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  • Foto do escritorAndré Sena

José Murilo de Carvalho: a formação das almas.

Toronto, 03 de setembro de 2023.

André Sena*


Conheci José Murilo de Carvalho quando trabalhava na então Maison de France, no Rio de Janeiro, há quase 25 anos atrás. Eu fazia parte de uma equipe de bibliotecários de araque (nenhum de nós tinha de fato qualquer formação universitária em biblioteconomia!) cujo objetivo era não apenas preservar um acervo de quase 30 mil livros abrigados na Mediateca do Consulado Geral da França no Rio de Janeiro, como também de promover o pensamento francês no Brasil, trazendo autores de Paris e outros grandes centros para falar ao público brasileiro sobre suas obras. Foram 12 anos de intensas atividades das quais sinto imensas saudades.


José Murilo de Carvalho

Crédito da Imagem: Valor Econômico.


Além disso, tínhamos também o papel de estabelecer cooperações com outras instituições francesas no Brasil, especialmente com a Aliança Francesa, coordenada no Rio de Janeiro, pelo então professor Bernard Seignout, que havia convidado o escritor francês Jean Soublin para vir ao Brasil, a fim de apresentar seu mais novo livro em um de nossos auditórios. Soublin acabava de lançar na França, com tradução simultânea para o português, um romance histórico acerca do Imperador D. Pedro II, conjugando traços biográficos da vida do monarca brasileiro com elementos essencialmente ficcionais.


A “biografia” escrita por Jean Soublin Je suis l’Empereur du Brésil assumia em português o grandiloquente título D. Pedro II, o defensor perpétuo do Brasil. Memórias imaginárias do último Imperador, disponível então para o público brasileiro pela editora Paz e Terra. Bernard Seignout perguntou a nossa equipe, se conhecíamos algum intelectual brasileiro que pudéssemos convidar para sentar-se à mesa ao lado de Jean Soublin, e dialogar com ele em uma conferência sobre o livro. Quase que em uníssono dissemos: José Murilo de Carvalho, na esperança de que ele aceitasse o convite. Aceitou de imediato, e ainda me recordo de como Soublin ficou perplexo diante da sua inteligência e capacidade de reflexão sobre o livro que acabava de lançar.



Sala de leitura da Maison de France.

Crédito da imagem: Biblioo.


O conjunto da obra de José Murilo de Carvalho revela uma qualidade rara em historiadores (embora ele fosse de fato um cientista político), qual seja, a capacidade de escrever seus textos na corda bamba entre a Academia e o grande público. Não era um autor de pop history, mas também não se podia diagnosticar nele a pedantocracia baixarelesca (parafraseando Monteiro Lobato) que caracteriza muitos trabalhos da historiografia brasileira, incapazes de cativar leitores que não sejam rigorosamente iniciados nas torres de marfim dos departamentos universitários. José Murilo ao mesmo tempo escrevia para poucos e para todos, o que faz dele um intelectual brasileiro surpreendente e incontornável.


Quando lemos uma de suas obras talvez menos famosas, como Pontos e Bordados: Escritos de História e Política, isso se evidencia de forma radical. Ali, José Murilo busca mais do que simplesmente nos apresentar traços essenciais de uma possível história geral brasileira. Ele deixa claro sua intenção de nos explicá-la, intencionalmente desejando, como resultado da leitura, o nosso entendimento sobre os processos históricos que nos levaram a ser quem somos enquanto sociedade. O livro foi fundamentalmente escrito por ele com o objetivo de nos provocar. Ainda me recordo do encantamento de meus alunos com o capítulo O Estado descobre o Povo, abordando aspectos da Era Vargas e da confecção de novas relações e pactos de poder no Brasil.


Me lembro que durante a sessão de perguntas e respostas na conferência de Jean Soublin, alguém do público pediu que José Murilo estabelecesse algum tipo de correlação entre o livro do escritor francês e uma obra de sua própria autoria, A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. José Murilo então comentou por alguns minutos acerca deste, que no meu entender, é um de seus livros mais saborosos. Em “A Formação das Almas”, José Murilo de Carvalho aborda o imenso esforço político e ideológico que a jovem república brasileira de 1889 fez (segundo ele beirando a inutilidade) para legitimar no imaginário popular símbolos e representações do novo regime, que depusera D. Pedro II com o golpe militar de 15 de novembro.


Combinando fatos pitorescos (como a composição de uma Marselhesa brasileira em uma sessão espírita no bairro da Glória, ditada pelo suposto espectro do próprio Rouget de Lisle) com questões históricas de grande importância (como o papel do Positivismo, especialmente comtiano, na formação do ideário republicano no Brasil) José Murilo de Carvalho nos encaminha como leitores por uma viagem entre símbolos e representações do poder, entre bandeiras e monumentos do Rio de Janeiro, passado de corte do Império à capital republicana. O material iconográfico que vemos em “A Formação das Almas” apenas enriquece toda a argumentação que atravessa as suas páginas, lembrando-nos da obra de um outro autor francês, Raoul Girardet, que discute, como faz o nosso historiador brasileiro, a formação de mitos e mitologias políticas, criadas muitas vezes ex nihilo com a finalidade de conferir legitimidade estética ao mando e a governança.


A última vez que vi pessoalmente José Murilo de Carvalho foi quando apresentei algumas reflexões minhas no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no Rio, sobre a trajetória diplomática de Francisco Inácio de Carvalho Moreira, o Barão de Penedo, talvez um dos maiores diplomatas de carreira brasileiros de todos os tempos. O autor de “A Formação das Almas” compareceu para ouvir-me e, confirmando seu estilo ao mesmo tempo erudito e apaixonado por curiosidades históricas, aproximou-se de mim antes que eu começasse e perguntou: “você vai falar sobre o cozinheiro do Barão, não vai?!”. Intimidado com a presença de um intelectual a quem admirava já por tantos anos, calcei as sandálias da humildade e respondi: “não preparei nada nesse sentido, Mestre, mas fique à vontade para interromper minha fala e contribuir com suas ideias”. Ao que ele respondeu: “Não. Hoje vim apenas para ouvi-lo.”


Eu não tinha então (e continuo não tendo) a capacidade que José Murilo alimentou durante toda a sua vida de intelectual público, de produzir em suas obras, aulas e palestras, o complexo arranjo entre curiosidades da petite histoire e considerações históricas de primeira grandeza. Portanto, não me foi possível (como teria perfeitamente sido para ele) estabelecer as necessárias relações entre o papel diplomático de Carvalho Moreira, que atuou na Inglaterra em defesa dos interesses brasileiros em momentos decisivos da história do Império do Brasil, que também liderou a missão brasileira ao Vaticano em pleno estremecimento entre o Imperador brasileiro e o Papa Pio IX, e a lacração de Penedo ao contratar o cozinheiro-chefe do próprio Czar russo para seu rol de funcionários da embaixada brasileira na Corte de St. James, um dos mais importantes centros de tomada de decisão do então Concerto Europeu.


É, portanto, com tristeza e ao mesmo tempo reverência que escrevo esse breve ensaio sobre José Murilo, que nos deixa e ao mesmo tempo lega um conjunto historiográfico, que não apenas inspirará novas gerações de historiadores, como também irá tornar-se muito em breve um objeto de pesquisa per se, dada a importância de seus escritos sobre um país tão complexo e paradoxal como o nosso. Viva José Murilo de Carvalho.


REFERÊNCIAS:

CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: O imaginário da República no Brasil. Ed. Companhia das Letras, 2023.

_________________________ Pontos e Bordados: escritos de história política. Ed. Topbooks, 2021.

SOUBLIN, Jean. D. Pedro II, o defensor perpétuo do Brasil. Memórias imaginárias do último Imperador. Ed. Paz e Terra, 2008.

GIRARDET, Raoul. Mitos e Mitologias Políticas. Ed. Companhia das Letras, 2019.


*André Sena é historiador (UERJ).



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1 Comment


mbbraggio
Sep 05, 2023

Conheci José Murilo de Carvalho em uma palestra sobre ciência política em Stanford, onde fez seu douorado e era professor visitante. Naquela época (1988) eu era um jovem estudante de economia na universidade de Michigan, e eventualmente ia assistir palestras em outras universidades. Após a palestra, conversamos por uns 20 minutos. Voltamos a nos encontrar umas três ou quatro vezes, em eventos acadêmicos. Era um interlocutor inteligente, sagaz e sempre trazia algo que me fazia refletir. Certa vez, estávamos conversando sobre a construção da cidadania no Brasil, e me lembro até hoje do que ouvi: "O cidadão vota racionalmente, mas preso ao mundo da necessidade. É um voto que tem limitações decorrentes da desigualdade social. Há uma questão de dependência…

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