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  • Foto do escritorCarlos Eduardo Pinto de Pinto

A arquitetura neocolonial no Grajaú

Atualizado: 21 de jun. de 2023

Rio de Janeiro, 06 de junho de 2023

Carlos Eduardo Pinto de Pinto*


O Grajaú, um dos lugares mais agradáveis da Zona Norte do Rio de Janeiro, é um dos poucos bairros planejados da cidade, junto com Vila Isabel – o mais antigo, inaugurado em 1872 –, parte do Centro, Marechal Hermes, Urca e o núcleo inicial da Barra da Tijuca, onde recentemente o conceito vem sendo apropriado por empreendimentos imobiliários que, ao pé da letra, não passam de condomínios de luxo.

Quando me refiro a “planejamento”, quero dizer que as ocupações do Grajaú foram previamente traçadas visando à ordenação do espaço, bem como ao fornecimento de infraestrutura básica, como água encanada, esgoto e iluminação. Experiência diversa, portanto, da maioria dos bairros cariocas, cujo arruamento se expandiu acompanhando contornos naturais, como as curvas de um rio ou de um morro.


De acordo com Márcia Pereira Leite (2001, p. 92), a origem do bairro, no início do século XX,


(...) foram dois grandes loteamentos realizados no antigo arrabalde do Andaraí Grande, que incorporaram terras de fazendas de café à malha urbana da cidade. O primeiro loteamento foi realizado pela Companhia Brasileira de Imóveis e Construção e compreendia as terras situadas entre a Serra dos Pretos Forros e um caminho posteriormente denominado Rua Borda do Mato. O outro, chamado Vila América, foi promovido pela T. Sá e Companhia Limitada e englobava os terrenos que iam desse ponto ao que hoje é a Rua Botucatu (...). A partir dos anos 20, o bairro foi se desenvolvendo com o desenho do primeiro loteamento.

Embora o segundo loteamento tenha sido incorporado aos limites do Grajaú, o caráter planejado se sobressai apenas no perímetro do primeiro, nas ruas paralelas à Avenida Engenheiro Richard – nome do proprietário da empresa responsável pela urbanização do novo bairro e figura de destaque entre seus moradores. Apesar de só ter merecido ações de tombamento recentemente e, por esse motivo, abarcar diversas tendências urbanísticas e arquitetônicas, o Grajaú ainda mantém exemplares muito bem preservados de suas primeiras gerações de edifícios, em especial as casas neocoloniais, meu objeto de interesse neste texto.

O estilo neocolonial** surgiu na década de 1910 como uma arquitetura moderna, afinada com as necessidades técnicas do novo século, mas estilisticamente inspirada no repertório tradicional da arquitetura colonial. O objetivo não era reproduzir edifícios coloniais, mas se apropriar criativamente de seus elementos estéticos. Antes do advento da arquitetura modernista e do Art Déco – que passariam a ser respectivamente valorizados pelas políticas culturais e pela especulação imobiliária na década de 1930 – o neocolonial foi adotado como resposta às demandas nacionalistas e aos impulsos modernizantes da primeira metade do século XX, propondo um amálgama entre tradicionalismo e vanguarda, num equilíbrio tenso comum a diversos modernismos do período.


Após o destaque alcançado na Exposição do Centenário da Independência de 1922 (MOTTA, 1992; KESSEL, 1999; PINTO, 2020), em que foi incentivado pelo prefeito Carlos Sampaio e dividiu espaço com edifícios ecléticos, o estilo ganhou caráter oficial na prefeitura de Prado Júnior (1926-1930), sendo adotado na construção de escolas do então Distrito Federal, cujo exemplar mais famoso é o Instituto de Educação, na Tijuca. Embora nos empreendimentos oficiais o caráter político conservador do estilo contasse pontos, nos projetos residenciais muitas vezes o que determinava seu sucesso era a moda: sinônimo de elegância, se espalhou por diversos bairros cariocas, sobretudo aqueles com planejamento e expansão nos anos 1920, como a Urca e o Grajaú.


Como ocorre em outros bairros planejados, uma caminhada pelas ruas do Grajaú possibilita compreender valores e gostos atuantes nos primeiros tempos de sua criação. Minha proposta a partir de agora é observar, através das grades ou cercas de arame farpado, as construções afinadas com o estilo, procurando decifrar os elementos estéticos mobilizados em cada projeto.


Casa neocolonial na rua Araxá. Foto do autor.


O primeiro exemplar analisado é essa platibanda, parte da fachada que serve para esconder o telhado, que aqui aparece em formato curvilíneo, abrigando um medalhão de azulejos ornamentais ao centro e, nas laterais, as volutas (formas que lembram “caracóis”, presentes também nos detalhes sobre a moldura da varanda e no canto, à direita, como arremate do beiral). Esses três elementos fazem parte do repertório básico das fachadas neocoloniais, remetendo a detalhes da arquitetura colonial: a platibanda imita os frontões curvos de algumas igrejas barrocas, raros no Rio de Janeiro, mas presente, por exemplo, na Igreja de Santa Rita; as volutas aparecem em muitos edifícios coloniais, como na fachada da Igreja de Santa Cruz dos Militares e do Paço Imperial; e a decoração em azulejaria é uma das marcas da Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Ainda chama a atenção o acabamento das telhas em capa e canal (concavidade para baixo se sobrepondo à concavidade para cima), outro elemento comum nas casas neocoloniais, como referência simplificada aos ricos beirais das residências nobres coloniais.


Vale lembrar, como informei na parte inicial do texto, que não se trata de uma simples cópia desses elementos, mas de uma apropriação criativa pautada pelas imposições da vida moderna - nos casos abordados aqui, a ideia era construir residências confortáveis de classe média no subúrbio carioca e, não, reproduzir fielmente edifícios coloniais.


Casa neocolonial na rua Canavieiras. Foto do autor.


Na casa acima, além da presença da platibanda curvilínea com medalhão em azulejaria e telha em capa e canal, já comentados, aparece mais um elemento do neocolonial, que é a coluna torsa ou salomônica, presente na moldura da janela e “sustentando” a varanda em forma de alpendre. Na sobreverga da janela, mais uma vez aparecem as volutas e, nos cantos abaixo dos beirais, duas conchas, traços característicos da decoração barroca e rococó. Sobre a platibanda, as pinhas em cerâmica branca e azul se conectam com os azulejos do medalhão. Os detalhes das grades dos portões, apesar de possuírem linguagem Art Nouveau, estabelecem bom diálogo com o restante da casa, ornamentando sem causar ruído na apreciação da fachada.



Casa em estilo neocolonial hispânico ou mission style na rua Grajaú. Foto do autor.


Aqui o neocolonial brasileiro se aproxima de uma moda estadunidense inspirada em construções de territórios dos EUA originalmente explorados por colonização espanhola. O estilo “missões”, apesar da distância formal em relação à experiência arquitetônica brasileira, fez grande sucesso no país. Chama a atenção, do lado esquerdo, o torreão largo – um traço de identificação do estilo –, e, do lado direito, a varanda lateral superior em madeira e a utilização do granito na decoração do arco da varanda térrea e do muro.


Casa neocolonial da Avenida Engenheiro Richard. Foto do autor.


Neste projeto o elemento mais chamativo é a coluna toscana, típica de construções rurais na Colônia (no Rio, presente na casa da Fazenda do Capão do Bispo). Ainda, a utilização criativa do granito na decoração do muro e da varanda, marcando as molduras em torno da janela lateral e da entrada principal, ambas em arco, embora com angulações diferentes. Sob os beirais, a decoração imita apoios de madeira.


Edifício em diálogo com o neocolonial na praça Edmundo Rego. Foto do autor.


Para finalizar o passeio, trago o registro de um edifício de apartamentos que incorpora elementos formais associados ao neocolonial. Apesar de o estilo ter ficado mais conhecido pelos projetos de residências, ou de edifícios públicos monumentais, não é raro encontrar construções como essa, sobretudo nos subúrbios. O projeto parte de uma base Art Déco, mas inclui detalhes e acabamentos neocoloniais, como o medalhão sob o frontão triangular (à direita), o acabamento curvo das varandas do primeiro andar e as colunas toscanas no segundo, além dos beirais com telhas em capa e canal. Para arrematar, a presença dos cobogós, elementos vazados feitos de argila que ornamentam as varandas. O uso desse recurso remete ao muxarabi colonial, a treliça em madeira de origem árabe comum em portas e janelas das residências cariocas antes da chegada da Corte portuguesa, em 1808, quando foi proibida.

Espero que esse pequeno passeio sirva de incentivo a uma visita ao bairro, onde muitas outras construções (não apenas neocoloniais) funcionam como um registro da história da arquitetura carioca nos subúrbios.


* Carlos Eduardo Pinto de Pinto é historiador e professor de História (UERJ).

** O trecho sobre a história do neocolonial foi adaptado do capítulo “O grande favorito do momento”, minha contribuição para a obra Independências e modernismos: outras modernidades no Brasil Republicano (2022).


Referências

KESSEL, Carlos. Estilo, discurso, poder: arquitetura neocolonial no Brasil. História Social (Campinas), Campinas, v. 6, n.1, 1999. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/download/179/170. Acesso em: 12 jul. 2021.

LEITE, Márcia Pereira. Grajaú, memória e história: fronteiras fluidas e passagens. Cadernos Metrópole, São Paulo, n. 5, v. 1, 2001. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/metropole/article/view/9298 Acesso em: 5 jun. 2023.

MOTTA, Marly Silva da. A nação faz cem anos: a questão nacional no centenário da independência. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1992.

PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. A nação em pedra e celuloide: o neocolonial em documentários sobre a Exposição do Centenário da Independência (1922). In: COELHO, Maria Claudia; CAVALCANTI, Lauro (org.). Modernismo. Rio de Janeiro: Instituto Casa Roberto Marinho, 2020 (Ensaios/01). p. 12-47

______. O grande favorito do momento: o caráter moderno da arquitetura neocolonial na revista feminina Vida doméstica nos anos 1920. In: MAIA, Andréa Casa Nova; FAGUNDES, Luciana Pessanha (org.). Independências e modernismos: outras modernidades no Brasil Republicano. Rio de Janeiro, Telha, 2022.



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