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O que Homi Kharshedji Bhabha tem a nos dizer sobre cultura?

André Sena*

Toronto, 15 de março de 2022.



Cultura: palavra utilizada de forma sistemática ao longo do dia por nós, seres urbanos, seres humanos, seres mundanos.



crédito: Literary Theory and Criticism Magazine


Se existe um vocábulo que sempre me intrigou ao vê-lo na boca das pessoas é esse. Uma palavrinha misteriosa que esconde conceitos profundos e é claro, ipso facto, abusada cotidianamente por muitos.


Recordo-me de quando, em minha juventude primeira (estou para lá da metade da segunda!) eu militava no movimento LGBTTTQIA2s+ (militância que hoje, em função dos sombrios tempos que vivemos, é mais do que necessário retomar) um coordenador meu cortava sempre o L da palavra, o que me irritava profundamente: “CUTURA “, dizia ele, para o arrepio de muitos de nós.


Enfim esta palavra, apesar de tão violada, é a chave para muitas de nossas questões. Roque Laraia a associava às regras metodológicas da antropologia; já Clifford Geertz definitivamente associava cultura a um processo interpretativo do simbólico; entretanto ninguém talvez tenha me surpreendido mais em tentar defini-la do que o grande debatedor da Literatura Americana e figura de proa dos chamados “estudos pós-coloniais “, o indo-americano Homi K. Bhabha.


Em O Local da Cultura, obra famosa nas universidades brasileiras, Bhabha retoma um conceito de cultura que beira um namoro com o marxismo: a cultura como instrumento de assimetria, de dominação e de subalternização do outro.


Eu sei. Você gostaria de estar lendo algo mais…light and joyful.


Eu também.


Mas acho que um pouco de pensamento crítico corrosivo nesse universo distópico que estamos vendo fora e dentro de nossas casas não faz mal a ninguém: imitemos o exemplo de Bhabha.


Na verdade, a expressão imperativa afirmativa imitemos, que acabo de usar acima, foi proposital. Bhabha nos convida a pensar os mecanismos culturais a partir da IMITAÇÃO, do que ele denomina mímica e formação de estereótipos, que vulgarizam mais do que universalizam. As tradições culturais seriam, diz ele, uma ponte possível para o imperialismo cultural. Outro grande pensador contemporâneo seu, Edward Said aposta no mesmo argumento em Cultura e Imperialismo, obra sua menos famosa do que Orientalismo.


Explico: Bhabha nos presenteia com a ideia de que a imitação das tradições culturais pode levar a violação de outras tradições culturais, a depender de como isso pode ser instrumentalizado pela política, por nacionalismos de toda espécie ou simplesmente pelo narcisismo coletivo.



crédito: ILKHA.


Definitivamente a proposta de Bhabha ressoa muito para nosso momento atual! Mas que isto não signifique que eu ache (e aposto que ele também não!) que as tradições culturais são um mal em si. Elas podem ser sim, perversas e terríveis, na medida em que se fecham em si mesmas, destituindo o outro (outras tradições, outras comunidades, outras civilizações e civilidades) do mesmo estatuto. O ideal ocidental civilizatório do século XIX e de princípios do século XX caiu estupidamente nesta armadilha! Outros ideais civilizatórios a leste de Greenwich também. O Japão das Eras Meiji, Taisho e Showa que o digam.


Possivelmente, se desejarmos, podemos ser simplesmente bons imitadores, o que nos levaria a ser naturalmente bons vizinhos. Meus valores culturais são meus, naturalmente; mas os valores do outro (mesmo quando contradizem os meus) devem ser encarados por mim como…valores!


E quem sabe superemos Bhabha e nesse mundo moderno tardio (ou pós-moderno como muitos preferem…) consigamos fazer da comunicação entre as diferentérrimas tradições um inesgotável conjunto de pontes para a construção de algo mais…demasiadamente…HUMANO!


Afinal, como disse o velho Chaplin: “Não sois máquinas, homens é que sois!”


*André Sena é historiador (UERJ).

Instagram: @andresenahistoriker


REFERÊNCIAS:

BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Ed. UFMG, 1994.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Ed. LTC, 1981

LARAIA, Roque de Barros. Cultura. Um conceito antropológico. Ed. Zahar, 1986

HUDDART, David (org.). Homi Bhabha (Routledge Critical Thinkers). Routledge, 2006.

SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. Ed. Companhia de Bolso, 2011.



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