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Gilberto Amado: entre o jovem nietzschiano de Sergipe e o inconformista diplomata brasileiro.

Toronto, 15 de julho de 2021.

André Sena*


Em janeiro de 2013 a então Presidente da República Dilma Rousseff inaugurava em Sergipe uma obra estratégica para a cadeia produtiva e turística nordestina: a Ponte Gilberto Amado, que encurtava em 30 quilômetros a ligação entre Aracaju e Salvador. Considerada a maior ponte sobre rios do Nordeste, ela principia na cidade de Estância, onde nasceu em 1887 um dos mais importantes diplomatas e intelectuais brasileiros.



Gilberto de Lima Amado foi sem dúvida um dos grandes sucessores do Barão do Rio Branco no que se refere a qualidade diplomática brasileira, ao menos até tempos relativamente recentes. Nascido em uma família de escritores (primo de Jorge Amado), o sergipano de Estância dedicou-se aos estudos desde muito cedo, formando-se em Direito com apenas 22 anos e presenteando à inteligência brasileira com um precoce ensaio filosófico recheado de elementos do pensamento de Friedrich Nietzsche, chamado A Chave de Salomão, escrito e apresentado ao público em 1914.


Amado sem dúvida foi um dos espíritos mais brilhantes e livres que o Brasil já foi capaz de produzir e sua contribuição ao pensamento brasileiro é absolutamente inconteste. Seja no campo da literatura, do ensaio político ou da arte da diplomacia, o legado que ele nos deixou precisa ser tanto preservado quanto visitado com a maior frequência possível. Entre 1905, quando divulgava o pensamento de Nietzsche entre os letrados de seu tempo e 1969, ano de sua morte, Gilberto Amado produziu tantos textos como imprimiu na vida brasileira, e especialmente na esfera internacional, uma marca efetivamente preciosa.


Refletiu ele sobre o papel das instituições políticas junto às sociedades para as quais elas foram criadas, pensando talvez de forma weberiana (e aqui vai apenas uma aposta minha) na política como uma atividade moderna e racional por excelência. A realidade política institucional não apenas é privada de vida própria como também passa a ser desprovida de sentido, se não tem como resultante urgente e imediata o aperfeiçoamento do meio onde ela surge e floresce. Uma política descolada da realidade é tão estéril quanto desnecessária.


Se no campo da reflexão política Gilberto Amado se destaca com obras como Aparência e Realidade ou Espírito do Nosso Tempo, ambas escritas entre as décadas de 1920 e 1930, será no campo da atividade diplomática que possivelmente ele mais produziu frutos concretos, que ainda hoje são de enorme importância para a vitalidade de aquecidos debates em certos foros decisórios internacionais, como a Organização das Nações Unidas, onde atuou como conselheiro e consultor por décadas, especialmente na Comissão de Direito Internacional.


Além de ter servido como nosso embaixador em diversos países, como Itália, Suécia e Chile, Amado atuou como diplomata brasileiro em momentos importantes da história das relações internacionais como na VII Conferência Internacional Americana, sediada em Montevidéu em 1923, bem como na Conferência Panamericana de Buenos Aires de 1935, que atualizava todo um processo de negociações em torno da construção de uma agenda comum para o Hemisfério Ocidental, utopia diplomática para a qual Rio Branco tanto trabalhara em décadas anteriores.


A original percepção diplomática de Gilberto Amado sobre a dinâmica do sistema internacional sempre apontará para dilemas e paradoxos nas relações entre os países no processo de formação de uma comunidade global, especialmente após as duas Grandes Guerras do século XX. A questão da tensão entre o Primado do Direito à nível internacional e a contingência provocada pelas diversas aspirações domésticas dos Estados Nacionais era algo permanentemente abordado por ele ao longo dos anos em que atuou como negociador e formulador político. Em um discurso a jovens diplomatas brasileiros em 1963, Amado faz um apelo a sobriedade e a necessidade de uma diplomacia que “aderisse à tarefa”, atuando diante de desafios concretos e contemporâneos, em substituição a uma arte diplomática essencialmente ornamental e protocolar.



“Sou contra o exagerado culto do passado em que nos embevecemos e que tanto destoa, a meu ver, da mentalidade que nos reclama à hora exigente do mundo moderno, a realidade ávida dos nossos dias.”



A tradição jurídica deve reconhecer o terreno das relações de poder entre as diversas potências internacionais, perseguindo a construção de uma legislação internacional que não se descole da realidade presente, ao mesmo tempo que procura pensar juridicamente acerca de questões e desafios ainda sequer apresentados na ribalta da performance dos diversos atores internacionais.


Na obra Gilberto Amado: Centenário, publicada pela Fundação Alexandre Gusmão em 1989, encontramos a reflexão de um outro diplomata brasileiro de seu tempo, José Sette Câmara Filho, que sempre reconheceu em Gilberto Amado esse traço de juste mileu entre as formulações jurídicas acompanhadas convenientemente de uma boa dose de realismo. Câmara Filho sustenta que Amado defendia ardorosamente a ideia de que “os Estados não são trouxas para esquecer seus interesses em benefício de doutrinas e de soluções acadêmicas.”


Um dos momentos mais luminosos da diplomacia amadiana se dá durante a 1ª Conferência sobre Direito do Mar, realizada em Genebra em 1958. Ali, juntamente com outros diplomatas e negociadores internacionais que farão História, Gilberto Amado discutirá questões absolutamente contemporâneas, como a soberania dos Estados sobre seu mar territorial, o estabelecimento de convenções sobre a ideia de alto-mar, fundos marinhos, plataformas continentais e até mesmo uma grande novidade para a época: a questão da delimitação de espaços aéreos.


Quando nos deparamos atualmente com os inúmeros impasses logísticos, geopolíticos, securitários e transconflituais (tomando emprestado um conceito de Boaventura de Souza Santos) que vemos no cenário internacional nos dias de hoje, compreendemos finalmente o serviço que Amado foi capaz de prestar a comunidade das nações. Ele nunca deixou de ser reeleito para a Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas até a sua morte. E ainda hoje a Comissão de Direito Internacional da ONU organiza periodicamente um ciclo de conferências chamado Gilberto Amado Memorial Lecture Series, que reúne diplomatas e juristas do mundo inteiro.


A ponte inaugurada no Brasil em sua homenagem em 2013 é nesse sentido um símbolo no mínimo interessante: uma metáfora bruta e concreta da fluidez, velocidade e interconexão com a qual Gilberto Amado sempre via o mundo em suas complexas relações. Definitivamente um brasileiro de inestimável valor e contribuição, tanto para o nosso país como para nossos vizinhos próximos e distantes, em um planeta cada vez mais em perigo.


*André Sena é historiador (UERJ).

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