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  • Foto do escritorCarlos Eduardo Pinto de Pinto

Como nasceu Carmen Miranda?

Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2023

Carlos Eduardo Pinto de Pinto*


A pergunta do título não se refere ao nascimento de Maria do Carmo Miranda da Cunha, a portuguesinha que veio para o Brasil ainda bebê e se tornou, na vida adulta, uma das artistas brasileiras com maior reconhecimento internacional. O que pretendo explorar neste artigo é como surgiu a persona de Carmen Miranda, ou seja, a figura exuberante vestindo trajes estilizados de baiana, pairando sobre saltos plataforma e equilibrando arranjos de flores e frutas sobre um turbante - e que, agora mesmo, pode ser vista em algum bloco de Carnaval no planeta, toda serelepe.


Carmen Miranda no filme Banana da Terra. Fonte: CASTRO, Ruy. Carmen: uma biografia (2005)


Maria do Carmo, a futura Carmen, cresceu em bairros pobres do Centro do Rio de Janeiro e, no final da década de 1920, deu início à carreira de cantora, obtendo sucesso na indústria fonográfica, alcançando as rádios e os palcos dos cassinos. Neste momento, foi reverenciada como a Pequena Notável, devido ao sucesso de suas performances e não à sua estatura, como muitas pessoas imaginam – “pequena”, no caso, significava “garota” (CASTRO, 2005, p. 97).


Embora não gravasse sambas exclusivamente, ficou associada ao universo dos sambistas, sendo amiga de compositores e adotando um comportamento que a aproximava das camadas populares. Além disso, se apresentava como uma mulher independente, que dirigia seu carro e geria sua carreira. Isto, contudo, obedecia a alguns limites: por decoro, não frequentava os mesmos espaços de sociabilidade dos sambistas (os recebendo em sua casa, onde morava com a família) e mantinha namoros de longa duração, não variando constantemente de parceiros (CASTRO, 2005).


O sucesso como cantora fez com que chegasse ao cinema brasileiro, especialmente às chanchadas, fazendo participações, por exemplo, em Alô, alô, Brasil! (Wallace Downey, 1935), Alô, alô, carnaval (Adhemar Gonzaga, 1936) e Banana da terra (Ruy Costa, 1939), filme para o qual criaria a primeira baiana estilizada, inspirando também um traje para o palco do Cassino da Urca.


Os detalhes da criação da “sua” baiana têm especial interesse aqui, pela importância que assumiria para a constituição de sua persona. Diante da necessidade de montar o figurino para o número em que cantaria O que é que a baiana tem?, do iniciante Dorival Caymmi, a cantora buscou sua inspiração em três fontes: as “tias” baianas que circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro, as “baianas” das fantasias de Carnaval e do teatro de revista – peças musicais entremeadas de números de comédia, encenadas nos teatros da capital federal desde o fim do século XIX (LEAL, 2018) – e os figurinos hollywoodianos.


As duas primeiras fontes conectam o figurino com a Bahia e com o Rio, podendo ser pensado também como um traje nacional, para além dos localismos (LEAL, 2018). Como afirma Leila Gibin Coutinho (2020, p. 123s), referindo-se ao século XIX, “a roupa que consideramos hoje característica das baianas era um tipo de vestimenta comum às mulheres negras nesse período e não era restrito à Bahia”.


Embora as fontes indiquem que Carmen contou com a orientação do baiano Caymmi no momento de montar o traje para o filme Banana da terra, também há indícios de que tenha mobilizado elementos da cultura carioca para chegar ao modelo definitivo (SCHPUN, 2008, p. 460). Vale informar que as baianas eram lideranças espirituais e políticas atuantes na capital – a exemplo de tia Ciata –, responsáveis por organizar as comunidades negras em torno de suas casas-terreiros, onde se praticava o candomblé e se engendrava o samba e outros ritmos (VELLOSO, 1990; BALIEIRO, 2015). Não à toa, seus trajes carregavam elementos a um tempo estéticos e religiosos, como os balangandãs – colares, pingentes e pulseiras – e o pano da costa (COUTINHO, 2020).


Por outro lado, essas figuras tradicionais tinham sido incorporadas desde o século XIX pelo teatro de revista, como personagem-chave de seus enredos (LEAL, 2018; BARROS, 2005). Fosse interpretada por atrizes estrangeiras e brancas (que escureciam suas peles com maquiagem) ou por atrizes mestiças, a personagem esbanjava sensualidade.


Das revistas, o traje ganharia o Carnaval de rua, permanecendo como uma fantasia popular, porém mal vista nos bailes elegantes até que Carmen se apropriasse dela (KERBER, 2005). O fato de circular entre redes de sociabilidade, convivendo com sambistas negros e pobres com a mesma desenvoltura com que lidava com a elite, é um ponto fundamental para se compreender sua aceitação (BALEIEIRO, 2017). Pela ótica dos brancos endinheirados daquela época, Carmen e sua branquitude funcionavam como uma ponte segura de acesso à cultura popular – tinha “molho”, como então se dizia.


Aqui entra sua terceira fonte de inspiração: a modernidade dos figurinos cinematográficos, hollywoodianos em particular, adotados por ela com auxílio de J. Luiz Borgeth Teixeira. A “sua” baiana era estilizada não apenas em relação ao referencial das “tias”, mas também das fantasias populares, ganhando acessórios inovadores, como os cestinhos de flores no turbante e – no caso do figurino de palco – uma saia inspirada em Di Cavalcanti (BALBI; PATERNOT, 2019). Os balangandãs e o pano da costa, em sintonia com essa proposta, assumiram função somente estética, com referências meramente retóricas aos sentidos religiosos originais.


Em 1939, Carmen foi para os EUA, iniciando uma carreira de sucesso na Broadway e em Hollywood, onde permaneceu até sua morte, em 1955. Diferente do Brasil, em que seus trajes se mantiveram como elementos de palco ou de bailes de Carnaval, nos EUA ela também inspiraria as estadunidenses ávidas por colorir e “apimentar” suas vestimentas com elementos que, a elas, soavam genericamente latinos (OVALLE, 2011 apud BALIEIRO, 2017, p. 281), marcando a moda feminina dos anos 1940.


Porém, o impacto de sua persona ultrapassou os modismos, se mantendo mundialmente conhecida até hoje. Um bom exemplo dessa permanência no imaginário internacional está no filme Tudo em todo lugar ao mesmo tempo (Daniel Kwan e Daniel Scheinert, 2022), recordista de indicações ao Oscar de 2023. Na obra, para dar tons surreais a dada situação, a figurinista escolheu justamente uma fantasia de Carmen Miranda para vestir um figurante, conforme se pode observar na fotografia abaixo. Diante de aparições como essa, tão frequentes, sempre imagino Carmen me dirigindo um sorriso imenso e uma piscadela cúmplice, com o orgulho de quem sabe que nasceu para brilhar.


Frame do filme Tudo em todo lugar ao mesmo tempo. Disponível em: https://prensa.li/@gustavo.borges/tudo-em-todo-lugar-ao-mesmo-tempo/. Acesso em: 17 fev. 2023.


(Esse artigo é a adaptação de uma parte do capítulo Refrações da Embaixatriz do Samba: a persona de Carmen Miranda em chanchadas brasileiras dos anos 1950, escrito por mim para a coletânea Recortes do feminino, organizado por André Casa Nova Maia)


* Carlos Eduardo Pinto de Pinto é historiador e professor de história (UERJ)


Referências Bibliográficas:

BALBI, César; PATERNOT, Vivian Fava. Saia de Carmen Miranda. In: KNAUSS, Paulo et al (orgs). História do Rio de Janeiro em 45 objetos. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019. p. 233-239.

BALIEIRO, Fernando de Figueiredo. Consumindo Carmen Miranda: deslocamentos e dissonâncias nas recepções de um ícone. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 25, n.1, p. 269-291, jan./abr., 2017.

BARROS, Orlando de. Corações de Chocolat: a história da Companhia Negra de Revistas (1926-1927). Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2005.

CASTRO, Ruy. Carmen: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

COUTINHO, Leila Cristina Gibin. Do pano da costa ao xale: a presença da cultura africana e europeia no vestuário negro na capital do Império. In: DANTAS, Alexis T.; LEMOS, Maria Teresa Toríbio (orgs.). América Latina em confronto: invisibilidade, desigualdades e exclusões. Rio de Janeiro: Estudos Americanos, 2020. p. 114-131.

KERBER, Alessander. Carmen Miranda: entre representações da identidade nacional e de identidades regionais. ArtCultura, Uberlândia, v. 7, n. 10, 2005.

LEAL, Léa Maria Schmitt. A performance da baiana: traje, corpo e persona (1890-1938). Anais do 14º Colóquio de Moda. 2018. Disponível em: encurtador.com.br/dgJ19. Acesso em: 18 out. 2020.

PINTO, Carlos Eduardo Pinto de. Refrações da Embaixatriz do samba: Carmen Miranda em chanchadas brasileiras dos anos 1950. In: MAIA, Andréa Casa Nova (org.) Recortes do feminino: cristais de memória e história das mulheres nos arquivos do tempo. Rio de Janeiro: Telha, 2020.

SCHPUN, Mônica Raisa. Carmen Miranda, uma star migrante. Revista de Antropologia, São Paulo, USP, v. 51, n. 2, p. 451-471, 2008.

VELLOSO, Mônica Pimenta. As Tias baianas tomam conta do pedaço: espaço e identidade cultural no Rio de Janeiro. Estudos Históricos, vol. 3, n.6, p. 207-228, 1990.

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