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Sobre o que é possível aprender com o abismo. Elementos do pensamento de Gustavo Corção.

Toronto, 15 de novembro de 2021.

André Sena.

Foi em um curso de extensão sobre o grande intelectual brasileiro Eduardo Portella, que fiz alguns anos atrás na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ouvi pela primeira vez o nome de Gustavo Corção. Uma década antes desse episódio, eu havia escrito um trabalho para o bacharelado em História sobre o pensamento conservador brasileiro, que se transformaria mais tarde na minha dissertação de mestrado, esta já especialmente voltada para os estudos sobre o pensamento autoritário no Brasil, defendida na mesma UERJ no ano de 2004.



Crédito: Oswaldo Goeldi.


Por essa razão, durante o curso sobre Portella, o nome de Corção imediatamente me chamou atenção, tanto pelo volume e teor da sua obra, quanto pelo pouco que em geral dela se conhece, o que se traduz em um flagrante pecado venial para quem se dedica ao campo da reflexão dentro das humanidades, especialmente no âmbito dos estudos políticos e históricos. Pecado previsível, mas ainda assim, como todo pecado, um obstáculo a uma vida (ao menos intelectual) com mais qualidade e arejamento.

Elogiado tanto por Manuel Bandeira quanto por Raquel de Queiroz, a demasia religiosa e metafísica das ideias do autor de O Desconcerto do Mundo, um tríptico de ensaios publicados por ele em 1965, nunca foram um impeditivo para que um sem número de agentes da intelectualidade brasileira, dos mais diversos espectros ideológicos, pudessem não apenas lê-lo como também recomendá-lo ao público em geral, coisa rara de se ver nos dias de hoje, onde o embotamento cultural e a polarização política são as maiores vitaminas a favor de nosso atraso como comunidade e sociedade.

Era decididamente um intelectual público e não escondia suas posições tradicionalistas, especialmente no universo católico. Foi um implacável combatente do Concílio Vaticano II e do conjunto de reformas progressistas que dele desencadearam, provocando rupturas e inimizades com figuras importantes do pensamento brasileiro como Sobral Pinto, Dom Helder Câmara e Alceu Amoroso lima, de quem fora inicialmente um discípulo devotado.

Seu romance Lições do Abismo, escrito em 1950 e considerado uma das obras primas da literatura brasileira, foi premiado pela UNESCO e chegou a justificar uma indicação do nome de Gustavo Corção ao Prêmio Nobel de Literatura. Entretanto é em O Desconcerto do Mundo que suas ideias sobre o homem e sua relação com a realidade se mostram desafiadoras, podendo ser ainda uma interessante contribuição para o desenvolvimento de um espírito verdadeiramente crítico.

Nesta obra, de natureza especulativamente filosófica, Corção define a vida como um “complicado reumatismo”. Dialogando com grandes nomes da antiguidade, como Hesíodo, da modernidade como Blaise Pascal e com cardeais do mal-estar da contemporaneidade como Albert Camus, o pensador brasileiro discute o problema do paradoxo entre nossos limites materiais e aquilo que podemos chamar de um certo “excesso ontológico”, provocado pela presença na existência humana de elementos que dela se refugiam, rumo a eternidade, ao infinito, ao Divino.

A ideia da vida humana como um desconcerto, provocado justamente pelo descompasso entre nossos limites físicos claros e nossa busca pela eternidade tem suas raízes naquela que talvez seja a maior referência intelectual para Corção: as ideias do pensador inglês Gilbert Keith Chesterton, o príncipe dos paradoxos e autor da obra Ortodoxia, onde tece uma crítica contundente tanto a ideias liberais capitalistas quanto a princípios e conceitos do pensamento socialista. Em grande medida são as obras de Chesterton que conduzem Corção ao argumento de que somos naturalmente levados em direção a uma falsa percepção de um mundo fundamentalmente caótico e desprovido de harmonia, o que provocou ao longo de séculos movimentos históricos de alteração radical ou reengenharia da realidade. Nos escritos de Gustavo Corção, encontramos a alegação recorrente de que há muito mais disponível para a experiência humana do que aquilo que o instante imediato ingenuamente sinaliza.

A acomodação do homem a um presente sempre muito sedutor é não apenas um problema como também um perigo, nos alerta Corção em O Desconcerto do Mundo, assim como igualmente em outras obras suas, como Três Alqueires e uma Vaca, outro ensaio publicado ainda em 1946 ou A Descoberta do Outro, espécie de autobiografia que o tornou um autor conhecido do público, chegada às livrarias e bibliotecas dois anos antes. A defesa da arte e do belo como mecanismo restaurador da percepção harmônica da realidade, necessária a uma experiência humana minimamente saudável, aparece de forma incontornável na obra deste engenheiro eletrônico, que caminhou sem medos pelos campos da teologia, da música e da literatura brasileira.

Nesse sentido, é natural deduzirmos que um pensador da natureza de Gustavo Corção nos apresente uma leitura radicalmente crítica dos argumentos de qualquer sistema de ideias que privilegie uma análise política e social de base essencialmente materialista. Entendia Corção que os movimentos considerados progressistas, que caracterizaram o que hoje chamamos de modernidade tardia, contribuíram para a mecanização do homem e para o privilégio do imediato em detrimento do perene. O materialismo econômico de alguns sistemas ideológicos eram o corolário lógico deste fenômeno.

Sua oposição feroz ao marxismo advém exatamente disso, bem como o apoio público que expressou ao movimento militar que depôs o Presidente João Goulart em 1964, mergulhando o Brasil em uma ditadura. Compreendendo o regime de exceção que duraria 21 anos como um ‘mal menor’, Corção não deixou de tecer críticas ao processo, especialmente a acrobacias jurídicas típicas do período. Considerava os Atos Institucionais uma absoluta inutilidade, e ao mesmo tempo desconfiava de figuras centrais do poder, como Humberto de Alencar Castelo Branco.

O posicionamento político de Gustavo Corção pode torná-lo um autor indigesto para muitos de nós. Isto é tão legítimo como natural. Porém, confundir indigestão com rejeição peremptória pode ser uma pedra de tropeço, na medida em que se perde a oportunidade de ser apresentado a um pensador brasileiro de contornos definitivamente refinados como ele. Conhecer Corção não significa necessariamente esposar suas ideias. Talvez seja esta a equação que precisamos resolver e operar nestes tempos cada vez mais guiados pelo fígado e por antolhos. Ler o Evangelho não nos faz necessariamente cristãos.


*André Sena é historiador (UERJ).


REFERÊNCIAS:


CORÇÃO, Gustavo. Arquivo Privado. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, seção manuscritos, s.d. Carta endereçada a Sobral, 29 jun. 1966.

CORÇÃO, Gustavo. O Desconcerto do Mundo. Vide Editorial, 2019.

PAULA, Christiane Jalles de . Gustavo Corção: apóstolo da ‘linha-dura’. Revista Brasileira de História (Impresso), v. 32, p. 171-194, 2012.

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/gustavo-corcao-braga






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