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Cinema e cineclube

Guarulhos, 15 de julho de 2021.

Luzimar Soares*



Desde que comecei a escrever para este canal, tenho trazido temas que, em seu fechamento, trago para falar da cidade onde moro. Hoje, não farei diferente, porém, antes de começar a falar especificamente sobre cinema, que é o objetivo dessa escrita, gostaria de dizer que a cidade de Guarulhos é um município da Grande São Paulo, mas é muito mais do que isso.



Crédito da imagem: Facebook Cinecube Incinerante



O que me levou a escrever esse texto iniciando por falar da cidade foi uma conversa casual. Quando disse que moro em Guarulhos ontem, ouvi do meu interlocutor: é quase uma cidade, né? Pensei: “nossa, realmente, pessoas que residem em São Paulo, cidade vizinha, ainda acreditam que Guarulhos é um bairro, ou talvez, apenas uma cidade dormitório”. Guarulhos é uma cidade gigante, com aproximadamente um milhão e quatrocentos mil habitantes, tem uma economia pulsante, mas não falarei sobre isso.


A urbe Guarulhos é heterogênea, sua cultura é imensa. Aqui, há os mais diversos coletivos ligados à cultura, desde os que estão mais no centro até os periféricos: bandas, companhias de teatros, academias de dança, teatros, cinemas, etc... Então, no meio dessa cena pujante e vívida da cultura, é preciso falar sobre a cidade. Por isso, ainda me deterei em mais alguns textos para tratar desse local.


A sétima arte não é exatamente o objeto, mas os cineclubes, nascidos na França e aportados aqui no inicio do século XX, mais precisamente em 1928, intitulado Chaplin Club. Este cineclube, inclusive, editou uma revista chamada Fan. Estudiosos apontam para uma característica desse cineclube: tratava-se de intelectuais e, por conseguinte, tinha um caráter mais fechado.


Os cineclubes sofreram muitas perseguições governamentais no país e, durante um período considerável, ficaram sob a proteção da igreja católica. Esse acolhimento trazia, a reboque, uma situação dicotômica. Se, por um lado, era possível manter os cineclubes, por outro, era necessário seguir os padrões rígidos e conservadores da instituição.


Os regimes totalitários vividos no nosso país trouxeram muitos prejuízos culturais e, obviamente, o cinema não ficou de fora. Ainda hoje, comumente se ouve que o cinema nacional não é bom. Será mesmo? Os cineclubistas discordam dessa afirmativa.


A redemocratização que ocorreu na década de 1980 não significou uma preocupação com a disseminação da cultura e com o incentivo as produções nacionais. Somente nos anos 2000, quando a Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura fez uma chamada, é que os cineclubes se rearticularam.


Há que se destacar que a principal característica da atividade cineclubista é a discussão que se faz após a exibição do filme. Obviamente, não se pode encaixotar a atividade cineclubista e dizer que todos seguem uma estrutura rígida com começo meio e fim. Todavia, se não há discussão do filme após a exibição, não é cineclube.


Esta é a estrutura do Cineclube Incinerante, nascido em 2015. Exibe filmes nos mais diversos espaços, aglutina pessoas, coletivos e produz as Mostras Guarulhense de Cinema. Já com a sexta edição exibida, é conduzido por pessoas que, acima de tudo, amam o cinema.


A principal proposta do Incinerante é ser resistência. Resistência à elitização das salas de cinema, as quais grande parte da população não tem como acessar. A cidade de Guarulhos, assim como as demais grandes urbes, produz segregação social. Em 2017, uma criança negra foi impedida de acessar um Shopping considerado de elite porque estava sem chinelos. Se sequer pode adentrar o local, qual a chance de essa criança assistir a uma sessão de cinema?


Os cinemas de rua, basicamente, foram extintos. Hoje, na grande maioria das localidades, as salas estão inseridas nos grandes prédios que abrigam os Shoppings Centers. Este advento, por si só, elitiza e afasta aqueles de menor poder aquisitivo.


Mesmo nos anos de 2020̸2021, o Incinerante continuou produzindo, os coletivos criaram seus filmes e a mostra de cinema aconteceu. Aglutinar amantes do cinema e discutir os filmes são atividades que a pandemia não parou e, para estes cineclubistas, o cinema tem algo parecido com o que Walter Benjamim descreve da função do cinema:


O cinema serve para exercitar o homem naquelas apercepções e reações condicionadas pelo trato com um aparato, cujo papel em sua vida cresce quase diariamente. O trato com esse aparato ensina-o, ao mesmo tempo, que a escravidão a seu serviço só dará lugar à liberdade por meio dele quando a constituição da humanidade tiver se adequado às novas forças produtivas que a segunda técnica descerrou.


A “incinerância”, ou seja, a mobilidade dos encontros, quando estes se dão fisicamente, permite que pessoas, que mesmo não tendo meios de locomoção, participem dos debates e se percebam enquanto ser social, que conteste seu papel na sociedade.


Há, ainda, que salientar algo muito importante, o cineclube Incinerante, não apenas exibe e discute os filmes, ele também produz. Produz cinema, incentiva produções, aglutina pessoas que produzem. Além, disso, seus membros dão cursos sobre cinema; exibiram, ao longo dos últimos meses, encontros e mantiveram acesa a discussão sobre arte.


A cultura é um bem que deveria ser universal, mas quando se elitizam os locais, muitos são deixados de fora. As salas de cinema, especialmente, como estão sendo projetadas na atualidade, não mais abrigam aqueles que tem menos poder aquisitivo. Os cineclubes tem um papel importantíssimo de manter o cinema acessível a todos. Os Incinerantes estão aí, em Guarulhos, levando o cinema àqueles que querem assistir e discutir um ou muitos filmes. Para aqueles que se interessarem sobre o assunto, o Edson Kiyoshi Murata conversou sobre cinema e, também, sobre o Cineclube com o Sarau da Casa Azul. Faço um convite a você leitor: sua cidade tem cineclube? Se tiver, fala para nós como é.


* Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).


Referências:


BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouk, 2012, p. 45.


BUTRUCE, Débora. “Cineclubismo no Brasil: Esboço de uma história” IN: Acervo, Rio de Janeiro, v. 16, no 1, p. 117-124, jan/jun 2003 - pág. 119.


<https://podcasts.apple.com/us/podcast/epis%C3%B3dio-21-cinema-como-resist%C3%AAncia-edson-kiyoshi-murata/id1519591615?i=1000496522066>


<https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/crianca-negra-e-impedida-de-entrar-em-shopping-de-luxo-em-guarulhos.ghtml>


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