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  • Foto do escritorLuciene Carris

Pão, prosa e patrimônio: a Padaria Século XX e as memórias do bairro

Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 2024.

*Luciene Carris


No último dia 31 de dezembro de 2023, às 18 horas, a Panificação Século XX, localizada na rua Pacheco Leão, 320, sob o Condomínio Edifício Von Humboldt fechou as suas portas. Notavelmente, esta data marcou exatamente 55 anos desde sua formalização comercial, registrada no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica da Receita Federal em 30 de dezembro de 1968. A padaria era um tradicional negócio de família, que passou a ser administrado pelo Seu Armando. O seu tio e seu pai, respectivamente o saudoso Manuel de Jesus Ascenção e Seu Anselmo de Jesus Ascensão, eram sócios. Ambos de origem portuguesa, emigraram para o Brasil na primeira metade do século XX e fincaram raízes no outro lado do Atlântico.




Crédito da imagem: Foursquare.


Situada na esquina da Rua Von Martius e Pacheco Leão, em frente à Rede Globo, que igualmente se estabeleceu na década de 1960, a Panificação experimentou uma era de grande prestígio, atraindo inúmeras personalidades como jornalistas e artistas. Estes frequentadores não apenas trabalhavam na emissora de televisão, mas também residiam nas proximidades, tornando-se frequentadores habituais da padaria. Com o tempo, a história da padaria se entrelaçou intimamente com a da própria Rede Globo, refletindo a vida cultural e social da região, que ficou conhecida durante um longo tempo como “bairro dos artistas” no imaginário carioca.


A “Padaria Século XX” ou simplesmente “Padaria”, como era apelidada pelos seus frequentadores mais assíduos, ao longo das décadas tornou-se em um espaço de sociabilidades, um ponto de encontro para muitos moradores ou trabalhadores da localidade. Não raro era possível encontrar na parte da tarde o Seu Armando, após um extenso dia de trabalho que se iniciava ainda antes do alvorecer, acompanhado de algum conhecido. Ali, geralmente compartilhavam momentos à mesa, onde Seu Armando contava alguma de suas curiosas histórias ou outras narrativas que ali ouvia, e que, geralmente proporcionavam debates acalorados.




Seu Armando e o seu pai, Seu Anselmo

Acervo Pessoal



O local também era frequentado por figuras notáveis do cenário cultural brasileiro, como o renomado músico Antonio Carlos Jobim, que se mudou para o bairro em 1986 e permaneceu até o fim de sua vida. A padaria, localizada entre as ruas Von Martius e Pacheco Leão, foi um de seus redutos favoritos, onde ele se encontrava com o músico Danilo Caymmi, outro morador local, para uma prosa regada ao seu tradicional uísque. Uma das histórias frequentemente relembrada é a de um cheque assinado por Tom Jobim, que Seu Armando, por valorizar mais a lembrança do que o valor monetário, optou por nunca descontar.


Outra memória partilhada por Seu Armando Ascenção envolve o efêmero Bloco do Maçarico, criado em razão de seus vínculos como uma tradicional escola de samba carioca, começou em frente à Panificação Século XX e depois se mudou para o Clube Condomínio na rua Abreu Fialho. O bloco, que não mais ocorreu devido a questões burocráticas, deixou saudades em muitos. Era popular entre personalidades do carnaval e da música, como Rosa Magalhães e Reinaldo de Carvalho, o Bola, o Rei Momo, e contava com a presença de bandas famosas dos anos 90, como Raça Negra.


Seu Armando, além de guardar memórias alegres e curiosas, também preservou algumas lembranças mais sombrias com especial afeto. Uma delas é um pôster emoldurado do documentário “Tim Lopes: Histórias de um Arcanjo”, que homenageia Tim Lopes. Este jornalista, reconhecido como um dos maiores repórteres investigativos do Brasil, teve um fim trágico ao ser assassinado. A lembrança deste pôster é um símbolo do respeito e da amizade que Seu Armando nutre pelo jornalista.




Seu Armando.

Crédito da imagem: TV Horto.



De fato, nos últimos anos, a padaria enfrentou um período prolongado de dificuldades financeiras, uma situação que se agravou com a pandemia de coronavírus em 2020. Apesar desses desafios, a padaria manteve seu compromisso com a responsabilidade social, demonstrando generosidade através da doação diária de sacolas de pães, além de manteiga e queijo, para os moradores da Comunidade do Horto Florestal. Além disso, a padaria nunca deixou de apoiar os eventos da Comunidade, contribuindo com doações de pães para cachorro-quente, evidenciando um forte senso de solidariedade e apoio à comunidade local mesmo em tempos difíceis.


Não posso esquivar de mencionar a contribuição de Seu Armando durante a minha pesquisa sobre a história do bairro através das nossas várias conversas e seus depoimentos, além do acesso ao acervo pessoal sobre uma figura eclipsada da história local, Paulo Roberto da Silva, mais conhecido como “Paulista”, que veio morar no bairro no início do calçamento das ruas durante a construção do condomínio de casas, por ocasião do loteamento do terreno da Companhia de Tecidos América Fabril no final da década de 1960. Paulista decidiu ficar a partir de então, como morador em situação de rua. Tempos depois, conseguiu um espaço dentro do condomínio de casas, onde passou a habitar literalmente em um buraco aberto na parede. Ao que tudo indica, era querido pela grande maioria dos novos moradores das casas recém-construídas, muitos rechaçavam a hipótese de sua expulsão dali, apesar das inúmeras tentativas. Aliás, o terreno onde se encontra o edifício, a padaria e parte da Rede Globo na rua Von Martius pertencia a antiga fábrica têxtil estabelecida no final do século XIX.


Não posso deixar de mencionar a importância e o valor sentimental de uma lembrança muito especial para mim: o apoio recebido durante o lançamento do meu livro, que aconteceu na calçada da Padaria no dia 11 de setembro de 2021. Esse evento não só contou com a participação ativa da padaria, mas também devo ressaltar a minha gratidão pela gentileza de seus funcionários como Flavinho, Cléo, Luciana, Deise, Auri, Raimundo, Francisco e tantos outros.




Registro do lançamento do livro Histórias do Jardim Botânico na calçada da Padaria.

Acervo Pessoal.



O futuro do imóvel onde funcionava a antiga padaria permanece uma incógnita, especialmente em um período marcado pela inauguração de vários restaurantes e bares sofisticados, sinalizando uma nova fase de gentrificação no bairro, que parece desconsiderar a importância de preservar seu passado, memória e história. Essa transformação está mudando o antigo Horto em uma área mais requintada e, possivelmente, excludente. A antiga padaria, antes um espaço vital de sociabilidade, agora evoca um local de memória, lembrando o conceito do historiador francês Pierre Nora. Assim, aquela tradicional padaria do bairro, com suas raízes portuguesas e seu emblemático pãozinho e café, cede lugar a novas formas de comércio, refletindo as mudanças culturais, econômicas e sociais do bairro.


Por cerca de cinco décadas, a Panificação Século XX serviu como um ponto de encontro para os moradores mais antigos da região, que se reuniam para boas conversas, muitas vezes acompanhadas de cerveja gelada, especialmente, aos sábados. Hoje, preservamos com afeto as recordações desses tempos passados.




Alguns de seus antigos frequentadores: Nádia Crespo, esposa de Seu Armando, Seu Jair Veiga, Seu Amarílio, o artista Davi Pinheiro e o cartunista Miguel Paiva.

Acervo Pessoal.



Dedico este breve texto aos antigos frequentadores da Padaria, bem como aos seus antigos funcionários, com quem tive o privilégio de conversar e compartilhar experiências, em especial, ao querido Armando Ascenção.



Referências bibliográficas:


CARDOSO, Luciene Pereira Carris. Histórias do Jardim Botânico: um recanto proletário na zona sul carioca (1884-1962). Rio de Janeiro: Telha, 2021.

DOWSLEY, Betina. Um contador de causos na Século XX. Perfil. JB Em Folhas, 13 mai. 2021. Disponível em: https://jbemfolhas.com.br/um-contador-de-causos-na-seculo-xx/ Acesso em: 03 jan. 2024.

Nora, P., & Aun Khoury, T. Y. (2012). ENTRE MEMÓRIA E HISTÓRIA: A PROBLEMÁTICA DOS LUGARES. Projeto História: Revista Do Programa De Estudos Pós-Graduados De História, 10. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/12101 Acesso em: 02 de jan. 2024.

TV HORTO. Rio de Janeiro. 02 jan. 2024. Instagram: @tvhorto. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C1mniHWu1QH/ Acesso em: 02 jan. 2023.

 

*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


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1.380 visualizações5 comentários

5 commenti


Judá Germano
Judá Germano
23 gen

Lamentável e triste fim para um patrimônio do bairro.

Torcer para os novos empreendedores resgatarem ao menos o nome da padaria em um outro estabelecimento.

Saúde e paz para todos!

Judá

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Sergio Pires
Sergio Pires
05 gen

Parabéns Luciene, belíssimo texto. Espelha com realismo e beleza o que foram os anos de convívio na “nossa” querida Padaria. Hoje, órfão dela, sinto na pele o ditado:

- “a gente”só dá o real valor àquilo que amamos, quando perdemos.

Um beijo e um abraço,

Serjão,

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Ricardo Porto
Ricardo Porto
04 gen

muito legal a história da Seculóxx, como a gente chamava na TV Globo. Convivi com ela até o fim, pois ainda moro no Horto. Me chamo Ricardo Porto, sou jornalista. Meu email é rporto1960@gmail.com Como falo com vc Luciene?

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ascen4867
04 gen

Minha amiga estou sem palavras. Amo você e toda a sua família.

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Luciene Carris
Luciene Carris
04 gen
Risposta a

Seu Armando, muito obrigada, que bom que gostou da homenagem. Um grande abraço para você, Nadia, e todos da Padaria. Sentiremos falta.

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