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Burle Marx e a importância da valorização do meio ambiente

Rio de Janeiro, 01 de maio de 2022.

Luciene Carris*


A planta é forma, cor, textura, aroma.

Um ser vivo com necessidades e referências,

com personalidade própria.

Roberto Burle Marx


Em tempos de importantes debates sobre a destruição das nossas vegetações, em especial, da nossa floresta amazônica. E, refletindo sobre o impacto ambiental da derrubada das árvores, que observo com tristeza na região do antigo Horto Florestal do Rio de Janeiro, no sopé da Floresta da Tijuca, recupero uma dessas figuras singulares, um personagem que atuou na defesa do meio ambiente: Roberto Burle Marx (1904-1994).


Crédito: Portal Iphan.


Vale recordar que o Rio de Janeirocresceu entre a floresta e o mar, e enfrenta, nos dias de hoje, sérios problemas socioambientais. De acordo com o último relatório da Fundação SOS Mata Atlântica, publicado em 2020, a preservação da nossa mata atlântica é uma necessidade, pois,


abrange cerca de 15% do território brasileiro, em 17 estados, é o lar de 72% da nossa população, abriga três dos maiores centros urbanos do continente sul-americano, concentra 80% do PIB e fornece água para mais de 60% da população brasileira. Ela se estende pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí (Relatório Anual, 2020, p. 5).

Além disso, outro dado impactante é o aumento do desfloramento no Rio de Janeiro que é de 50% no período 2019-2020 em comparação ao período 2018-2019, isto de acordo com Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. Aliás, o crescimento urbano desordenado, a falta de saneamento e o desmatamento contribuem para a disseminação de inúmeras doenças como a dengue, além de causar a migração de muitos animais e aumentar a desigualdade social.


Seja como for, na zona oeste do Rio de Janeiro localiza-se uma das maiores florestas urbanas com uma extensa vegetação da mata atlântica. No local, encontram-se vestígios de edificações de outra época como represas, aquedutos e sedes de antigas fazendas. Foi nessa região do Parque Estadual da Serra Branca que os irmãos Roberto Burle Marx e Guilherme Siegfried Marx compraram, em 1949, um sítio no bairro de Barra de Guaratiba com cerca de 406 mil metros quadrados. Ali funcionou um engenho de café no século XVII, que pertenceu ao capitão Belchior da Fonseca Dória. No espaço, existia uma fonte de água, que era aproveitada através de uma bica pela população local, daí o nome original. A propriedade recebeu outros nomes ao longo do tempo como Fazenda Engenho da Bica, Sítio Antônio da Bica, e, finalmente, Sítio Roberto Burle Marx.


A abundância de recursos hídricos, a diversidade do relevo, de plantas tropicais e a variedade de pedras contribuíram para a escolha do local. Quando os irmãos Marx adquiriram a propriedade, encontraram uma grande casa e a Capela de Santo Antônio da Bica em ruínas, que foi reconstruída pelos arquitetos Lúcio Costa e Carlos Leão. Até os dias atuais, o pequeno templo é utilizado pelos moradores para cerimônias religiosas, como a tradicional Festa de São Antônio. Posteriormente, os irmãos aumentaram à propriedade com a aquisição de terrenos vizinhos, bem como ergueram outras instalações para transformar o espaço em um laboratório de experimentações paisagístico e botânico.



Crédito: Acervo do Sítio Burle Marx.


Roberto Burle Marx se destacou pelas suas diversas habilidades como paisagista, arquiteto, pintor, escultor, designer de joias, figurinista, cenógrafo, ceramista e tapeceiro. Em seu sítio, encontram-se um rico acervo museológico de arte sacra, pinturas, cerâmicas, conchas, objetos de decoração e de esculturas. O acervo arquitetônico integrado pela Capela, a Casa de Roberto, a Casa de Pedra, a Cozinha de Pedra, a Loggia, o Ateliê e o prédio da administração, além de uma biblioteca especializada.


Sem ter uma formação específica em botânica, realizou, ao lado de cientistas renomados, expedições científicas pelo território brasileiro. Desse modo, “ao observar a flora brasileira nos seus locais de origem, nas expedições que realizava, procurava assim na execução dos jardins agrupar as espécies conforme encontradas na natureza” (TOFANI, 2014, p. 28). Inspirado por grandes nomes da botânica como Adolpho Ducke, Luiz Corrêa de Araújo, Frederico Carlos Hoehnne, Margaret Mee, Antônio Pacheco Leão, Graziella Barroso, Alexander Curt Brade e João Geraldo Kullman, aliás muitas dessas figuras pertenceram aos quadros do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Na equipe de cientistas e estudiosos, levava ainda o chefe dos jardineiros do Sítio, que Burle Marx incentivava para conhecer outras vegetações, havia uma clara preocupação com a formação dos profissionais mais modestos.


Nestas excursões, recolhia plantas em beira de estradas ou em matas devastadas para compor o acervo botânico do seu sítio. Os estados de Pernambuco, Bahia, Goiás, Paraná, Espírito Santo, além da região do Pantanal foram alvo de suas pesquisas. Coube ao renomado paisagista Burle Marx a concepção de um jardim tropical moderno, que inspiraria outros projetos similares ao redor do mundo. De perto, observou o desmatamento, a degradação do meio ambiente e o desconhecimento das populações locais do valor da vegetação nativa.


Ainda vale relembrar um outro projeto paisagístico, que contou com a sua participação, o Parque do Flamengo, mais conhecido como Aterro do Flamengo, inaugurado em 1965, que aliás surgiu do desmonte dos Morros do Castelo e de Santo Antônio. O projeto liderado pela arquiteta Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, mais conhecida como Lota de Macedo Soares, pretendia, além de embelezar e proteger a orla, proporcionar um local um local de descanso e de lazer para a população. É bem verdade que atravessar a área do Parque, certamente, ainda encanta muitos turistas e moradores do Rio de Janeiro.


Em 1985, o sítio foi doado pelo paisagista ao governo federal. Com o falecimento de Roberto Burle Marx em 1994, passou a ser gerido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e foi tombado pelo Estado e pela União Federal. Em 2021, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) reconheceu o Sítio como Patrimônio Mundial. Atualmente, o sítio possui cerca de 3.500 espécies vegetais das floras tropical e subtropical, além da vegetação nativa com seus manguezais e restingas. O certo é que vale a pena uma visita ao Sítio do Burle Marx na região da Barra de Guaratiba, e aproveitar a oportunidade para conhecer os restaurantes de frutos mar das chamadas "tias". Ao longo da estrada Burle Marx, ainda é possível observar as lojas de plantas, que se multiplicaram sob a inspiração do Sítio e de seu idealizador.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


Referências:

Brasil. Sítio Roberto Burle Marx é reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco. Disponível em: https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/noticias/sitio-roberto-burle-marx-recebe-titulo-de-patrimonio-mundial-da-unesco Acesso em: 10 abr. 2022.

Sítio Burle Marx. Disponível em: https://sitioburlemarx.org/ Acesso em: 10 abr. 2022.

Tofani, Sandra Regina Menezes. Acervo botânico do Sítio Roberto Burle Marx: valorização e conservação. Dissertação (Mestrado) – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Mestrado_em_Preservacao_Dissertacao_TOFANI_Sandra_R_Menezes.pdf Acesso em: 10 abr. 2022.

Fundação SOS Mata Atlântica. Relatório Anual 2020. Disponível em: https://www.sosma.org.br/sobre/relatorios-e-balancos/ Acesso em: 29 abr. 2022.

Fundação SOS Mata Atlântica. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica (2019-2020). Disponível em: https://www.sosma.org.br/sobre/relatorios-e-balancos/ Acesso em: 29 abr. 2022.






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