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Leopoldo Miguez: o Wagner brasileiro de Parisina a Prometeu.

André Sena*

Toronto, 01 de junho de 2021.


A capacidade de promover uma leitura local de temas culturais considerados “universais” é uma das mais interessantes marcas do compositor brasileiro, discípulo de Wagner, Leopoldo Miguez. O termo “universais”, aqui me leva a pedir desculpas. Como historiador, reconheço o caráter autoritário, quando não imperialista do seu emprego. Me explico: consideramos literatura universal, arte universal ou temas culturais universais aquilo que muitas vezes (ou quase sempre) as grandes potências nos enfiaram goela abaixo por séculos. A globalização da economia e a mundialização da cultura não parecem ter nos curado deste trauma.





Entretanto, em que pese esse dramático processo de dominação cultural ou de “colonização do imaginário” como argumenta Serge Gruzinkski ao falar da ocidentalização das Américas, é possível enxergar em figuras como Leopoldo Miguez a possibilidade da releitura - antes mesmo dos modernistas brasileiros detectarem e revelarem ao mundo o nosso potencial antropofágico - dos mitos e lendas que nos chegaram de fora. Miguez não apenas merece ser ouvido e celebrado, como deve ser retirado da lista dos sumariamente desconhecidos da maioria de nós.


Um brasileiro que muito cedo, entre as décadas de 1870 e 1880, teve a possibilidade de estudar com mestres europeus no Velho Continente, especialmente italianos como os compositores Giovanni Franchini e Angelo Frondoni. Muito rapidamente Miguez teve a sensibilidade de detectar um interessante fenômeno: a ascensão no cenário europeu da música de Richard Wagner como fonte de inspiração cada vez mais irrefreável. Não foi apenas Nietzsche que detectou em O nascimento da Tragédia o gênio wagneriano. Os mestres italianos em geral se renderam a ele, assim como seus alunos brasileiros, especialmente Leopoldo Miguez, que retornando de seus estudos ao Brasil em 1871, fez o que pode para injetar na música erudita brasileira elementos wagnerianos de toda sorte.






Curiosamente parece ter sido um francês que levou o brasileiro Miguez a admirar apaixonadamente a música daquele que daria ao mundo Tahnhauser, Lohengrin e tantas outras composições geniais. Ao assistir a ópera Carmen, de Bizet, de inspiração wagneriana embora ambientação espanhola, Miguez entrará em contato para sempre com o ambiente musical germânico, e suas composições no Brasil carregarão daquele momento em diante a marca colorida e explosiva da música de Wagner.


Transitando pela corte imperial brasileira, ele chegou inclusive a apresentar-se diante de Pedro II. O Imperador brasileiro assistiu junto ao público a execução de sua primeira obra sinfônica, a Sinfonia em Si Bemol para Coro e Fanfarra, em comemoração ao centenário do falecimento do Marquês de Pombal, evento organizado em 1882, no Rio de Janeiro. Miguez produziu sem sombra de dúvidas uma música para a elite, lançando mão de temas que possivelmente a agradavam, mas isso não o eximiu de envolver-se musicalmente em questões de natureza política que mudariam de forma intensa a vida brasileira.


Ao mesmo tempo que dedicou à Princesa Isabel uma interessante e melodiosa composição sua, a Sonata para Violino e Piano, Leopoldo Miguez venceu um conturbado concurso para o Hino Nacional Brasileiro, posteriormente convertido em Hino à Proclamação da República. Em um ambiente político e histórico marcado pelo drama da transição da Monarquia à República, Miguez desempenhou um papel cultural importantíssimo no Brasil, dirigindo companhias que levaram ao Rio de Janeiro e São Paulo composições operísticas primorosas e recentemente estreadas na Europa, ao mesmo tempo que se dedicava a composição de obras que marcaram a história da música brasileira, das quais destaco aqui, da imensa constelação musical migueziana, os poemas sinfônicos Parisina e Prometeu.





O fato de Leopoldo Miguez ser um compositor eminentemente brasileiro não determinou que sua obra tivesse um caráter essencialmente nacionalista, embora pressões políticas na sua direção, precisamente no período de sua maturidade estética tenham sido ferrenhas. Frequentou clubes abolicionistas no final do Império, marcou a história do nascimento da República com sua música, mas não submeteu sua arte ao ritmo das relações de poder de seu tempo. A preferência por temas universais (e não nacionais) e pela estilística wagneriana, o protegeram de certas armadilhas que períodos de grande inflexão histórica muitas vezes impõem aos artistas.


Parisina, seu primeiro poema sinfônico, teve sua estreia em setembro de 1889, às vésperas da quartelada republicana que ocorreria no Rio de Janeiro dois meses depois. Inspirada em um poema de Lord Byron, esta obra de Miguez dialoga necessariamente com elementos que já vinham sendo objeto estético da segunda geração romântica brasileira há pelo menos três décadas. O poema de Byron, transformado em música por Miguez, ambienta-se no século XV, na corte de Ferrara, norte da Itália. A genialidade musical de Miguez expressa de forma lúcida e potente a trama de violência e adultério entre o Duque de Ferrara Nicolau III e sua segunda esposa. Um tema absolutamente recorrente ao Romantismo mas que evoca uma desventura demasiadamente humana e atemporal.




Em Prometheu, já nos primeiros anos da República, Miguez nos presenteia com outro poema sinfônico que dialoga não apenas com o mito grego daquele que “roubou o fogo dos deuses”, mas com obras homônimas (naturalmente germânicas!) de Beethoven e Lizst. A obra é apresentada no mesmo ano em que o compositor assume a direção do Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro, onde hoje uma linda sala de concertos leva o seu nome. Há uma belíssima gravação de Prometeu que pode ser encontrada no Youtube, executada pela orquestra do Teatro São Pedro em Portugal, na série de concertos Narrativas Incidentais, em 2019. O Prometeu de Miguez é executado na mesma noite em que a orquestra brinda o público com Egmont, de Beethoven e Siegfried, de Wagner.


Com efeito, a obra musical de Leopoldo Miguez segue sendo um presente para todos nós que ainda acreditamos em um Brasil capaz de produzir gênios e de resistir com as nossas luzes frente ao avanço do obscurantismo e do atraso. Visitar figuras engenhosas e criativas do passado, como este nosso Wagner brasileiro, pode ser, quem sabe, um descanso na loucura. Que o legado de Leopoldo Miguez nos ajude a resistir, e insistir com criatividade e com firmeza.


* André Sena é Doutor em História Política (UERJ).

** O texto exprime a opinião do autor.





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