de trabalho. É bem verdade que não temos universidades suficientes para acolher todos esses profissionais.



Crédito da imagem: WIX.


Também é de domínio público que, nos últimos anos, com a expansão das aulas à distância, muitas universidades particulares reduziram seus quadros de profissionais, especialmente os professores. Isso contribuiu e muito para “engrossar o caldo” dos profissionais da educação que acabam tendo que migrar para outras áreas. Mas muitos professores, pesquisadores e estudiosos se mantêm na educação ainda que não estejam nas salas de aula.


Um dado importante publicado no site do Governo Federal mostra que a maioria dos profissionais, nos primeiros anos de ensino até o Ensino Médio, é de mulheres, especialmente aquelas que trabalham na educação infantil. Gradativamente, o percentual diminui. De acordo com os dados:


De acordo com o Censo Escolar 2021, 595 mil docentes atuaram na educação infantil no ano de referência do levantamento. Já o ensino fundamental concentrou a maior parte dos profissionais da educação básica: 1.373.693 (62,7%) dos 2,2 milhões. Um total de 516.484 atuou no ensino médio. As professoras correspondiam à maioria em todas as etapas, segundo a pesquisa: 96,3% na educação infantil, 88,1% nos anos iniciais e 66,5% nos anos finais do fundamental, respectivamente. No ensino médio, 57,7% do corpo docente era composto por mulheres.


Contrariamente ao que se percebe até o Ensino Médio, no caso do Ensino Superior e da pós-graduação, os homens estão em maior quantidade. No mesmo site, alguns dados mostram que mestres e doutores estão em maior número, tanto no ensino público, quanto no privado.

No que diz respeito à docência em cursos de graduação, mais especificamente no que tange ao grau de formação dos profissionais, o Censo da Educação Superior 2020 mostrou que 35,2% (113.740) dos 323.376 professores possuem mestrado e 48,9% (158.225), doutorado. Os doutores são mais frequentes na rede pública, enquanto, na rede privada, a maior parte é de mestres, no ano de referência da pesquisa. Homens são maioria nas duas redes de ensino.


A intenção de trazer esses dados é para chamar a atenção para duas coisas. A primeira é que, se temos mais homens mestres e doutores, devemos buscar compreender por que tantas mulheres estão nas salas de aula, mas não chegam em mesmo número aos graus mais altos. A segunda coisa é sobre as que chegam aos graus mais altos, como mestras, doutoras e pós doutoras: elas têm as mesmas oportunidades de ingressarem nas carreiras que os homens têm?


Há equidade nas competições? As pesquisadoras são realmente vistas com o mesmo olhar que seus pares do gênero oposto? Mas, para além disso, quando não estão inseridas nas universidades, institutos, ou afins, conseguem produzir? Ou melhor, suas produções têm a mesma credibilidade que a de outros pesquisadores? O trabalho de investigação acadêmica é solitário, é difícil e talvez, não é demais dizer que sempre foi atacado e, nos últimos anos, no Brasil, os ataques foram ainda maiores.


Diante desse cenário, vemos que a academia ainda é um lugar a ser conquistado pelas mulheres, mas essa conquista não se dará de maneira fácil. É bem verdade que muito se modificou, mas historicamente, tivemos, no país, homens sendo mandados para a Europa para se educarem, e mulheres sendo obrigadas a aprenderem como serem boas donas de casa.


Mas, quero voltar às pesquisadoras independentes. No mundo midiático da atualidade, no qual vídeos curtos chamam muito mais atenção do que textos longos, torna-se cada vez mais complexo, se não montarmos uma rede de ajuda mútua, se não entendermos as disputas, se não nos apoiarmos, dificilmente seremos reconhecidas.


Produzir um livro a partir de uma pesquisa sem patrocínio não é apenas difícil. Dias, noites, semanas, meses e, algumas vezes, anos são dedicados a pesquisas para depois não saber se conseguirá publicar e, assim, dar acesso ao público em geral. O que significa dizer que é praticamente impossível levar uma pesquisa até o fim.


Talvez um caminho para as pesquisadoras e pesquisadores levarem suas descobertas a cabo e torná-las acessíveis seja a história pública, e aqui advogo em causa própria. Vejo espaços como esse Blog, e também como o podcast Sarau da Casa Azul do qual faço parte, como lugares para divulgarmos nossas pesquisas e fazermos trabalhos unindo forças, e formarmos um arcabouço histórico de descobertas.


Os anos 2000 trouxeram muitas lutas, muitas descobertas e muitos obstáculos. A ascensão social e o acesso que as mulheres lutaram para ter, e realmente tiveram em alguns casos, fez surgir lutas que precisam ser cada vez mais interseccionais, transdisciplinares e, acima de tudo, inclusivas. Para os que estão de fora do circuito formal das academias, resta a certeza de que temos sim lugares para trabalhar, mas são lugares onde se não nos apoiarmos, seremos engolidos.


Por fim, gostaria de agradecer a cada amigo, colega e desconhecido que para alguns minutos para nos ler, que compartilha nosso trabalho e, especialmente, a quem critica, pois quem o faz, nos impulsiona a melhorar. E aqui, peço a “bênção” do grande Machado de Assis que, em um de seus livros, agradeceu ao público. Ao lê-lo, lembrei-me mais uma vez, precisamos sempre dos leitores. Ele, o grande Machado disse: Aproveito a ocasião que se me oferece para agradecer à crítica e ao público a generosidade com que receberam o meu primeiro romance, há tempos dado à luz. Trabalhos de gênero diverso me impediram até agora de concluir outro, que aparecerá a seu tempo (10 de novembro de 1873).


Referências:


Assessoria de Comunicação Social do Inep. Dados revelam perfil dos professores brasileiros. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/institucional/dados-revelam-perfil-dos-professores-brasileiros. Acesso em 10 jun. 2023.

ASSIS, Machado. Histórias da meia-noite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.



*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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