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  • Foto do escritorRaquel Fernandes de Araújo Rodrigues

Mangaba muito além de “coisa boa de comer”

São Paulo, 15 de julho de 2022.

Raquel Fernandes de Araújo Rodrigues*


A palavra “mangaba” é de origem indígena que tem sido traduzida para o português como “coisa boa de comer”, “coisa de comer”, “comida boa”, “grude” ou “visgo”, em alusão ao látex presente na planta. A mangabeira é uma arvore nativa dos Biomas Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado do Brasil, com ocorrência também registrada no Paraguai, Peru e Bolívia.


Crédito: Embrapa.


Há 20 anos, eu e os pesquisadores da Embrapa, Dalva Maria da Mota e Josué Francisco da Silva Junior, e Heribert Schmitz, professor da Universidade Federal do Pará, temos realizado expedições em todo Brasil mapeando áreas de mangabeiras nativas e ouvindo as comunidades extrativistas que coexistem com os benefícios que essas plantas têm lhes propiciado de geração em geração.


O sabor singular da mangaba é uma das suas qualidades e as expressões “Muitíssimo saboroso”, “saborosas”, “doces e agradáveis” são adjetivos destacados pelos primeiros viajantes e exploradores ao degustarem os frutos pela primeira vez. É importante dizer que esses viajantes e exploradores descreveram a mangaba a partir de seus paladares europeus, comparando-a com damascos, ameixas e sorvas.


Mas, como a mangaba teria sido descrita pelos índios guaranis e tupis, se eles tivessem sido ouvidos? Nas minhas caminhadas seguindo o “rastro da mangabeira”, infelizmente, nunca conversei com indígenas, pois meu foco tem sido comunidades tradicionais de extrativistas de mangaba não indígenas. Desde 2002, tenho partilhado saberes e memórias sobre a mangaba com homens e mulheres extrativistas da espécie, predominantemente negros e negras. Eu, mulher, negra, urbana e nordestina, com sergipanidade aflorada pelos poros da minha pele clara — Sergipe é um dos maiores produtores de mangaba do país —, costumava apresentar a mangaba como “o melhor suco do mundo”. Sempre tem alguém para questionar a minha preferência por não gostar de ficar com os lábios grudados ao beber o suco. Eu dou até de ombros… quem manda não saber que a mangaba tem que ser “de caída”, ou seja, bem madura, colhida no chão, após cair espontaneamente do “pé”? Mais adiante, retomarei a esse assunto.


Em Sergipe, as mulheres extrativistas de mangaba são autodesignadas “catadoras de mangaba”, grupo culturalmente diferenciado e reconhecido na Lei Estadual nº 7.082/2010 em sintonia com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e possuem representatividade no Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT). A conservação dos territórios e dos modos de vida dessas mulheres implica na manutenção da diversidade ambiental e cultural de diferentes grupos sociais, uma vez que elas são responsáveis pela maior parte dos frutos que são consumidos em forma de alimento por quase toda a população sergipana e de outros estados do Nordeste.


Enraizadas em uma sociedade de estrutura patriarcal e racista, no início das pesquisas, minha equipe e eu constatamos que as existências das catadoras de mangaba estavam subalternizadas a narrativas que as encobriam enquanto grupo social e sujeitos de direitos. Elas ficavam surpresas quando mencionávamos que existiam mulheres que “catavam” mangaba em todo o litoral de Sergipe (12 municípios) e em outros Estados. As histórias que cada uma daquelas mulheres nos confiava evidenciavam um movimento de luta e resistência que, embora tenha transcendido gerações, foi propositadamente invisibilizado para justificar projetos em prol do crescimento econômico (construção de estradas e pontes; instalação de viveiros de camarão, de cultivos de eucalipto e de cana-de-açúcar; e, construção de condomínios residenciais e empreendimentos turísticos). As falas daquelas mulheres revelaram que eu havia passado 25 anos da minha vida reproduzindo a narrativa dos tais viajantes e exploradores, reduzindo a mangaba ao “melhor suco do mundo”, a “coisa boa de comer”.


Em 2007, aconteceu o I Encontro das Catadoras de Mangaba de Sergipe, promovido por instituições públicas. “Nós nunca fomos ouvidas”, disse uma catadora de mangaba presente no Encontro. Ela estava feliz em se reconhecer nas outras mulheres, mas isso por si só não era suficiente para sanar as opressões associadas às perdas dos seus territórios para atividades de maior interesse do capital. Era preciso que pessoas pertencentes a grupos privilegiados, no primeiro momento, representantes do poder público, tomassem consciência e se juntassem a elas para combater tais opressões.


Desde então, as catadoras de mangaba de Sergipe estão organizadas em associações e no Movimento das Catadoras de Mangaba, têm representação nas diferentes Comissões e Comitês nacionais que visam à proteção de comunidades e povos tradicionais, participam de eventos no Brasil e no exterior, são convidadas frequentemente a contar suas histórias nas diferentes mídias, o que tem ampliado a visibilidade de suas lutas e reivindicações. “Até nome de ladrona a gente leva”, “Se ninguém plantou, é de Deus. Se é de Deus, não tem dono”, com estas falas, as catadoras de mangaba questionam as cercas, físicas e simbólicas, levantadas em seus territórios por supostos proprietários de terra.


Em que pese as conquistas das catadoras de mangaba nas últimas décadas, especialmente no campo político, houve uma redução das áreas naturais de ocorrência de mangabeiras de 10.456 há (29,6%) no período de 2010 a 2016, em Sergipe. Em parte das áreas restantes, as catadoras de mangaba têm acesso às plantas proibido ou condicionado a regras impostas pelos proprietários (compra dos frutos com pagamento em dinheiro ou com parte dos frutos coletado, ou arrendamento da terra). No caso de descumprimento das regras, muitas vezes, têm suas vidas ameaçadas por homens armados e cachorros treinados para afastar “invasoras”.


Recentemente, recebi uma demanda de uma liderança das catadoras de mangaba para valorar uma planta de mangaba, para fins indenizatórios devido a desmatamento para construção de um conjunto habitacional. Além de parâmetros relacionados diretamente ao consumo, era necessário acrescentar os valores relacionados aos aspectos socioculturais da atividade extrativista e às funções ecológicas das plantas. Mesmo com o apoio imprescindível de uma equipe interdisciplinar, cheguei à conclusão que seria impossível definir o valor de uma mangabeira em apenas 7 dias, dentro de muros institucionais. Seria preciso ouvir as mulheres para entender a mangaba muito além de “coisa boa de comer”, remetendo ao título deste artigo.


Na tentativa de atender à demanda, entrei em contato com uma catadora de mangaba para saber o valor de 1 litro de leite (látex) da mangabeira, muito procurado para fins medicinais. “Me ligaram de fora [outro Estado] e ofereceram 1 salário mínimo por 1 litro de leite. A pessoa compraria a cada 15 dias. Não aceitei, não faria isso com as mangabeiras, pois teria o dinheiro hoje, e amanhã? Maltrata muito a planta”. Também, lembrei da fala de outra catadora de mangaba que, quando perguntada sobre o significado da mangaba para ela, narrou: “Derrubar um pé de mangaba é o mesmo arrancar um braço meu. Eu amo as mangabeiras, são lindas. Mangabeira é minha vida!”.


Referências:

RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento, 2017. 112 p. (Feminismos Plurais).

RODRIGUES, R. F. de A.; SILVA JUNIOR, J. F. da; MOTA, D. M. da; PEREIRA, E. O.; SCHMITZ, H. Mapa do extrativismo da mangaba em Sergipe: situação atual e perspectivas. Brasília, DF: Embrapa, 2017. 55 p.

SILVA JUNIOR, J. F. da; MOTA, D. M. da; SCHMITZ, H. No rastro da mangabeira. In: MOTA, D. M. da; SILVA JUNIOR, J. F. da; SCHMITZ, H.; RODRIGUES, R. F. de A. (Ed.). A mangabeira, as catadoras, o extrativismo. Belém, PA: Embrapa Amazônia Oriental; Aracaju: Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2011. p. 45-76.



* Raquel Fernandes é comunicóloga, analista da Embrapa Tabuleiros Costeiros, mestre em Agroecossistemas e doutoranda na EACH, Escola de Artes Ciências e Humanidades no Promusp, Programa de Pós-Graduação - Mudança Social e Participação Política na Universidade de São Paulo (USP).

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