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  • Bruno Filippo

A Ditadura nunca foi de esquerda

Rio de Janeiro, 01 de julho de 2022.

Bruno Filippo*


Multifacetadas, as sociedades em rede engendram novos atores, que passam a acumular capital para interferir de modo influente no debate público. Uma think tank brasileiro divulgou série de vídeos em que busca visão paralela à dominante no que toca à história da Ditadura Militar Brasileira, que durou 21 anos, entre 1964 e 1985. Os trabalhos caracterizam o regime militar como situado à esquerda do espectro político, pela visão de planejamento no qual cabia ao Estado o papel de indutor do desenvolvimento econômico.


Crédito: Wix.


Na verdade, para além de classificar como esquerdista a ditadura brasileira, os vídeos acabam servindo para delimitar o espaço da direita liberal, expurgando-a do mal-estar de justificar-se por que apoiou a ruptura do regime democrático-liberal, de longa tradição no mundo ocidental, que ela procura imitar. A aproximação entre pensamento estatista e ditadura militar tem um propósito restaurador, no sentido de restaurar a verdade do fatos, e regenerador, posto que os liberais, conquanto tenham participado do governo dos generais, podem sair dele de mãos limpas.


A Ditadura Militar Brasileira não foi de esquerda, nem teve viés esquerdizante, como lembra Francisco Bosco no recém-lançado O diálogo possível – Por uma reconstrução do debate público brasileiro:


(...) o uso do Estado para subsidiar o desenvolvimento esteve mais a serviço do nacionalismo do que do combate à desigualdades. Depois, porque só a Direita Liberal é antidesenvolvimentista: a conservadora não hesita em usar o Estado avançar as suas políticas, de qualquer ordem.[1]


Francisco Bosco prossegue dizendo que a base social dos militares era conservadora:


Quanto à sua ideologia e base social, não há nenhuma dúvida. Conquanto os militares não sejam um partido político, logo de posição ideológica explícita, sua base social nuclear era conservadora (...), e seus inimigos, tanto na política institucional (o governo Jango, o PCB, Brizola, os parlamentares cassados) quanto na sociedade civil (artistas, intelectuais e militantes), eram, em sua grande maioria, de esquerda. [2]



A peça retórica revisionista esconde um fato histórico – o de que o crescimento do Brasil ao longo de cinco décadas do século XX deu-se em governos variados. Entre 1930 e 1980 o Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo, e o nome que se deu a essa etapa da história econômica brasileira é nacional-desenvolvimentismo. Por essa classificação entende-se um conjunto de políticas econômicas baseadas na substituição de importações e voltadas para a industrialização, para o aumento das taxas de renda e para a elevação do crescimento, sendo o estado a instância planejadora. Desdobra-se longamente no tempo, da chegada de Vargas ao poder até o inicio dos anos 1980, sob o comando dos militares. Passou pelo Estado Novo, pelo governo liberal de Dutra, pelo Vargas democrata, por JK, por Jânio, por João Goulart e, por fim, pelo ciclo de generais presidentes da Ditadura Militar.


O escopo tão alargado, seja no tempo, seja nos diversos tipos de regime, deveria servir como anteparo às tentativas de generalização. Por si só, o nacional-desenvolvimentismo não pressupõe alinhamento à esquerda e à direita; ele pode ser, como política econômica, capturado e manipulado por ambas as vertentes políticas.

[1]Francisco Bosco, O diálogo possível: Por uma reconstrução do debate público brasileiro. São Paulo: Todavia, 2022, p. 83. [2] Idem, pg. 84.


*Bruno Filippo é Jornalista, sociólogo, professor universitário nas áreas de Teoria Política, História, Relações Internacionais e Comunicação Social. É bacharel em Ciências Sociais e Jornalismo e mestre em Teatro. Publicou "Por quem as rosas falam - E outros ensaios sobre samba e carnaval", adotado em diversas universidades dos Estados Unidos e do Canadá. Atualmente, prepara o lançamento de "Que rei sou eu? - Política e novela no Brasil".

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