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A sedução de um acervo: os 185 anos do IHGB

Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2023.

Luciene Carris*


Há pouco tempo, tive o privilégio de participar de um evento realizado no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que integra a programação acadêmica realizada às quartas-feiras promovido pela Comissão de Estudos e Pesquisas Históricas (CEPHAS). Após o período de restrições causado pela pandemia do coronavírus, o Instituto não só restabeleceu suas atividades acadêmicas presenciais, mas também realizou uma significativa transição para se adequar à era digital, transmitindo regularmente suas sessões por meio de seu canal no YouTube. Essa prática foi inicialmente adotada durante o período de distanciamento social e continua a ser uma parte essencial de suas atividades. Pouco a pouco retoma a abertura para pesquisa e os encontros retomam o público presencial de outrora. Assim, a instituição está se recuperando e seus encontros voltaram a atrair o público como costumavam fazer no passado.


Vou retroceder um pouco, pois refletir sobre o IHGB me traz boas lembranças. Como muitos jovens pesquisadores e pesquisadoras da área de História de diversas universidades do Rio de Janeiro, minha jornada no universo da pesquisa histórica começou na Sala de Pesquisa do 10º andar do edifício localizado na Avenida Augusto Severo, número 8, no bairro da Glória. Foi lá que dei meus primeiros passos como uma jovem pesquisadora, embarcando em um projeto de iniciação científica dedicado ao estudo do Instituto de Cacau da Bahia, orientado pela professora Lúcia Maria Paschoal Guimarães, que se tornaria, posteriormente, orientadora no mestrado e doutorado, e que redigiu importantes trabalhos sobre o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.



Sede do IHGB. Crédito da Imagem: IHGB.


O certo é que aquele projeto fazia parte de uma investigação mais ampla sobre a memória do cacau na Bahia, com foco especial em Ilhéus, tendo como ponto de partida a memória de Raymundo Sá Barreto. Ao longo do tempo, meus interesses iniciais se concentraram na história institucional, no estudo de biografias e na prosopografia. Com o passar dos anos, minha curiosidade se expandiu para abranger outros tópicos e áreas, mas de forma inevitável, a pesquisa histórica sempre manteve uma conexão com o acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Mas naquele momento, ainda engatinhava na pesquisa e aquilo tudo era uma fascinante novidade. José Honório Rodrigues forneceu informações valiosas aos pesquisadores iniciantes na obra A pesquisa histórica no Brasil, conscientizando-os sobre os desafios envolvidos na obtenção e manuseio dos documentos. Nas suas palavras:


A pesquisa histórica é a descoberta cuidadosa, exaustiva e diligente de novos fatos históricos, a busca crítica da documentação que prove existência dos mesmos, permita sua incorporação ao escrito histórico ou a revisão e interpretação nova da História. Ela deve obedecer aos princípios críticos da disciplina, às regras acumuladas pelo equipamento das chamadas ciências auxiliares, em suma, identificar-se com as técnicas do historiador. A descoberta dos fatos, da documentação, e o seu uso correto constituem a pesquisa (Rodrigues, 1978, p. 21).

Aliás, as condições eram bem diferentes, e muitas das facilidades que as tecnologias de hoje proporcionam, como o acesso a bancos de dados digitais ou a digitalização de periódicos e documentos, simplesmente ainda não existiam. Sem dúvida, esses avanços tecnológicos representam um grande facilitador para a pesquisa, principalmente para aqueles que residem distantes de arquivos e bibliotecas físicas. O Salão de Leitura, com suas estantes com a coleção da revista do Instituto e de outras publicações de Institutos Históricos estaduais, juntamente com os computadores disponíveis para consulta, ao lado dos catálogos ainda em ficha, parece um paraíso para um historiador de arquivo. A sensação era de estar diante de um parque de diversões, repleto de tesouros esperando para serem explorados. Pode até parecer um clichê, mas a pesquisa sempre envolveu o misto de curiosidade e desafio. Com certeza, os arquivos e bibliotecas desempenham um papel fundamental na preservação da memória e da documentação histórica. Os arquivos registram as transformações que ocorreram no Brasil ao longo dos séculos, abrangendo mudanças nas instituições, na economia, nas mentalidades e na sociedade como um todo. Desse modo, a trajetória institucional do Instituto se entrelaça com a história do Brasil.



Sala de Leitura. Crédito da Imagem: Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro.


Fundado sob os auspícios de D. Pedro II em 21 de outubro de 1838, o Instituto completará 185 anos em 2023. Sua missão inaugural consistia em coletar, organizar, arquivar e divulgar os documentos essenciais para a elaboração da história do Brasil, focando na aquisição de informações relacionadas à jovem nação, tanto nos arquivos nacionais quanto internacionais. Desse modo, buscava "preservar a cultura nacional, estimular estudos históricos, geográficos e de outras ciências sociais sobre o Brasil e reunir e divulgar documentos relativos à sua formação e identidade, com vistas à preservação da memória nacional”. Seu quadro de membros incluía personalidades proeminentes nos cenários intelectual e político, incluindo o próprio imperador, que participou ativamente de diversas sessões. Portanto, o Instituto manteve sua lealdade ao regime monárquico até sua queda, o que o colocou em um período tumultuado durante a instauração do regime republicano em 1889, mesmo que temporariamente. Situação, aliás, que levou a crise em outras instituições criadas nos Oitocentos.


Sala de Leitura. Crédito da imagem: Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro.


A escassez de recursos financeiros afetou profundamente a instituição, que, embora fosse de natureza privada, contava com o apoio financeiro do monarca. Apesar dos desafios, o Instituto persistiu e encontrou uma solução através da criação de uma nova categoria de membros, os beneméritos, que passaram a financiar a organização. A recuperação ganhou impulso com a presença de José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco, então ministro das Relações Exteriores, que assumiu a presidência da entidade entre 1907 e 1912. Além de D. Pedro II, outro importante patrono durante o período republicano foi Getúlio Vargas, tanto em seu primeiro quanto em seu segundo governo. Desde 1972, a sede do Instituto está localizada em um edifício de 12 andares, situado nas proximidades do Passeio Público e da Praça Paris. Originalmente, quatro andares são ocupados pela instituição, enquanto os restantes são alugados. No entanto, devido à pandemia e à necessidade de distanciamento social, os escritórios ficaram mais vazios e o trabalho remoto, conhecido como home-office, foi implementado. Sem dúvida, o Instituto enfrenta mais um desafio financeiro, assim como muitos outros espaços culturais e históricos dessa natureza. Embora haja planos para revitalizar urbanisticamente, culturalmente, socialmente e economicamente a região central do Rio, a área que abrange o Instituto ainda sofre com a notória degradação.


Com o passar do tempo, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro tem se adaptado às mudanças na sociedade e no cenário acadêmico. Isso é evidente na diversidade de pesquisas realizadas e na inclusão de profissionais de diferentes áreas, como antropólogos e diplomatas, entre outros profissionais, em sua composição. Além disso, é notável uma maior integração com as universidades públicas, como evidenciado pelo ingresso de historiadores formados por essas instituições. O Instituto ainda mantém suas instalações essenciais, que incluem o Arquivo, a Biblioteca, a Mapoteca e o Museu, além das Salas Pedro Calmon e do CEPHAS, bem como o Salão Nobre, que é “decorado com o quadro da ‘Coroação de Pedro II’, de Manuel de Araújo Porto Alegre, de 1842, a cadeira com que o Imperador presidiu 506 sessões do Instituto e o ‘Marco de Cananéia’, pedra com as armas de Portugal, datada do primeiro terço do século XVI”, como constamos na descrição das instalações na sua página oficial.


Dedico este breve texto à professora Lúcia Guimarães, que também celebra seu aniversário no mesmo dia de criação do IHGB.


Referências:

ARAÚJO, Valdei Lopes de. Entrevista com Lúcia Maria Paschoal Guimarães. História da Historiografia, Ouro Preto, n. 03, set. 2009, p. 237-258.

GUIMARÃES, Lúcia Maria Paschoal. Debaixo da imediata proteção imperial: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. São Paulo: Annablume, 2011.

_______ . Da Escola Palatina ao Silogeu: o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: (1889-1938). Rio de Janeiro: Museu da República, 2007.

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Página oficial: https://ihgb.org.br/ihgb/historico.html

RODRIGUES, José Honório Rodrigues. A pesquisa histórica no Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.

ORLANDI, Ana Paula. Guardando a memória e escrevendo a história do Brasil. Revista Pesquisa FAPESP, 02 ago. 2022. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/guardando-a-memoria-e-escrevendo-a-historia-do-brasil/ Acesso em: 14 out. 2023.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


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