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O ato de escrever

Guarulhos, 15 de dezembro de 2021.

Luzimar Soares*



Ao longo dos últimos dois anos, apesar da pandemia, muitas coisas aconteceram e transformaram vidas para sempre. Lá no princípio de 2020, quando o mundo ainda estava imerso nos questionamentos se viveríamos ou não uma pandemia; e se teríamos, no Brasil, o fechamento das coisas e o trancamento da vida, pensamentos tristes, algumas vezes desesperados, tomaram conta de mim numa espécie de busca pela continuidade das coisas.



Crédito: Wix.


Naquele momento, foi preciso tomar decisões que, antes, sequer eram imaginadas. De certa maneira, o rearranjo da vida seguiu um rumo muito interessante, e me redescobri. O novo lugar é, até hoje, o melhor onde já estive. Esse novo espaço que não me obrigou a sair do meu território é um local de desafios diários, mas de inspiração constante. É o cosmo do pensamento criativo.


Aqui é onde, em meio a livros, buscas, pesquisas, descobertas e desafios solitários, venho criando, traçando um caminhar uno, importante, e, para mim, é o lugar dos meus maiores desafios. Escrever e publicar é desnudar sua alma para que outros a leiam, e deixar que descubram seus pensamentos é permitir ser visto do avesso. Obviamente, cada escrita tem um sentido diferente. Justamente por isso, quero falar sobre meus dois livros pulicados ao longo desses últimos dois anos.


Lá em 2019, encerrei meu mestrado, defesa concluída, aprovada e publicada na Universidade – PUC – SP. Trabalho feito, pronto. Mas, ficaria só para quem pesquisa? Deveria buscar uma forma de publicar em livro? Muitas dúvidas, pouco incentivo, ou melhor, nenhum incentivo. Mas esse foi um trabalho tão especial! Como foi construída essa pesquisa? Ah, ela foi feita por muitas descobertas!


Sendo eu moradora da cidade de Guarulhos, estudar a história de uma colônia de pescadores artesanais alocada na cidade do Rio de Janeiro – mais precisamente, em Copacabana -, já foi um desafio pela distância física. Todavia, esse foi o menor deles. A história da pesca no Brasil é importantíssima, pois temos um litoral gigantesco, e muitos, mas muitos pescadores que vivem do pescar. Mulheres e homens que se lançam ao mar diariamente para conseguirem seus sustentos. A quantidade de Colônia de Pescadores ultrapassa 800, mas a que eu estudei está localizada na “Princesinha do Mar”, a paradoxal Copacabana, local conhecido mundialmente, frequentado por muitos e local de um dos hotéis mais conhecidos do mundo.


Após todos os estudos, defesa feita, a pandemia trouxe reclusão e mais reflexão. Então, a dissertação se transformou em algo maior. A pesquisa feita com tanto carinho, esforço e dedicação precisava sair dos “muros” da universidade. O caminhar, durante a construção desse trabalho, foi edificado com idas ao mar junto com os pescadores, em almoços, com dias na Colônia, fosse para gravar entrevistas com eles, fosse para observar a movimentação, ou ainda, para ler os documentos da Colônia. Essa interação resultou em observação de momentos importantíssimos para a pesquisa.


E, nascia então: Nas ondas do mar carioca: O moderno e as tradições vistos a partir da história dos pescadores da Colônia Z – 13 na praia de Copacabana. Publiquei em dezembro de 2020, está completando um ano. E, junto com esse aniversário, comemoro a alegria de ter experienciado a escrita de um livro.

Enquanto publicava este livro, participei do programa de cultura da cidade de Guarulhos, através da secretaria de cultura, alicerçado na lei Aldir Blanc. Concorri ao patrocínio para publicar outra obra, dessa vez, algo que escrevi nos primeiros meses da reclusão imposta pela pandemia. Incentivada por novas leituras que foram, aos poucos, fazendo parte da minha vida, narrei a história de vida da minha mãe em forma de crônica. E, um amigo muito especial, o Alcides Oliveiro, ilustrou. Em janeiro de 2021, publiquei com incentivos públicos e doei os 100 exemplares para as bibliotecas públicas da cidade.

Com a verba ganha para essa publicação, subsidiei uma segunda edição e republiquei o livro: A Dor de Ser Ana, este um trabalho completamente diferente do anterior, todavia, de grande importância para mim. Narrar as minhas memórias é algo denso, é desafiador, e, em muitos momentos, precisei recorrer às memórias da minha mãe para preencher as lacunas das minhas.

Também, ao longo de 2020, fui gentilmente convidada pela professora e amiga Andrea Casa Nova Maia a escrever um artigo para um livro que fala sobre o feminino. Juntei-me a uma série de pessoas talentosíssimas, e, para a obra Recortes do Feminino: cristais de memória e história de mulheres nos arquivos do tempo, contribui com o capítulo: A Cultura da Objetificação do Corpo Feminino na Profissão da Aeromoça ̸ Comissária de Voo no Brasil Republicano.

Pesquisar, juntar fontes, contrapor informações, levantar dados, ficar horas a fio buscando novas informações nas bibliotecas e hemerotecas digitais, mergulhar nos acervos dos arquivos - sejam públicos ou privados -, ler um sem-número de páginas de livros, revistas jornais, anotar, rabiscar, reler (e, claro esquecer o que já leu), perder informações, recuperar, tudo isso faz parte do trabalho da pesquisadora, da estudante, da escritora. É um trabalho solitário e, por que não dizer, de exclusão, pois ficamos tão imersos nas nossas pesquisas que, às vezes, esquecemos de sair.


Para além de tudo, pesquisar e escrever é um trabalho incrivelmente prazeroso. Porém, este trabalho só é realmente importante se ele for divulgado. É por isso, e para convidar a cada uma e cada um que acessa o nosso blog a também ler os nossos livros, que meus amigos e parceiros nessa página, André Sena e Luciene Carris, organizaram uma obra importantíssima sobre relações internacionais: Relações Internacionais em um Mundo Pós-Pandemia: Permanências e Descontinuidades.


Trago aqui, um convite a cada um. Nossos pesquisadores estão produzindo, buscando olhares para o que vivemos, procurando compreender a História, especialmente a história dos excluídos. Portanto, o convite é: acessem nossas obras, estamos esperando pela sua leitura e por sua crítica.


*Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).


Referências bibliográficas:

BERNARDO, Luzimar Soares. A Dor de Ser Ana. Curitiba: CRV, 2021.

________________________. Nas ondas do mar carioca: O moderno e as tradições vistos a partir da história dos pescadores da Colônia Z – 13 na praia de Copacabana. São Paulo: e-Manuscrito, 2020.

MAIA, Andrea Casa Nova. Recortes do Feminino: cristais de memória e história de mulheres nos arquivos do tempo. Rio de Janeiro: Telha, 2020.

SENA, André. Relações Internacionais em um Mundo Pós-Pandemia: Permanências e Descontinuidades. ̸ Organização André Sena, Luciene Carris. Porto: Cravo, 2021.


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