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A santa, a casa e o contrassenso


Recentemente visitei a Santa da Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, localizada na rua Santa Luzia. Impossível não observar aquele edifício monumental em estilo neoclássico. É bem verdade que a sua fundação remonta ao século XVI na rua da Misericórdia, no sopé do Morro do Castelo, desaparecido tempos depois na gestão de Carlos Sampaio nas primeiras décadas do século XX. O certo é que o conjunto arquitetônico foi inaugurado em 1852. Com o desenvolvimento da cidade, ocorreram algumas modificações como a necessidade de novas repartições, como o hospício, a criação do Recolhimento das Órfãs e da Casa dos Expostos (onde se rejeitavam as crianças), além da separação do cemitério para atender às novas exigências higiênicas. Não podemos esquecer as epidemias que assolavam à cidade de tempos em tempos. Aliás, até parece que a história se repete com o coronavírus e as suas variantes.


Fachada da Santa Casa de Misericórida. Crédito: Acervo pessoal.


Assim, podemos afirmar que a história da Santa Casa acompanha o desenvolvimento do Rio de Janeiro. Adianto que não estive no local por puro lazer. Permaneci por horas acompanhada de um livro do Ruy Castro, que me entreteu durante um bom tempo. Não aguentei, não consegui dissociar o meu olhar de historiadora, um pouco de flâneur, de caminhante e de pesquisadora da história da cidade. Perambulei.


Munida do meu celular, afinal tem uma câmera ali com alguma qualidade, comecei o meu registro imagético dos monumentos, dos corredores e de qualquer outro detalhe que captasse a minha atenção. Algumas pessoas me indagaram se estava ali perdida ou queria alguma informação. Respondi resumidamente que estava aguardando uma pessoa da minha família. Para um outro desavisado curioso e atento ao meu estranho comportamento comentei que era historiadora, talvez por provocação esperava algum comentário, alguma reciprocidade. Ao final, descobri que era um funcionário, e até ocorreu um breve diálogo afável. Ultimamente, quando comento que sou historiadora alguns me “pedem” jocosamente para “contar uma história”, outros me olham com algum grau de desprezo ou até mesmo com certa piedade. Também há quem considere um ato de coragem ser historiador ou historiadora quando paira um clima de obscurantismo e de autoritarismo.


Bom, ele me sugeriu visitar o Museu da Farmácia ou a estátua de D. Pedro II localizada no segundo andar. Infelizmente não foi possível, assim como seu arquivo inacessível temporariamente. Até tentei argumentar com alguns dos seguranças, mas não aconteceu, afinal estamos numa grave pandemia ainda. Visitei o Memorial do Guido Schäffer, inaugurado em 2019, voltado para a divulgação de sua vida e obra. Trata-se de uma exposição permanente deste que se dedicou à medicina, ao surf e à fé católica, cuja história foi abruptamente abreviada nas ondas da praia do Recreio dos Bandeirantes. Ali foi uma experiência interessante para quem não professa de alguma religião como eu, algo quase que místico. Compreendi a importância do memorial para o seu processo de beatificação e canonização em Roma. Realmente, me entristece jovens partirem assim tão cedo.


No térreo ainda é possível contemplar alguns objetos técnico-científicos espalhados e uma coleção de retratos dos seus beneméritos e provedores, que segue o modelo da organização da matriz portuguesa, cuja origem remonta à irmandade de devoção à Nossa Senhora da Misericórdia criada em 1498. A exposição de retratos e de estátuas se repete entre outras Santas Casas brasileiras, e pretende valorizar àqueles indivíduos (majoritariamente do sexo masculino) que tiveram algum destaque no cenário político nacional. Em síntese, se articulava como um lugar de memória, como “(...) um espaço de reconhecimento e valorização dos indivíduos que delas participaram, ajudando a construir uma memória visual das elites, como parte de um conjunto de elementos simbólicos que representam a história de uma nação” (BILAC, 2020, p. 268). Diferente dos estudos historiográficos que têm valorizado personagens até então ignorados, desprezados ou excluídos da nossa história.


Para muitos que atravessam seus corredores procurando soluções para as suas moléstias, pouco importa a grandiosidade monumental ou quem foi pintado naqueles retratos. E, na verdade, pouco importa. Por outro lado, meu pai no auge da sua simplicidade me indagou se havia mão de obra escrava na construção do edifício, pois “alguém ali comentou” e se “havia escravos enterrados por lá”. Achou um contrassenso a falta de cuidado com a manutenção do prédio, e os detalhes dos azulejos portugueses não passaram despercebido no seu olhar. Talvez haja alguma influência minha em tais comentários.


A espera foi longa, apesar de alguns percalços que dariam uma crônica. O hospital é uma referência em meio ao caos da saúde no nosso país, até estreitei alguns vínculos com um ou outro profissional da saúde. Talvez ainda valha a pena ser profissional da história. Às vezes pesa. Como anunciou o historiador francês Jacques Le Goff no prefácio da obra de Marc Bloch, que continua uma leitura obrigatória a ser lida e relida: “o historiador não pode ser um sedentário, um burocrata da história, deve ser um andarilho fiel a seu dever de exploração e de aventura” (BLOCH, 2001, p. 21). E a minha mãe passa bem.


*Luciene Carris é historiadora (UERJ).


Referências:

BILAC, Maria Beatriz B. A coleção de retratos dos beneméritos da irmandade da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro/Brasil: um estudo do acervo. In: NETO, Maria João; MALTA, Marize (eds.). Coleções de arte de Portugal e Brasil nos séculos XIX e XX. Portugal: Caleidoscópio, 2020.

BLOCH, Marc. Apologia da história ou ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

GANDELMAN, Luciana Mendes. A Santa Casa da Misericórdia nos séculos XVI a XIX. Manguinhos, Hist. Ciênc. Saúde, v. VIII (3). Disponível em: https://www.scielo.br/j/hcsm/a/CX5BXnKtBYtVvCXVrZjZMzP/?format=pdf&lang=pt Acesso em: 30 nov. 2021.


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