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Teatro, cultura de elite ou popular?

Luzimar Soares*

Guarulhos, 01 de junho 2021.


Historicamente, o teatro é uma arte de elite. Em muitos filmes, é possível assistir a eventos de ópera em espaços elegantíssimos, com pessoas da burguesia muito bem vestidas assistindo às peças de forma austera. De maneira geral, todas as pessoas, de uma forma ou de outra, já ouviram falar em William Shakespeare, o gigante da dramaturgia teatral. Romeu e Julieta segue a história, virou filme, é remontada, revivida em muitos locais ao redor do mundo.


Quando falamos de teatro nacional, temos que levar em consideração que as primeiras encenações tinham, como objetivo principal, a catequização da população autóctone. Os jesuítas utilizavam da teatralização de forma pedagógica para transmitir os seus valores e crenças para as populações nativas. Obviamente, utilizavam a cultura local e as formas de vida dos nativos, teatralizando suas culturas e, assim, promovendo a intervenção buscada para dominação e ressignificação das vidas das populações locais.


Seja lá nos primórdios, quando José de Anchieta foi o nome do Teatro, seja quando D. João VI estabeleceu alterações, seja no pós independência, ou nos momentos posteriores, quando autores como José de Alencar escreveram peças, o surgimento do Teatro de revista trouxe liberdade e oficialidade ao Teatro brasileiro. O certo é que a cultura teatral, de certa maneira, sempre esteve longe do popular.


O primeiro teatro inaugurado oficialmente no Brasil foi o Real Theatro São João em 1813 no Rio de Janeiro e foi, em suas dependências, que se assinou a primeira Carta Magna do Brasil Republicano, a Constituição de 1891. Constituição esta que foi a primeira após a Proclamação da República. Politicamente, um momento de grandes mudanças em que os Estados da Federação ganharam autonomia.


Voltando ao Teatro, nosso objeto, assim como outros ramos da cultura nacional, é uma arte que sofre com as alternâncias de regimes governamentais. Os períodos ditatoriais trouxeram grandes prejuízos às artes de maneira geral, e o Teatro não ficou incólume aos ditames desses regimes. A partir de 1964, as peças teatrais sofreram com censuras absurdas. Artistas tiveram que mudar de profissão, e muitos foram perseguidos e até exilados.


Entretanto, a arte sempre resistiu, de uma forma ou de outra, os artistas mantiveram seus trabalhos, até, ou talvez, principalmente, como forma de resistência. Porém, em terras brasileiras, o teatro, também, solidificou-se como uma cultura cara, e, comumente, o senso comum a caracteriza dessa forma. A quantidade de pessoas que nunca estiveram em um espaço teatral é enorme, além de muitos acreditarem que o Teatro não é um espaço cultural para eles.


Mas, será o teatro, realmente, uma arte elitista? Os teatros costumam ser caros, mas existem opções. As escolas de teatro montam peças com seus alunos em formação, com preços acessíveis. No entanto, para além disso, muitas cidades têm seus coletivos de teatro.


A cidade de Guarulhos tem algumas companhias de teatro que passam por diversos desafios para manter suas produções. Sem incentivos e com muito suor, conseguem manter vivas suas experiências artísticas e, assim, compartilhar com seu público.


Aqui, destaco o Grupo Populacho, coletivo que este ano completará 19 anos, que tem, dentro do seu repertório de produções, espetáculos que discutem a sociedade e alguns anseios. Neste ano de 2021, com agravamento da pandemia, tiveram que mudar sua produção e encarar um novo desafio, realizar uma pesquisa voltada a esse novo formato digital/online, e está desenvolvendo uma web série de 04 episódios com textos de William Skakespeare. Os episódios, cada um deles baseado em um texto, discutem a relação de trabalho que alguns personagens desempenham dentro da dramaturgia. O episódio que traz a história do famoso “Romeu e Julieta”, por exemplo, não traz os personagens principais, mas sim, a Ama de Julieta e seu assistente Pedro. A dramaturgia apresenta o que poderia ser os bastidores da trama pelo olhar do proletariado da obra. Aqui, é possível ver para além de um ato de resistência do coletivo, que persiste em se manter atuante, o que Walter Benjamin chamou de história a contrapelo.


Outros coletivos, também, estão embarcando no desafio de apresentações online, buscando novas formas de interação da obra com seu público, gerando provocações a esse novo modelo que se apresenta. Que tipo de arte é essa que se desenha com a pandemia? É um questionamento que já gera reflexões, mas a preocupação não está neste campo, ainda não. Todavia, em tempos tão duros, conseguir realizar os trabalhos com segurança e entregar minimamente as sensações de uma apresentação presencial. Como disse Ferreira Goulart: “A arte existe porque a vida não basta”.


Teatro popular existe, pelo menos em Guarulhos, resiste e persiste em ser popular, em ser visto e feito do povo e para o povo. Ocupar as praças e espaços públicos é o que algumas companhias de Teatro desta cidade tem feito ao longo dos anos, levando, assim, a arte teatral a todos de maneira democrática, gratuita e de resistência.


Resistir é necessário, e através da arte podemos nos alimentar de maneira a transformar a intolerância, seja ela de qual forma for, em espaço de acolhimento e agregação. O Teatro é uma das artes mais palpáveis ao público. Assistir a uma peça teatral traz a sensação de proximidade, quase de amizade com os artistas. E, no Teatro popular, a relação é ainda mais próxima e, por isso mesmo, mais inclusiva.


* Luzimar Soares é Mestre em História Social (PUC-SP).

** O texto reflete a opinião do autor.




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