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Memórias nas Ruas: Reflexões sobre a História, Espaço e Transformação Urbana

Rio de Janeiro, 09 de junho de 2023.

Luciene Carris*


A minha inspiração para este texto tem uma abordagem um tanto saudosista ou nostálgica, mas tenho certeza de que aqueles que já ultrapassaram a marca dos quarenta anos, assim como eu, vão se recordar com uma alegria especial dos tempos da juventude. Estou revivendo uma época vivida nas ruas do Horto, no bairro do Jardim Botânico, em particular a rua Barão de Oliveira Castro, um ponto de encontro de muitos amigos. Essa rua, aliás, recebeu esse nome nobre devido à relação familiar do Barão com Dona Castorina, uma rica senhora proprietária de terras da região, e que também dá nome à estrada que leva à Floresta da Tijuca. Originalmente, a rua Pacheco Leão se chamava Estrada Dona Castorina, a mudança se deu em razão de uma homenagem ao saudoso diretor do Jardim Botânico, Antônio Pacheco Leão, que exerceu o cargo entre 1912 e 1931, quando veio a falecer.



Crédito da imagem: wix.


Desde o início das minhas andanças pelas ruas da cidade, uma inspiração que se manifestou em minha vida há pouco mais de uma década, tenho apreciado as ruas e monumentos com um novo olhar, mais crítico, talvez menos contemplativo, contudo, mais conectado com o espaço e com a sua história. Essa mudança de perspectiva talvez seja influenciada pela análise do historiador Antonio Edmilson Martins Rodrigues em suas recentes pesquisas, que tem investigado o método de análise da cidade a partir da obra do cronista da cidade João do Rio, alcunha do jornalista e escritor Paulo Barreto, em especial, o que Rodrigues examinou como sendo seu “método crítico” adotado pelo nosso flâneur da Belle Époque carioca.


Por outro lado, ao refletir sobre a relação com o espaço, percebo como os lugares e espaços físicos têm o poder de despertar emoções e influenciar nossas experiências emocionais. Isso me remete à "geografia dos afetos e das emoções", uma abordagem que nos ajuda a compreender como as comunidades, os valores culturais e as experiências compartilhadas moldam nossa relação emocional com os lugares que habitamos.


Nesse contexto, a “geografia dos afetos e das emoções” se tornam uma ferramenta interessante para explorar como as interações humanas são influenciadas pelos espaços físicos e como essas interações, por sua vez, moldam nossa percepção emocional dos lugares. Através dessa abordagem, podemos vislumbrar como nossas experiências individuais e coletivas são emaranhadas com os espaços que nos cercam, enriquecendo nossa compreensão das conexões entre espaço, sociedade, sentimentos e emoções. Segundo o geógrafo Rogério Haesbaerth,


afeto se desdobra no deixar-se tocar pelos outros - humanos e/ou lugares. Por isso a importância dos LUGARES e o fato de eles fazerem tanta diferença; Deixar-se des-envolver pelos lugares - com tudo o que neles há de humano e não humano - é, ao mesmo tempo, elaborar elos de afetividade e responsabilidade. Refazendo um ditado comum, somos responsáveis pelos lugares que nos cativam - e por aqueles que culti/cativamos (HAESBAERTH, 2017).



Não por acaso, a geografia e a história se encontram, quando compreendemos de fato que o espaço é o palco das ações humanas ao longo do tempo, portanto, essa interseção pode auxiliar no entendimento sobre a complexidade das relações entre o ser humano, o tempo, o espaço e a construção da memória coletiva. Não raro, os afetos e as sensibilidades têm se tornado objetos frequentes de investigação de muitos historiadores e geógrafos, aliás defendo uma aproximação entre essas suas disciplinas, que tiveram uma origem bem estreita no passado.


Nos últimos anos, tenho apresentado para turmas de alunos de amigos, que também são pesquisadores e professores universitários, as ruas do bairro onde moro, especialmente o recanto chamado Horto. Essas experiências têm sido verdadeiras jornadas de descoberta, onde me deparo com novas histórias e memórias através das lembranças dos mais velhos. E aqui, me recordo do livro de Ecléa Bosi, Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, pois cada esquina carrega uma atmosfera especial, a cada placa que desvendamos novas histórias e cada casario centenário testemunha o passar do tempo, e me sinto imersa em um passado tão vivo através dessas lembranças reveladas.


No entanto, essa paisagem em constante transformação também me confronta com a realidade sobre a cidade. À medida que novas construções surgem e as mudanças urbanas se manifestam, observo o desaparecimento gradual do patrimônio arquitetônico que carrega consigo histórias e significados únicos, e se constituem como lugares de memória, a exemplo do prédio em estilo art déco onde morei na infância, que foi excluído da paisagem urbana, e substituído por um novo mais moderno na rua Jardim Botânico. Essa interação entre o antigo e o novo é um tema recorrente de reflexões sobre as caminhadas pelas ruas, e assim, me vejo envolvida nesta relação entre memória, sociedade e transformação urbana.


As cidades têm sido objetos de estudos de longa data para muitos estudiosos, mas o “trabalho de campo” como atividade de pesquisa é parte essencial da metodologia de pesquisa de muitas disciplinas da Geografia. Por sua vez, o “Turismo de Campo” ou “Pesquisa em Turismo de Campo” é fundamental para a formação do profissional da área. Além disso, até mesmo historiadores têm redirecionado seu foco para esse universo em particular através de atividades pedagógicas, que se convertem em “aulas públicas” ou em “passeios pedagógicos”, entre outros nomes acadêmicos, a exemplo das aulas realizadas pelo nosso colaborador do blog, o historiador e professor da UERJ, Carlos Eduardo Pinto de Pinto.


O certo é que as ruas se convertem em espaços não-formais para o ensino. Aliás, essa tendência reflete um interesse crescente em compreender a história do Rio de Janeiro de forma crítica e precisa, compartilhando-a com o público de maneira mais assertiva. Não se trata apenas de revelar curiosidades superficiais, mas sim de contribuir com reflexões sobre a história e sobre a nossa relação com o lugar.


A rua Barão de Oliveira Castro, conhecida pelos mais íntimos simplesmente como Barão, é uma pequena e sinuosa via localizada no bairro do Horto, no Rio de Janeiro, que começa na rua Pacheco Leão e termina na rua Marquês de Sabará. No passado, havia ali uma pedreira, e os vestígios desse passado podem ser observados nas antigas casas dos trabalhadores que ainda ali existem.


Atualmente, no lugar da antiga pedreira, está sendo construído uma espécie de hotel para alunos e professores do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). No entanto, essa construção tem sido motivo de controvérsia, pois está localizada no sopé da Floresta da Tijuca, e grande parte da vegetação foi destruída para dar lugar às novas instalações. Essa situação levanta questões sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental. Alguns argumentam que a construção das moradias é importante para abrigar os membros da comunidade acadêmica do IMPA, enquanto outros criticam a destruição da vegetação e defendem a preservação da área verde, bem como da fauna que também foi atingida.


Ainda guardo as lembranças da minha adolescência na Barão, envolto pelo som de bandas do rock nacional. Naquele lugar, descobríamos as novas tendências musicais enquanto aproveitávamos o espaço para jogar bola, vôlei ou simplesmente conversar com os amigos. Embora a turma da Barão não exista mais, essas lembranças continuam vivas em minha mente. Apesar da abertura de um vasto terreno para o controverso empreendimento, uma imponente pedra continua lá, desafiando as transformações e a destruição ao seu redor, permanece ali (pelo menos temporariamente) ainda inabalável, majestosa e como uma testemunha silenciosa do tempo. E, desse modo, a bucólica rua se converte em um microcosmo, que reflete as transformações que encontramos em todos os cantos da cidade com suas memórias entrelaçadas e sendo alvo de interesses distintos.



Referências:

BOSI, Eclea. Memória e sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz Editor Ltda, 1979.

JB RIO. Campus na Mata Atlântica – uma tragédia anunciada, 28 dez. 2022. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/meio-ambiente/2022/12/1041442-campus-na-mata-atlantica-uma-tragedia-anunciada.html Acesso em: 05 jun. 2023.

HAESBAERT, Rogério. Por amor aos lugares. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2017.

NORA, Pierre. Ensaios de ego-história. Lisboa: Edições 70, 1989.

PESAVENTO, Sandra J. O imaginário da cidade. Visões literárias do urbano. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.

TURRA NETO, N. (2019). A geografia da FCT/UNESP entre afetos e emoções. Geografia Em Atos (Online), 5(12), 3–7. Disponível em: https://doi.org/10.35416/geoatos.v5i12.6691 Acesso em: 01 jun. 2023.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).

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1 comentário


dudachacon
dudachacon
10 de jun. de 2023

Adorei o texto (e não apenas porque faço parte dele... rs!). De fato, a geografia dos afetos torna a cidade tridimensional. Em minhas aulas de campo, percebo o quanto a cidade se amplia e complexifica a partir do momento que as pessoas olham para ela de fato, a observam com atenção e ouvem seus "causos"...

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