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  • Foto do escritorLuzimar Soares

O som ao redor

Guarulhos, 15 de novembro de 2022.

Luzimar Soares*



Há alguns anos, fui convidada para assistir a um filme nacional, e aqui, gostaria de abrir um parêntese: eu acreditava que não gostava de filmes nacionais, por pura falta de conhecimento e, porque não dizer, uma certa síndrome “do cão vira-lata”. Ou seja, acreditava que filme bom é aquele produzido em Hollywood, o importado tem seu charme. Bem, o fato é que fui assistir: “O som ao redor”.




Tempos modernos (1936), Charles Chaplin

Crédito da imagem: DW.Com



Tenho um processo de internalizar as coisas que é só meu. Em um primeiro momento, não consegui compreender o filme, portanto, tive que reassisti-lo. A vontade de rever a película se deu muito em função de um incômodo gerado: o que eu não tinha entendido do filme? Mas, especialmente em razão do título da obra. Pois bem, parei e vi de novo, e, definitivamente, para mim, é um grande filme.


Quero deixar claro que não sou uma crítica de cinema, e a intenção aqui não é analisar o filme, mas falar sobre aquilo que mais despertou a curiosidade em mim, o seu título. Vivemos dias de disputas, ou talvez, sempre tenhamos vivido, mas quando falamos do tempo presente, sempre acreditamos que o atual é diferente, mais difícil, menos acolhedor. Em alguns aspectos, talvez o seja; em outros, possivelmente não. Mas, e os sons ao nosso redor?


O filme traz uma questão bastante interessante: poucos diálogos, muitos barulhos. O que me fez lembrar dessa obra foi uma festa acontecida na praça em frente ao prédio onde moro. Em um domingo fim de dia, aconteceu uma festa promovida pela prefeitura municipal de Guarulhos. Assim como em outras cidades, esses eventos acontecem em pontos distintos da cidade de forma gratuita para quem quiser comparecer. A última que havia sido efetuada nesta praça tinha sido no mês de junho, a festa junina.


Se essas festas acontecem esporadicamente, o que a desse dia teve de diferente? Para começar, essa semana é considerada festiva para a cidade, pois, em 08 de dezembro, comemora-se o aniversário da urbe. Sendo assim, a agenda cultural da cidade contou com uma programação de 02 a 08 de dezembro em vários pontos. A Praça das Pedras é somente um dos espaços que a administração usa para promover esses eventos, e esse foi o local escolhido para receber a festa de aniversário do Djanguru Sistema de Som. Ali se reuniram artistas locais para a festa que contava com a presença de quem queria participar.



Djanguru Sistema de Som - 10 anos.

Crédito da imagem: Guarulhos Cultural.



Estamos chegando ao fim da competição mais famosa de futebol, a Copa do Mundo, e isso por si só já deixa as localidades mais barulhentas. Em dias de jogos, os sons se modificam, tudo parece frenético, conturbado, apressado, o trânsito é mais agitado, todos têm pressa, vestem-se de maneira diferente, se pintam, e, porque não dizer, se fantasiam. Quanto mais o país avança na competição, mais o “espírito da copa” contagia os torcedores. E qual a razão de trazer à baila a disputa futebolística? Justamente o som ao redor.


Em dias de jogos, basicamente, todas as algazarras são aceitas. Na verdade, parece que são até bem-vindas, os gritos, os assovios, as vuvuzelas, os xingamentos. Alguns veem o futebol na televisão, mas preferem ter um rádio por perto para ouvir a narração, pois acreditam ter mais emoção. Portanto, os sons se misturam, todos falam, são técnicos, juízes, até jogadores mesmo estando muito distantes dos estádios. Mas, aí o jogo chega ao fim, como se estivéssemos em um espaço paralelo, a tolerância com a gritaria parece que vai junto com o guardar da bola.


Entre uma partida e outra, aconteceu a festa na praça. Antes mesmo do início, as reclamações no grupo de WhatsApp do prédio começaram a fervilhar: “que coisa chata”, “teremos festa de novo na praça”, “esse bando de desocupado”, “vão fazer xixi nas ruas outra vez”, “não teremos paz”, “até que horas vai essas coisas”, “que horror essa música nada a ver”, e por aí segue o rosário de reclamações. Alguém entra e diz: “gente isso é uma festa pública, uma manifestação cultural, algo agregador, a cidade precisa prover cultura, outras vozes se juntam para enaltecer a importância da cultura para a sociedade”.


E, por quê juntar tudo isso nesse texto? O filme, de maneira geral, me parece uma narrativa que, mesmo sem muitos diálogos, escancara a já consagrada luta de classe, além de mostrar um quadro de uma classe média que não consegue lidar com o diferente, ou talvez com sua própria decadência, haja vista a família retratada trazer, dentre outras coisas, um dos herdeiros que passou a praticar pequenos furtos. As festas públicas, onde todos podem participar sem pagar, não são frequentadas por pessoas que subjugam a cultura dos outros. Na verdade, são exatamente essas pessoas que não suportam, que execram as reuniões, condenam os comportamentos, elencam as desordens que certamente essas pessoas praticam, etc.


Mas, e, as partidas de futebol? Bem, quando essas acontecem e a seleção é vencedora, as celebrações se estendem, as algazarras não são condenadas, é como se o futebol fosse a peça amalgamadora de todos, afinal, somo o país do futebol. Todavia, se nesses momentos as gritarias são aceitas, as pessoas se unem, se há uma espécie de congregar generalizado, seria interessante se conseguíssemos levar esse espírito para outros campos, assim, quem sabe, seríamos uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.


Um dos grandes gênios do cinema não gostava de som, pelo menos não o som nos seus filmes. Para Chales Chaplin: “o som aniquila a grande beleza do silêncio”, mas, para nossas vidas na atualidade, os sons compõem nossa existência de forma tão intrínseca que temos dificuldades em aprender Libras (Língua Brasileira de Sinais), mesmo que saibamos que temos muitos falantes dessa língua.


Definitivamente, os sons ao nosso redor não podem deixar de existir. Leis que inibem e fixam horários para os barulhos, proibição de determinados ruídos e pedidos de silêncio acompanham a sociedade, mas ouvir, ou usar o som ao redor para encobrir algo que acontece é bem usual, como no filme de Kleber Mendonça Filho.


Referências:

Djanguru Sistema de Som - 10 anos. Evento musical. Guarulhos Cultural. Disponível em: https://guarulhoscultural.com.br/agendacultural/djanguru-sistema-de-som-10-anos/ Acesso em: 10 de Dez. 22.

O Som ao Redor. Direção de Kleber Mendonça Filho. Recife: Vitrine Filmes, 2012. 1 DVD (131 min.).

As camadas visíveis e invisíveis de “O Som ao Redor”. Revista de Cinema. Disponível em: https://revistadecinema.com.br/2020/12/as-camadas-visiveis-e-invisiveis-de-o-som-ao-redor/ Acesso em: 10 de Dez. 22.


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP/USP).

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