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  • Foto do escritorLuzimar Soares

A História do Século 20: Conflitos, tecnologia e Rock´n´roll.

Guarulhos, 15 de agosto de 2022.

Luzimar Soares*.


Pela primeira vez aqui no Box Digital de Humanidades, aproveito o espaço para apresentar uma obra de terceiros. Confesso que não estou achando uma tarefa fácil, todavia, como desafiar a mim mesma tem sido a tônica da minha vida, aceitei a tarefa de trazer uma obra nova que fala de um século de História.




Historiadores, de maneira geral, tendem a seguir uma forma de escrita bastante formal, algo que tem sido, inclusive, criticado por muitos setores, até mesmo pela própria academia que diz precisar de uma escrita mais acessível, menos academicista e mais próxima do público. Por essa razão, muito tem se discutido formas outras de escrever as pesquisas, mas especialmente, na História, escolhemos um recorte temporal curto; assim, conseguimos pesquisar com profundidade aquele período, bem como, invariavelmente, o recorte de tema é muito específico também.


Ao me deparar com a obra, o tempo ali pensado é exatamente um século, porém, não é possível falar só de um século. Os acontecimentos têm antecedentes, bem como reflexos posteriores, portanto, o livro traz bem mais do que um século de acontecimentos históricos. Em um quadro cronológico: ano 1900 – Levante dos Boxers na China, e termina em 1998-9 – Guerra do Kosovo.





O passeio que o autor faz ao longo da História do século XX traz muitas reflexões. Especialmente, faz pensar sobre a necessidade de muitas pesquisas para se compreender o hoje, a construção da História, principalmente aquela história ligada aos conflitos e às guerras internacionais e mundiais. A construção de narrativas que justifiquem as atrocidades de uma guerra não é feita da noite para o dia, tampouco é obra de um homem só, assim como a tortura e o desprezo dados aos civis. “Embora não na escala da guerra mundial seguinte, houve tratamento pavoroso de civis, como na matança alemã de belgas em 1914 e no uso alemão da guerra submarina irrestrita”.


O tempo dedicado a falar sobre as guerras é extenso, assim como o autor dedica bastante tempo para falar sobre as consequências dos conflitos internacionais. Algo bastante evidenciado nos escritos é a forma como as grandes potências utilizam a cultura para se promoverem e se reconstruírem, para convencerem as pessoas de que o país está fazendo absolutamente tudo certo, e que a população precisa apoiar as decisões dos governantes. Ao falar sobre a Guerra Fria e o anticomunismo americano,


As visões alternativas de um país mais igualitário foram, em vez disso, apresentadas como causa e reflexo da divisão interna, sob os indesejáveis radicalismo e conflito de classe. Eric Johnston, presidente da Motion Picture Association, anticomunista ferrenho, disse aos roteiristas que assim agissem e teve apoio de Ronald Regan, presidente da Screen Actors Guild, a guilda dos atores de cinema, que ligava radicais e grevistas a comunistas estrangeiros. Mais tarde, Regan se tornou presidente dos Estados Unidos.


O comunismo, aliás, é algo bastante levantado pelo autor ao longo dos escritos, considerando que o medo desse tipo de governo justificou não somente guerras internacionais e conflitos internos, mas também muitos Estados de regimes ditatoriais, como é o caso do Brasil. Ao longo da leitura, é possível perceber as construções ao redor do mundo das narrativas que justificam tomadas de decisões pautadas no fantasma de um sistema, especialmente no momento da guerra fria. Em se tratando de América Latina, esse pavor levou aos governos ditatoriais, que permaneceram no poder por muito tempo. “No Brasil, a instabilidade e o temor do comunismo levaram o exército, ansioso para impor ordem e progresso, a tomar o poder em 1964, passo apoiado pelos Estados Unidos”.


O livro elenca, além de outras coisas, o papel da tecnologia, papel esse que não se restringe ao cotidiano das pessoas, mas à importância das descobertas científicas na alternância de poder das grandes potências, ou seja, os usos das ciências para garantir que os imperialismos se mantenham no topo da cadeia de poder desde o início do século, com o uso dos aviões, dos carros, passando pelas bombas atômicas, pelos computadores e, claro, pela medicina. Sendo assim, a leitura nos coloca diante dos grandes feitos e possibilita que compreendamos acontecimentos que parecem distantes, mas que têm reflexos até os dias atuais.


Durante a leitura, é possível perceber que as guerras são extremamente lucrativas, e que, no século XX, o país que mais lucrou com esses acontecimentos foram os Estados Unidos da América. Essa lucratividade não necessariamente é financeira (ainda que sempre traga a reboque a questão monetária), mas os lucros se dão, também, na imagem que cada nação passa a ter no pós-guerra, ou seja, como o mundo verá sua participação e especialmente sua força para tomada de decisões.


O legado da guerra inclui a opinião de que os Estados Unidos eram a maior potência e assim deveriam permanecer. Essa opinião teve grande consequência em termos dos pressupostos que ajudaram a estruturar o papel americano na Guerra Fria e a disposição dos americanos a sustentar essa luta.


A obra, além de abarcar um espaço temporal longo, traz muitas informações que de maneira quem não estuda os temas não tem por hábito conectar, portanto, o livro traz reflexões importantes para pensarmos que a política está presente em todos os seguimentos da vida. Não é possível entendermos os acontecimentos, concatenar todos esses eventos com a política e entender as ligações de poder e as trocas.


O autor provoca os leitores a pensar sobre todos esses temas com um vocabulário leve e acessível, ainda que ele não traga à baila a questão da História Pública. Essa é uma linguagem que tem sido usada por este ramo da História para se aproximar mais do público em geral e sair da “torre de marfim”, provocando o interesse do maior número possível de leitores e, assim, talvez fazer com que a História se torne mais próxima do público geral.



Referências:

BLACK, Jeremy. A História do século 20. São Paulo: M. Books do Brasil, 2022.





Sobre o autor: Jeremy Black, agraciado com a Ordem do Império Britânico, é membro sênior do centro de estudos britânico Policy Exchange e professor emérito de História da Universidade de Exeter. Atuou como professor visitante da Academia Militar de West Point, da Universidade de Durham e se pós-graduou na Universidade de Oxford, depois de se formar na Universidade de Cambridge. Em 2008, recebeu o Prêmio Samuel Eliot Morison da Sociedade de História Militar dos Estados Unidos. No decorrer da carreira, escreveu mais de cem livros sobre temas como a política britânica do século XVIII, a história da guerra e a influência cultural de James Bond. Entre seus livros recentes, estão A History of Europe, England in the Age of Shakespeare e a Brief History of Portugal.


Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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