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  • Foto do escritorClaudio Antônio S. Lima Carlos

O Cine Teatro Gustavo Dutra da UFRRJ: espaço cultural do Campus Seropédica


Rio de Janeiro, 01 de novembro de 2023.

Claudio Antônio S. Lima Carlos*


O texto examina a arquitetura e algumas formas de utilização do espaço do Cine Teatro Gustavo Dutra (CTGD), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), tendo em vista a sua importância cultural para os municípios de Seropédica e de Itaguaí, localizados na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. A denominação do cine teatro homenageia o Professor Gustavo Dutra, o primeiro diretor da Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária - ESAMV (1911-1914), criada em 1910. A Escola foi a origem institucional da Universidade Rural, fundada em 1944.


O CTGD se localiza no Pavilhão Central (P1) da UFRRJ que é parte integrante do conjunto arquitetônico-paisagístico do Campus Seropédica, bem cultural tombado provisoriamente, em 1998, e, definitivamente, em 2001, pelo governo estadual. A referida proteção contemplou além do P1 e o CTGD, outras edificações do campus e o parque paisagístico projetado por Reynaldo Dierberger, que integra todo o conjunto arquitetônico protegido; além dos painéis de azulejos elaborados pela artista plástica portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, localizados no antigo restaurante universitário. Professores e alunos, geração após geração, referem-se carinhosa e tradicionalmente ao cine teatro como “Gustavão”.



Vista do interior (palco e plateia inferior) do Gustavão nos anos 1950.

Fonte: Centro de Memória da UFRRJ.


O projeto do campus Seropédica, incluindo o P1 e o “Gustavão”, foi supervisionado pelo engenheiro-arquiteto Ângelo Murgel, sendo aprovado, em 1938, pelo presidente Getúlio Vargas. As obras foram iniciadas em 1939 e concluídas em 1948. A concepção e desenvolvimento do projeto arquitetônico de todo o Prédio 1 ficou a cargo da empresa de Mário Whately, com a participação de vários profissionais, com destaque para o arquiteto e artista plástico Eugênio de Proença Sigaud, que assinou diversos desenhos de detalhes relacionados à edificação.


Vista do interior (palco, plateia inferior e superior) do Gustavão nos anos 1950.

Fonte: Centro de Memória da UFRRJ.


O “Gustavão” foi projetado para abrigar 460 pessoas, divididas em platéia inferior e superior, atualmente desativada. Em nível mais elevado, observa-se também uma cabine de projeção cinematográfica que ainda guarda os equipamentos originais.


Acesso ao Gustavão. Fonte: Autor, 2013.


O palco possui tipologia italiana com configuração retangular. Ao fundo observa-se a boca de cena, em forma de caixa aberta na parte frontal, que surge emoldurada em estuque. O piso do palco encontra-se elevado em relação ao da platéia, possuindo coxias e urdimento. O “Gustavão” não possui acesso independente, tampouco foyer, devido ao fato de encontrar-se integrado à arquitetura do P1. Para alcançá-lo utilizam-se obrigatoriamente os acessos do Pavilhão Central e suas circulações internas. A espera do público se dá na própria circulação da edificação que, à altura do seu acesso, possui dimensões mais largas.


Mapeamento de danos realizado por alunos do curso de arquitetura e urbanismo da UFRRJ, 2008.


Em função da inexistência de espaços similares no município e adjacências, o “Gustavão” transformou-se em única opção de lazer para os habitantes locais, abrigando sessões de cinema, shows de música, peças de teatro etc. Apesar disso, o teatro apresenta problemas na sua conservação, bem como ausência de um sistema de climatização adequado às características morfológicas do seu espaço. Cabe destacar que, em 2022, foi identificado no acervo de documentação histórica sob guarda do Laboratório de Conservação de Documentos da UFRRJ (LabDoc/UFRRJ), um projeto de climatização adequado às características arquitetônicas do cine teatro, elaborado em 1948 por E. P. Sigaud. O projeto não foi executado, deixando o cine teatro sem qualquer tipo de climatização, mesmo situando-se numa região com elevadas temperaturas médias. Em 2008, a disciplina de Projeto de Conservação e Restauração do curso de arquitetura e urbanismo da UFRRJ, sob responsabilidade do autor, realizou um mapeamento de danos das edificações protegidas, especialmente, do “Gustavão”, com vistas contribuir para a conservação do importante espaço cultural.



Referências Bibliográficas:


COSTA, F. O Ministério da Agricultura no primeiro decênio governamental do Presidente Vargas: conferência. Rio de Janeiro: DIP, 1940.


LIMA CARLOS, Claudio A. Descobrindo o Campus da UFRRJ Através do seu Patrimônio Documental, Anais do II Seminário Ibero Americano de Arquitetura e Documentação: desafios e perspectivas, Belo Horizonte, 2011, v. 01. p. 01-14.


LIMA, Fábio José Martins de. IBAMA – UFRRJ, PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA – Tradição e modernidade do arquiteto Ângelo Murgel. Itatiaia/RJ:Parque Nacional do Itatiaia: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, n. 11, 2003.


MONTEIRO, M.C.; MATTOS, R.P. de; BIASE, T. DE; FERRAZ, G.M. dos S. Inventário de bens imóveis-ficha sumária da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro-Km 47 da Rodovia BR-465, antiga estrada Rio/São Paulo. Proc.: E-18/001540/98.


OFICINA ARQUITETURA CÊNICA = Taller arquitectura escenica/Projeto Multinacional de Arte [coordenação de José Carlos Serroni; participantes: Alberto Egurza et alii]. Rio de Janeiro: Funarte, Centro Técnico de Artes Cênicas, 2003.


RUMBELAPAGER, Maria de Lourdes. Arquitetura Neocolonial. Seropédica: EDUR, 2005.



*Claudio Antônio S. Lima Carlos é Professor Associado do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ, onde leciona a disciplina de Projeto de Conservação e Restauração de Bens Culturais, desde 2006; fundador e coordenador do LabDoc/UFRRJ, de 2013-2022).


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