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  • Foto do escritorAndré Sena

O UNIVERSO HISTÓRICO DE MOANA. História e (é) animação.

Atualizado: 17 de mai. de 2022


Toronto, 16 de maio de 2022.

André Sena*



Nestes dias tão pesados que nosso país atravessa decidi assistir um desenho animado qualquer. Escolhi “Moana – Um mar de aventuras”, produção recente da Disney, muito em função do que amigos a alunos falavam acerca da beleza do desenho. Vi, amei e é claro a síndrome do historiador bateu; fui em busca de informações sobre o em-torno da trama dessa heroína em busca da reconquista da estima e autodeterminação do seu povo.



Crédito: IMDB.COM.


Como não poderia deixar de ser uma porta imensa de informações sobre um mundo já conquistado, pisoteado por grandes potências neo-coloniais e imperialismos de toda sorte apareceram diante mim.


Mesmo assim, a atmosfera topográfica e cultural onde a epopeia de Moana é localizada nos parece ainda, mesmo depois de tantas intervenções, indescritível (no sentido do maravilhoso!). Uma espécie de outro-lado, outro-mundo, fim-do-mundo, ou qualquer dessas construções simbólicas arrogantes que usamos para definir o mais imediatamente possível, o quê ou quem desconhecemos.


Quando pensamos na Polinésia Francesa é preciso que tomemos um impulso mais impetuoso, a fim de nos darmos conta de todo um subsistema internacional de ilhas maiores e menores que formam a Micronésia, a Melanésia e a Polinésia, localizado no Pacífico Sul. Os primeiros contatos com o ocidente europeu se deram no século XVI e seria impossível aqui nomear todos os territórios, países ou protetorados que lá existem. O que não nos impede de citar o Havaí (há controvérsias acerca de seu pertencimento automático à região) e o Tahiti, Fiji, Samoa, Moorea e Bora-Bora.


O azul predominante na animação da Disney tem muito pouco de ficcional, já que basta olharmos fotos e vídeos da região para nos perguntarmos quem imita quem: o desenho copia a realidade, ou o contrário?


Um dos aspectos mais curiosos e divertidos de “Moana – Um Mar de Aventuras” é o personagem Maui, espécie de semi-deus exilado que corresponde a um somatório de personagens mitológicos de várias daquelas ilhas, incluindo as ilhas havaianas. Definitivamente essas ilhas do Pacífico compartilham uma poderosa herança comum que data de 1500 a.e.c., a qual o desenho nos dá algum acesso.


Outro personagem excepcional (me arriscaria a dizer que rouba várias cenas) é a onda animada, que poderíamos definir como um tipo de Sancho-Pansa polinésio, já que Moana é o tempo inteiro por ela assistida e muitas vezes orientada. Não se trata de uma ficção in totum, já que o criador da animação se inspirou em um fenômeno típico de algumas praias da Polinésia onde algo semelhante a geiseres projetam cilindricamente ondas em movimentos quase controlados pela própria natureza.


Nos aproximemos agora ao personagem principal: a intrépida princesa Moana Waialiki. Estudiosos apontam que o desenho na verdade projeta a existência histórica de grandes líderes femininos da civilização polinésia, especialmente das ilhas de Togatapu e Tutuila.


Curiosamente a região tem uma intensa atividade em termos de política internacional, especialmente na esfera regional, oscilando entre relações mais diretas com a Nova Zelândia, Austrália e China. A Universidade Rarotonga e Suva do Pacífico Sul vem publicando estudos sobre as relações internacionais na região desde os anos 1990 e hoje já podemos considerar a Polinésia como um campo interessante de estudos em termos de investigações acadêmicas em política internacional.


Entre países independentes, semi-independentes e ilhas que ainda se encontram em estatuto colonial, podemos descobrir muito sobre essa parte do planeta em termos de história política e cultural. Moana me despertou esse interesse, pois o desenho aponta-nos o detalhe da antiguidade histórica (e mítica) daquelas ilhas, e de como a longa duração ainda pode nos mostrar ali o jogo entre descontinuidades recentes e a força das permanências.


Nada mais encantador para quem ama história como eu. Como nós. E como a sabedoria das ilhas no pacífico nos sugere, há muito por detrás daqueles mares, ou melhor: Mohala i ka wai ka maka o ka pua (por baixo das ondas muitas flores podem ser reveladas.)


REFERÊNCIAS:

PERIN, Luiza. Vou de Canoa. Um olhar sobre a cultura polinésia e outras histórias do mar. Ed. Edite, 2020.

MELANI, Anae. TAMU, Leilane & LULI, Lautofa. Polynesian Panthers: Pacific Protest and Affirmative Action in Aotearoa New Zealand 1971 – 1981. Huia Publishers, 2015.

THOMPSON, Christina. Sea People. The Puzzle of Polynesia. Harper Editions, 2019.


*André Sena é historiador (UERJ).

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