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A cultura do trovadorismo

Guarulhos, 01 de dezembro de 2021.
Luzimar Soares*


Sempre que penso no tema que vou escrever para este canal, alguns questionamentos me vêm à cabeça. Aprecio a História, e, por conta disso, tornei-me historiadora. Sou apaixonada por cultura, e pelas mais diferentes expressões culturais. Nunca consigo ficar imóvel quando ouço música, por exemplo. Basicamente, todos os ritmos me fazem dançar. Cinema, dança, teatro, e obviamente, a literatura está, para mim, no topo do que aprecio na cultura.

Crédito: wix.


Por esta razão, resolvi falar sobre literatura, mas sobre um estilo muito específico dela, o Trovadorismo. Quando iniciei a pesquisa sobre o tema, entrei nas narrativas e quis fazer parte daquelas caravanas de trovadores. Bem, segue um pouco do que descobri.

O Trovadorismo, nascido no período medieval, foi um movimento literário datado entre os séculos XI e XIV, sendo a primeira data o surgimento, e a segunda, o seu declínio. A sociedade na qual surgiu essa forma de literatura nada se parece com a que vivemos hoje. Não havia o conceito de Estado, e a Europa vivia em meio a guerras. Vivia-se em senhorios, numa realidade basicamente rural.

As relações de suserania e vassalagem entre os nobres, pautadas pela doação de bens em troca de fidelidade e proteção era chamada de “feudalidade”, pois estes bens dados em troca (podendo se tratar de terras, de vilas, de castelos, de armaduras, de espadas, etc) eram chamados de feudos. Entre os nobres e os aldeães, havia uma relação similar à de servidão. A sociedade era mantida pelos reis, e o período foi de muitas guerras. Foi nesse espaço temporal que aconteceram as cruzadas, por exemplo.

Nesse cenário, já é possível imaginar que a grande maioria das pessoas não sabia ler, nem mesmo os nobres. Portanto, essa literatura de trovador tinha um principal componente que era a oralidade, na qual a música e poesia estão intrinsicamente ligadas.

A Trova é muito bem estruturada e tem divisões, a saber: composta de quatro versos, cada um com sete sílabas. Pode ser totalmente rimada, ou apenas uma parte, ou seja, a rima de trova acontece entre a primeira e terceira e entre a segunda e a quarta linhas. Pode, também, rimar apenas a segunda com a quarta. Dividida em lírica e satírica, a primeira fala de amor (canção de amor e de amigo); a segunda, de escárnio e maldizer; e, ainda, tem as filosóficas falando de ensinamentos. O Trovador é o poeta, pertencia à nobreza. O Segrel, ou Menestrel, pertenciam à baixa nobreza e sua profissão era a poesia. A Soldadeira, ou Jogralesa, eram moças que acompanhavam, e os Jograis eram os cantadores das cantigas.

As cantigas de Santa Maria são um total de 417 composições em homenagem à Virgem. O que foi encontrado e compilado foi denominado de Cancioneiro e são três: Cancioneiro da Ajuda: 310 cantigas; Cancioneiro da Vaticana: 1025 cantigas; Cancioneiro da Biblioteca Nacional: 1567 cantigas. Dentre os Trovadores mais conhecidos estão: Paio Soares de Taveirós, João Soares Paiva, João Garcia de Guilhade, Martim Codax, Dom Dinis, D. Afonso X, e Dom Duarte. Uma das grandes características dessa forma literária era como os artistas se apresentavam. Eles andavam de corte em corte, e, quando se apresentavam para suas amadas, assumiam posição de submissão.

Os trovadores tinham grande importância, e, Paio Soares de Taveirós, trovador galego, ilustra a aura desses artistas. Considerado por alguns estudiosos como o compositor da primeira cantiga de trova, teve um irmão também trovador, Pêro Velho de Taveirós, com quem escreveu uma de suas cantigas. Há, nos escritos históricos, discussões sobre a autoria da cantiga da Garvaia, se seria dele ou de Martim Soares, esta que foi considerada a mais antiga das cantigas.

A cantiga da Garvaia, aliás, tem outra controvérsia. Alguns especialistas a caracterizam como cantiga de amor, para outros, no entanto, trata-se de uma cantiga de escárnio. Originário da pequena nobreza galega, da região do Minho, suas cantigas deixadas são: seis cantigas de amor, três de amigo e duas de tensões, sendo esta última tida por alguns especialistas como algo muito próximo da literatura de Cordel. Guardadas dentro do Cancioneiro da Ajuda estão numeradas de A36 - A39. Em razão da parca documentação histórica, há estudiosos que creditam esse grupo de canções a Afonso X, todavia, outros afirmam que são mesmo de Paio Soares de Taveirós. O certo é que todos os estudiosos o colocam como um dos precursores das Trovas.

Trazendo para a atualidade brasileira, temos, a cidade de Nova Friburgo – RJ, fundada em 1818 através de um decreto de D. João VI que buscava ampliar a quantidade de pessoas na colônia (a cidade recebeu esse nome em homenagem aos novos colonizadores que eram oriundos do Cantão de Friburgo na Suíça), considerada a Cidade da Trova. Em 1958, teve seu primeiro concurso idealizado por José Guilherme de Araújo Jorge e Luiz Otávio, concretizado em 1960, recebeu o nome de Jogos Florais.

Os concursos de Nova Friburgo se tornaram tão conhecidos que um dos seus idealizadores criou um roteiro sistematizando as regras tanto para participantes quanto para os jurados. O poeta, também, criou, em 1966, a União Brasileira de Trovadores. No concurso anual que acontece no último fim de semana de maio, os poemas são expostos na “Alameda das Trovas”, na praça Getúlio Vargas, com critérios bastante rigorosos; e as regras gramaticais, obrigatoriamente, precisam ser respeitadas.

No ano de 2014, através da Lei 4.345 de 07/11/2014, o então prefeito da cidade declarou a TROVA como Patrimônio Cultural Imaterial do povo friburguense. Em 2020, seria a edição LXI, mas a realização do concurso foi suspensa em razão da Covid-19, fato este que deixou seus participantes bastante tristes; uma vez que, para eles, o concurso é considerado algo como a peregrinação dos muçulmanos a meca. Até criaram um verbo para falar sobre a cidade, o “friburgar”. A Trova é o lugar desses poetas e é a forma de expressão cultural mais marcante da cidade.

Portanto, o que trago aqui é uma forma de chamar a atenção para a importância da cultura, da arte e, especialmente, dizer que a humanidade precisa de arte. A arte é um direito, mas é, além disso, um dever do Estado com seu povo.

Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Cibele. História Medieval. Curitiba: InterSaberes, 2016.

LEME, Elaine Cristina Senko. História e historiografia medieval oriental. Curitiba: InterSaberes, 2019.

LOBO, Andréa Maria Carneiro. Percursos da história moderna. Curitiba: InterSaberes, 2017

https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/idiomas/os-cancioneiros-literatura-portuguesa/32159

https://www.estudopratico.com.br/trovadorismo-caracteristicas-autores-e-obras/

https://brasilescola.uol.com.br/literatura/trovadorismo.htm

https://avozdaserra.com.br/noticias/nova-friburgo-cidade-da-trova-0


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