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  • Foto do escritorAndré Sena

O lamento de Pretinha sobre o fim da Monarquia

Toronto, 01 de julho de 2022.

André Sena*


Estou cada vez mais convencido de que os acasos do cotidiano são verdadeiramente capazes de provocar em cada um de nós as mais interessantes reflexões históricas. O mundo ao nosso redor nos fala e nos emite sinais que podem, se for a História uma paixão cultivada, nos remeter aos processos do passado, e até mesmo aos dilemas históricos do tempo presente. Lenda ou fato histórico, a maçã na cabeça de Isaac Newton contribuíra de forma indelével para a formulação de um novo sistema de pensamento a que hoje nomeamos física moderna. O mesmo pode, insisto, ocorrer a simples mortais como nós, e no caso dos amantes da história isso pode ser ainda mais comum.



Crédito da imagem: Sarau da Casa Azul.



Recentemente uma amiga postou em uma de suas redes sociais uma foto de sua gata, elegantemente esquia sobre uma mesa, observando um livro de história. Tratava-se de um dos volumes da recomendadíssima coleção História Geral da Civilização Brasileira, organizada por Sérgio Buarque de Holanda. Mais especificamente o quarto tomo do volume dois, tratando do Brasil monárquico, do declínio e queda do Império brasileiro. Não se impressionem com a letra maiúscula em Império, pois trato a República sempre com a mesma deferência, com exceção daquela dos Bruzundangas, caricaturada por Lima Barreto em obra homônima, publicada pela primeira vez em 1922.


Na foto, Pretinha olha para baixo em direta comunicação visual como o livro, e minha tentação em antropomorfisar seu olhar foi imediata. Quando li a legenda da foto postada, escrevi na seção dos comentários: “percebe-se que Pretinha está lamentando o fim da Monarquia”. Dificilmente eu seria capaz de captar as intenções reais do melancólico olhar da felina para o livro; até mesmo o atrelamento de seu gesto à melancolia será provavelmente uma fantasia minha. Entretanto não pude deixar de aproveitar a metáfora que se apresentava diante de meus olhos, viciados em redes sociais, para pensar em algumas figuras da nossa história que atravessaram esse período entre o fim do Império e a Primeira República, com os mesmos olhos de Pretinha.


Mais do que isso - e por isso o meu fascínio com essa relação entre o nada cotidiano (para usar ume expressão da escritora cubana Zoé Valdez) e aquilo que o dia-a-dia pode nos levar a pensar - me veio à cabeça a diferença, de qualidade e substância, entre aquelas figuras geniais do pensamento brasileiro, que olhavam paradoxalmente para o passado monárquico com nostalgia e com respeito, sem negar a marcha dos tempos que nos trouxe o Brasil republicano, e aquelas figuras indispensavelmente medíocres de hoje, que vão para as ruas com a bandeira imperial, defendendo a restauração da monarquia no Brasil, de forma absolutamente delirante e descolada da realidade política brasileira dos nossos dias.


Logo após ver e comentar a foto de Pretinha, duas figuras me tomaram de assalto o pensamento: a primeira, escreveu uma pequena obra, muitos dirão um manifesto ou panfleto (eu não vejo o texto dessa forma) chamada “O dever dos monarquistas”. Trata-se na verdade de um conjunto de reflexões de Joaquim Nabuco em formato de carta escrita ao almirante Arthur Silveira da Motta, Barão de Jaceguai, publicada já em tempos republicanos, no ano de 1895. Esta carta-livro era na verdade uma resposta a um outro texto, também do próprio Nabuco, publicado no Diário do Comércio, cinco anos antes, chamado “Por que continuo a ser monarquista”.


Em ambos os textos se observa em grande medida a mesma intenção do escritor: o reconhecimento crítico dos problemas, desafios e desventuras do Império (Nabuco chega a dizer em um deles que o Brasil monárquico prosperou graças ao estrume da escravidão, deixando clara sua verve e vocação política abolicionista) e ao mesmo tempo o reconhecimento de um fait accompli, a República, em prol da qual era preciso trabalhar a fim de aperfeiçoar a vida nacional.


Logo após pensar sobre os textos da “fase monarquista” de Nabuco, foi Juca Paranhos, o Barão do Rio Branco que visitou minhas reflexões. Ainda agradecido pela provocação de Pretinha, lembrei-me do quanto Rio Branco servira à República, a partir de um olhar para o passado institucional da Monarquia, especialmente nas nossas relações exteriores, na reconfiguração de nossos limites e fronteiras, e na aposta sobre a resolução pacífica de controvérsias com outros países (uma crítica a 1864, talvez?), bem como no primado do direito internacional como marcas da diplomacia da República, que caminhava para a sua consolidação.


D. Pedro II nunca deixou de ser para Rio Branco uma referência importante, tendo ele inclusive biografado, sob pseudônimo, o último Imperador brasileiro. Mas era a realidade republicana que se lhe impunha, e disso Paranhos nunca fugiu. Interessava-lhe, para além do passado, a modernização de nossa atuação sul-americana, especialmente com o recrudescimento de nossa inserção platina por intermédio da construção de um bem-sucedido consórcio diplomático Rio de Janeiro-Buenos Aires. E ainda, a reconstrução de uma política panamericana protagonizada pelo Brasil, para o bem do futuro.


São esses os monarquistas que de fato importam. Aqueles que entenderam que a simpatia pelo regime imperial não poderia ser um empecilho para a lucidez e a clarividência de que a República era e segue sendo uma obra inconclusa, mas ao mesmo tempo inevitável no Brasil. A onda populista-monarquista que se instalou no país recentemente nada tem de legítima, frente a estes vultos que souberam colocar a Coroa no seu devido lugar, ao mesmo tempo que davam espaço ao novo e ao sempre experimental presente republicano. Eles souberam ver o Brasil pelas lentes do futuro, sem deixar de colher os frutos do passado, e apenas aqueles dignos de serem colhidos. O que se vê hoje nas supostas manifestações conservadoras de ocasião, é um fenômeno absolutamente incapaz de fazer essa simples conta de somar histórica.


E graças a Pretinha, podemos revisitar os monarquistas do passado para juntamente com eles cancelar os do presente. Miau!


REFERÊNCIAS

NABUCO, Joaquim. Porque continuo a se monarquista. Carta ao Diário do Comercio. Londres, 1890.

Idem. O dever dos monarquistas. Carta ao Almirante Jaceguay. Leuzinger, Rio de Janeiro, 1895.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Et al. (org.) O Brasil Monárquico. Declínio e Queda do Império. In: História Geral da Civilização Brasileira, Tomo II, vol.4. Ed. Bertrand Brasil.

LYNCH, Christian Edward Cyril. Da Monarquia à Oligarquia. História Institucional e Pensamento Político Brasileiro (1822-1930). Editora Alameda, 2014.


*André Sena é historiador (UERJ).

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