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  • Foto do escritorLuciene Carris

O que sobrou do céu



Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2023.

Luciene Carris*


Um chá para curar esta azia

Um bom chá para curar esta azia

Todas as ciências de baixa tecnologia

Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina

Pra gente ver

Por entre prédios e nós

Pra gente ver

O que sobrou do céu

O Rappa

Lado B Lado A, 1999.


10:35, 38º.


Havia um corpo estendido na calçada de uma rua, um homem adulto negro na casa dos 35 anos. De acordo com o relato de um trabalhador de um comércio local, uma testemunha ocular acidental, o homem passou mal, teve algum tipo convulsão, então, se debateu, se encolheu, caiu, e continuou ali estendido naquela nobre rua de um bucólico e aristocrático bairro da zona sul carioca. Naquela hora, apenas duas almas compassivas permaneciam junto ao seu corpo caído no chão de cimento naquela manhã de terça-feira. Um deles era um ciclista que se encaminhava para o seu treino em uma academia local, que se solidarizou e parou. Na cena, um casal de amigos se juntou. Ele, que era veterinário e tinha algum conhecimento de primeiros socorros, recomendou que não mexessem no corpo do rapaz e aguardassem ajuda profissional. O homem alertou que qualquer tentativa de auxílio poderia piorar o seu quadro clínico. Enquanto a mulher sugeriu que ligasse imediatamente para o número de uma ambulância ou para o hospital mais próximo.



Crédito da imagem: Canva.


Logo em seguida, chegou um segurança de rua, minutos depois mais dois agentes. O segurança solicitou ajuda ao SAMU através de seu aparelho de celular, enquanto todos observavam o corpo ali estendido no asfalto nobre. O semáforo abria e fechava, a cidade seguia seu curso frenético do cotidiano, dos compromissos particulares, e ninguém mais parou. Nenhuma curiosidade houve sobre aquele corpo negro estendido no nobre asfalto. Os transeuntes continuavam a passar, alheios à aflição que se desenrolava, enquanto o corpo permanecia ali estendido aguardando um resgate ou a chegada de algum familiar. Era um humilde morador do bairro, de um conjunto habitacional, um anônimo que, naquele momento, desafiava a indiferença da sociedade.


Recuperei um trecho de uma composição do grupo O Rappa e Marcelo Yuka para introduzir esse breve texto. Para mim, foi uma das maiores bandas entre os anos 1990 e 2000. Suas letras eram conhecidas por abordar questões sociais e políticas, muitas vezes refletindo a inconformidade social da época, e muitos dos seus videoclipes eram sensacionais. “O que sobrou do céu” pode ser considerada uma metáfora relacionada à beleza, gratidão, fé e religiosidade, conforme a crença comum de grande parte do povo brasileiro. A letra ainda segue outros caminhos como uma alerta ao foco na rotina, aos programas de televisão e para o entorpecimento causado pelo álcool. A queda da energia revelado no verso “faltou luz, mas era dia” evoca outras coisas que merecem ser notadas para além dos prédios e construções, para olhar e observar ao nosso redor. Mas no acaso acima narrado, “o que sobrou do céu” ganha uma nova dimensão ao se relacionar com a falta de empatia e de solidariedade. Isto nos leva a uma reflexão importante, que se desdobra em outras variantes, ou ainda, decorre dela, ou seja, do racismo que está internalizado em nosso cotidiano.



Crédito da imagem: Igor Dalbone, Flickr.


A expressão "O que sobrou do céu" me levou a levantar informações preocupantes sobre a situação de saúde da população negra no Brasil. Para começar, 76% da população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS) para serviços de prevenção, de tratamento e de reabilitação é composta por pessoas negras. Além disso, o acesso aos serviços de saúde é ainda limitado. Portanto, a falta de recursos financeiros e a falta de acesso a serviços de qualidade é uma triste realidade. Outra constatação diz respeito às gestantes negras, que enfrentam maiores riscos devido a um precário pré-natal. Aliás, são inúmeros os relatos divulgados nos periódicos e jornais de grande circulação.


Não podemos ignorar, ainda, a falta de representatividade de estudantes de medicina e de profissionais de saúde negros. Aliás, em 2022, o Conselho Federal de Medicina apontou que apenas 3% dos médicos e médicas brasileiros são negros. Portanto, a discriminação racial afeta o acesso à educação e à saúde qualidade. Além disso, a discriminação racial influencia a maneira como as pessoas selecionam quando expressar empatia e compaixão. O corpo negro estendido no nobre asfalto é um triste exemplo dessa realidade. São inúmeros os relatos que confirmam essa triste situação. Cotidianamente, recebemos notícias sobre a violência, a negligência, a invisibilidade e a omissão enfrentadas pelas pessoas negras. Esses dados expõem as diversas situações de vulnerabilidade vivenciadas, revelando como a cor da pele é a principal fonte de desigualdade e como isso contribui para impedir a mobilidade socioeconômica em um país que insiste no ideal de meritocracia. É bom relembrar que a população brasileira, de acordo com os dados do último censo do IBGE, é majoritariamente negra (56%).


"O que sobrou do céu" me levou até o filósofo grego Platão, que no século IV a.C. escreveu a obra A República. Platão aborda vários temas como educação, política, imortalidade e, especialmente, a justiça. Uma das passagens mais conhecidas é o Mito da Caverna, que é um diálogo entre Sócrates e Glauco, uma alegoria que discute a diferença entre o mundo das aparências e o mundo dos sentidos. A parábola descreve um grupo de pessoas que se encontra aprisionado em uma escura caverna, sempre de costas para a entrada sem nunca terem visto a luz do sol. Na verdade, eles enxergavam as sombras projetadas na parede pela luz do sol que entrava pela porta, o que fazia disso a única realidade conhecida. Em um determinado momento, um desses prisioneiros escapa da caverna e constata a verdadeira natureza das coisas, pois, percebe que as sombras eram representações imperfeitas da realidade. Surpreso, ele retorna para o interior da caverna para avisar os outros que permaneciam presos, contudo, eles se recusam a acreditar, considerando-o um louco, uma vez que as sombras eram tudo o que eles conheciam como realidade.


De fato, muitas pessoas estão presas em suas realidades, sem constatar questões sociais e as desigualdades que existem ao seu redor no nosso cotidiano. Assim como os prisioneiros na caverna, não conseguem ou não querem ver além das sombras das aparências e podem ser indiferentes às injustiças e desigualdades que afetam outras pessoas, como no caso do homem negro estendido no asfalto alheio à indiferença dos transeuntes. O Mito da Caverna pode nos lembrar sobre a importância da busca pela verdade e da compreensão das realidades que podem estar escondidas por trás das aparências. A responsabilidade no enfrentamento das desigualdades, do racismo e da falta de empatia em nossa sociedade é um trabalho coletivo, e o “O que sobrou do céu”, com seu conteúdo lírico, político e musical, é uma maneira metafórica de apresentar uma possível esperança, onde a solidariedade e a compaixão prevaleçam sobre a indiferença e a discriminação.


Viva o poder da música e viva a memória de Marcelo Yuka!




Referências:


FLAESCHEN, Hara. Mulheres negras sofrem mais violência obstétrica, 06 mar. 2020, ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). Disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/noticias/8m-mulheres-negras-sofrem-mais-violencia-obstetrica/45463/ Acesso em: 18 set. 2023.


ROCHA, Roseli da Fonseca. Especial O Ministério da Saúde e o PNI | A cor da desigualdade: a Política de Saúde da População Negra, 21 ago. 2023, Casa de Oswaldo Cruz, FIOCRUZ. Disponível em: https://www.coc.fiocruz.br/index.php/pt/todas-as-noticias/2478-especial-o-ministerio-da-saude-e-o-pni-a-cor-da-desigualdade-a-politica-de-saude-integral-da-populacao-negra.html Acesso em: 18 set. 2023.


PLATÃO. A Alegoria da caverna: A República, 514a-517c. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia: dos Pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. Disponível em: http://www.usp.br/nce/wcp/arq/textos/203.pdf Acesso em: 18 set. 2023.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).



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