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A COR DA SOLIDÃO: PERSPECTIVAS DE CORPOS NEGROS NA ACADEMIA E PARA ALÉM DELA

Atualizado: 2 de jan.

Rio Grande do Norte, 01 de janeiro de 2023.

Diorge Santos*


Aqui falarei sobre cor, sobre ser preto, sobre muitas vezes ser só num espaço acadêmico, que deveria acolher e não segregar. Talvez hoje pareça um discurso “meio clichê”, mas é algo que carregamos desde sempre, literalmente na pele. Também falarei sobre dor, sobre afeto e acolhimento numa nova espécie de quilombo que se forma.


Nos Estados Unidos em 1948, o estudante George W. McLaurin foi o primeiro afro-americano a frequentar a Universidade de Oklahoma, após várias tentativas via ordem judicial, para ter acesso à instituição, todavia, o estudante foi recharçado e obviamente não se “misturava” aos demais estudantes de sua turma por ser negro, permanecendo num canto da sala distante dos demais.



A coragem de George: o primeiro aluno negro da Universidade de Oklahoma, 1948. Crédito da Imagem: Iconografia da História, 04 nov. 2020. Disponível em: https://iconografiadahistoria.com.br/2020/11/04/a-coragem-de-george-o-primeiro-aluno-negro-da-universidade-de-oklahoma-1948/ Acesso em: 31 dez. 2022.



Isso me faz rememorar alguns espaços por onde transito e muitas vezes sou invisibilizado ou simplesmente sou notado e perseguido. Memórias que me trazem dor, que me oprimem, que são retratos de uma colonização perversa, que outrora fez meus antepassados de escravos, que hoje me persegue nos becos e vielas da favela, nas lojas do shopping, nos restaurantes, nas ruas da cidade que vivo, na escola que estudei e pasmem, dentro da universidade também. Certamente não entrei com ação judicial, nem sentei separadamente dos “colegas” de turma, como o George W. McLaurin, porém, os olhares entrecruzados me perpassavam o tempo todo. Durante quatro anos e meio na graduação, tive apenas duas professoras pretas.


No período do Mestrado, em minha turma só haviam duas pessoas negras contando comigo, e não tive nenhum/a professor/professora preto/preta, e o que isso quer dizer? Que ainda existem várias formas imbricadas pelo sistema de estabelecer o racismo em analogia à infraestrutura do espaço, que os corpos negros dentro desses espaços ainda são subalternizados, de forma intelectual e também política através de moldes coloniais ou subjetivos.


É supreendente e ao mesmo tempo revoltante esse tipo de atitude comportamental, pois, desde 2003, temos a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e africana na educação básica através da Lei 10.639/03, por isso, corroboro com a ideia de Pereira (2010), quando o mesmo afirma que:


É preciso educar na cidadania, na participação e no respeito desde o agora, não importa em que etapa da vida estejam os estudantes, não importa se são da educação infantil ou do ensino universitário; sempre é tempo de começar a estabelecer relações humanas e sociais igualitárias (PEREIRA, 2010, p.11).



Ao trazer essa reflexão para o texto, destacamos a categoria identidade, onde temos Hall (2003) como um grande defensor da hegemonia da cultura e da linguagem como estrutura de poder. Nessa perspectiva, sobre a identidade e o reconhecimento em ser negro/preto destacando a necessidade de ações concretas dentro da escola/universidade, local este, privilegiado e no qual o estudante vivencia experiências socializadoras fora do ambiente familiar, então, nesse bojo de situações, nos fica a importância das lutas, sobretudo raciais, no sentido de valorização, respeito e pertencimento dentro de uma sociedade, que por vezes nos renega pela cor de nossa pele.


Essa relação de poder estabelecida ainda se pauta em modelos eurocentristas e numa hegemonia branca; Sobre essa questão, Fanon (2008) em seu livro: Peles negras, máscaras brancas, nos apresenta seu objeto de estudo, através de uma análise psicológica, que é a de entender a relação entre o homem negro e o homem branco. Estabelece que o negro tem como objetivo e destino, ser branco e o branco se dedica a se apossar da condição de ser humano.


Essa ideia retoma a questão da invisibilidade e da perseguição, chegando ao animalesco, quando muitos negros são tratados como selvagens, como animais.


E enquanto pessoa negra, chega o momento que cansa está argumentando sempre o mais do mesmo, até porque muitas pessoas não entendem e/ou não vivenciam o racismo como eu. Porque quando eu digo que sofri um ato racista, alguns acham um absurdo, mas, não há mobilização efetiva alguma para uma alteração dessa atitude comportamental, é como se eu, a vítima, estivesse tendo uma percepção, uma concepção errada sobre o racismo. E isso acontece, pois, para muitas pessoas, nunca é suficientemente racista algumas ações, falas, “brincadeiras” e afirmações.


E eu lamento as poucas vezes que essas pessoas tenham visto, ou “aceitado” que eu sofri um ato de racismo, é uma pena que poucas vezes eu tenha sido apoiado ou consolado em relação a isso; e mais pena ainda é saber que não foram tão poucas vezes assim que eu sofri essa dor e na maioria delas, sozinho. Todavia, eu não me calo, eu transformo essa dor em arte, eu escrevo, eu danço, eu permaneço na universidade ocupando um espaço que outrora me fora negado.


É como se declarar negro e não se sentir representado nesse espaço acadêmico que deveria te dar vez e voz, no entanto, estamos fazendo nosso quilombo, estamos num lugar que pra muitos ainda não nos cabe, é como se estivéssemos no lugar errado. Eu procuro me fazer ser notado, eu hoje me aquilombo junto aos meus e nos fortalecemos. Nessas encruzilhadas nos encontramos, nos vemos no outro e trocamos afeto, dialogamos, sentimos a dor do outro, as cicatrizes e buscamos ser cura em meio a tanto preconceito, a tanto racismo estrutural, cultural, individual, etc...


Para finalizar, quero salientar a importância desses corpos negros na academia ou em qualquer outro espaço que os mesmos queiram ocupar. Hoje, o que não cabe é não sermos vistos em nossa integralidade como sujeitos de direitos, intelectuais, artistas, etc... Que venham mais Solano Trindade, mais Ruth de Souza, mais Kabengele Munanga, mais Lázaro Ramos, mais Elza Soares, mais Lélia Gonzalez, mais Sérgio Vidal, mais Elisa Lucinda, mais Abdias do Nascimento, entre tantos outros e outras que representam a população negra.


REFERÊNCIAS:


BRASIL. Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília, DF, 2003. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2020.

FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Editora da Universidade Federal da Bahia, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2003.

________. (2003). Que "negro" é esse na cultura popular negra? (L. Sovik,

Ed.) Lugar comum, 147-159. Disponível em:

<http://uninomade.net/wpcontent/files_mf/112410120245Que%20negro%20%C3%A9%20na%20cultura%20popular%20negra%20-0Stuart%20hall.pdf&gt>

Acesso em 01 dez. 2022.

OuDaily. Disponível em: <http://www.oudaily.com/news/george-mclaurin-the-life-and-legacy-of-the-first-black-student-at-ou/article_26a2dda0-2df2-11e7-a201-0f8757bddcc7.html> Acesso em 01 dez. 2022.

PEREIRA, Lucicléia Aparecida dos Santos. Os desafios enfrentados pelos professores na atualidade. Guarabira, 2010. Monografia de Especialização em Fundamentos da Educação.


*Diorge Santos é Pedagogo formado pela UFPE; Mestre em Educação pela UFRN; Doutorando em Antropologia na UFPE; Professor das redes municipais do Recife e Ipojuca, atualmente ocupando o cargo de Apoio Pedagógico; Artista da Dança e apreciador das Artes. Tem interesse em pesquisas sobre corporeidade, infância, dança, teatro e performance.


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