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A vida acelerada e o excesso de trabalho.

Guarulhos, 01 de maio de 2022.

Luzimar Soares *


Sempre ouvimos que as máquinas facilitaram a vida das pessoas, que a revolução industrial melhorou, que as revoluções que vieram depois e foram transformando as relações em todos os âmbitos provocaram êxodos rurais, complexificaram as relações urbanas, geraram déficits habitacionais, dentre tantas outras mudanças.


Crédito: Gov.br.


Já estamos muito distantes do tempo da primeira revolução industrial, e a modernidade, ou os tempos atuais, coloca-nos frente a muitos questionamentos. Vivemos ligados o tempo todo, não há mais horários de descanso para muitos profissionais, o que significa dizer que os trabalhadores estão sempre a disposição de seus trabalhos, mas não necessariamente de seus empregadores.


Especialmente com o advento da pandemia da COVID 19, a recessão chegou a muitos países e, no Brasil, não foi diferente. Dadas as devidas proporções e formas como as autoridades lidaram com a pandemia, mais ou menos pessoas ficaram desempregadas ao redor do mundo. Olhando somente para o Brasil e para o número de pessoas desempregadas nesses últimos tempos, (mesmo levando em consideração o leve retorno dos postos de trabalho), lidamos, atualmente, com muitas pessoas desempregadas.


Segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os dados do 4º trimestre de 2021 apontam os seguintes números: Desempregados (desocupados) 12,0 milhões; Taxa de desemprego (desocupação) 11,1%; e, os Desalentados correspondem a 4,8 milhões. Os desalentados são pessoas que desistiram de procurar emprego por alguma razão qualquer: insegurança, idade, qualificação ou, outro motivo.


Por que esses dados são importantes? Primeiro, porque mostram que é necessária uma política econômica mais eficiente, depois, porque, se existe esse contingente de pessoas desempregadas, a lei da oferta e da procura está fora do fiel da balança, o que contribui para maior precarização do trabalho; bem como porque, nesse imenso mar de desempregados, estão aqueles que buscam uma saída e tiram seus CNPJs (Certificado Nacional de Pessoa Jurídica).


A divulgação do IBGE dá conta de uma redução no nível de desemprego no país. Porém, outra pesquisa mostra que houve um aumento significativo no número de pessoas que se tornaram seus “próprios” patrões, exatamente no período que antecede a diminuição do nível de desemprego.


De acordo com o Jornal Correio dos Municípios - AL, em matéria publicada em 06 de outubro de 2021, no segundo quadrimestre de 2021 (de maio a agosto), foi registrado um aumento nunca antes visto nas aberturas de empresas, o que pode denotar uma transferência, haja vista os empreendedores saírem da zona de desempregados. De acordo com o jornal:


No segundo quadrimestre de 2021 foram criados 1.420.782 CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) e fechados 484.553, o que resultou num saldo positivo para o período de 936.229 empresas em funcionamento. O total de empresas ativas no Brasil é de 18.440.986. “É um recorde na história do Brasil. Nunca num segundo quadrimestre do ano foram abertas tantas novas empresas no país”, ressaltou o diretor do Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração (Drei), André Santa Cruz.

Não raro é possível ouvir frases do tipo: “Se não está satisfeito, pede a conta”; “Tem um monte de gente querendo seu lugar”; “Não quer ficar depois do expediente, tem gente que aceita”; “Dobrar turnos é normal”; etc. E o que isso tem em comum com os números de desemprego, subemprego, pessoas desalentadas, aceleração da vida e excesso de trabalho? Basicamente, tudo.


Quando o trabalho é precarizado e, especialmente quando o nível de desemprego é muito alto, as pessoas que estão empregadas também se sentem vulneráveis, e isso as leva a aceitar o que é posto. Com medo de engrossar a fila dos desempregados, acaba ocorrendo que muitos trabalhadores assumem a função de dois, três ou até mais pessoas, especialmente nos trabalhos não regulamentados.


As máquinas que nos ajudam a acelerar os trabalhos também acabam por nos tornar mais disponíveis para os trabalhos, sejamos empregados ou “empreendedores”. A chegada da pandemia modificou muito as relações de trabalho, e, como as pessoas passaram a trabalhar em casa, muitos casos de tarefas que não acabam, ou seja, excessos de trabalho são relatados por muitos dos trabalhadores, além de falta de infraestrutura e isolamento social.


Tanto para empregadores quanto para clientes, os trabalhadores deixaram de ter vida própria. Um número enorme de prestadores de serviço, os seja, aqueles que criaram os CNPJs, recebem ligação dos clientes a qualquer hora, mesmo que não estejam disponíveis, aos finais de semana e feriados, tarde da noite, ou nos horários de descanso.

As tecnologias que ajudam, as facilidades, a “desburocratização” das tarefas, tais como: os check-ins automáticos para várias coisas (dentre elas, consultas médicas, hotéis, viagens e outras) desobrigaram as pessoas de ficarem nas filas. Esse tempo, de maneira geral, não tem sido utilizado para o ócio, muito pelo contrário, quanto mais temos tempo, mais trabalhamos.


Levar o trabalho onde quer que se vá virou rotina. Trabalhadores que prestam serviço se transformaram em uma espécie à disposição do trabalho 24 horas por dia. Uma infinidade de profissionais exerce inúmeras funções através de seus telefones celulares, então, ou eles compram um novo aparelho, transformam suas contas anteriores em contas comerciais e desligam o número, ou se tornam reféns de seus clientes.


Tudo está acelerado, muitas vezes sequer ouvimos o que nos é dito. Há muito que estudiosos falam sobre a necessidade de ser bom ouvinte, de nos dispormos a ouvir para entender e não para responder, mas não aprendemos e continuamos acelerando cada vez mais. Hoje, com a possibilidade de acelerarmos as mensagens dos áudios que recebemos através de aplicativos de mensagens, sinto que o tempo parece mais curto.

Até quando aceleraremos o nosso tempo? Talvez um dos maiores desafios dos tempos atuais é compreender que o tempo tem seu próprio tempo. Tempo para sonhar, mas, especialmente, para viver o nosso tempo. Tecnologias devem servir para diminuir nosso estresse, e não para aumentá-lo. Ser trabalhador, estar à disposição, não pode ser a totalidade das nossas vidas.

Vida atual, é cheia de desafio

Não há tempo pra viver, ou saborear

A tecnologia nos liga por fios

Deixando-nos prontos para trabalhar

Sejamos mais livres, vivamos mais

Criemos lugares, lugares de ócio

Amemos o descanso e a vida fugaz

E, que viver seja nosso maior negócio.



*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).



Referências:


Blog da Zendesk. Disponível em: https://www.zendesk.com.br/blog/home-office-vantagens-e-desvantagens/#:~:text=Entre%20os%20pontos%20positivos%20e,benef%C3%ADcios%20para%20empresas%20e%20colaboradores. Acesso em: 27 de abr. 2022.


Correio dos municípios. Disponível em: https://www.correiodosmunicipios-al.com.br/2021/10/brasil-registra-recorde-em-abertura-de-empresas-no-2o-quadrimestre/. Acesso em: 25 de abr. 2022.


Desemprego. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php. Acesso em 26 de abr. 2022.

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