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  • Foto do escritorBárbara Pereira da Cunha

2022: um filme argentino

Buenos Aires, 02 de junho de 2023

Bárbara Pereira da Cunha*


Quantas vidas cabem em um ano? Me encaminhando para o final do primeiro semestre de 2023, posso dizer que, para mim, 2022 definitivamente foi o ano da morte. Compreendi que, para que haja vida, há de se encarar a carta do tarot, que tantos desavisados podem temer: la muerte. A carta que, como de costume, traz a figura de uma caveira, simboliza um novo ciclo. Ela comunica que, para que haja vida, há fim. Às vezes, no nos queda otra: há que mergulhar sem saber ao certo a profundidade da piscina. Sendo assim, decidi costurar minhas pesquisas e escritas do doutorado com a experiência de viver em Buenos Aires, esse foi meu salto: investir na possibilidade de escrever sobre história e cinema argentino… na Argentina! Vim correr atrás de fontes, entrevistas com diretores e encontrar livros necessários. Enfim, sou uma mera mortal - com o coração meio portenho, mas sempre com vibração carioca -, tentando realizar um sonho.


Ao observar questões coletivas, me deparo com uma Copa do Mundo, em um calendário inusitado, no mesmo ano: começando em Novembro e atravessando Dezembro. O primeiro mundial de futebol masculino que ocorreu em um país árabe. Pode soar um tanto aleatório trazer esse assunto após mencionar uma carta de tarot, mas é que eu gosto da ideia de que compreendi um pouco mais sobre finais e inícios de ciclos, quando a Argentina conquistou seu terceiro campeonato mundial. Não tenho como fugir (e nem quero) do que sinto por esse país.


A Argentina venceu a Copa do Mundo de 2022 em um contexto de alta complexidade política, econômica e social. Vi um vídeo que tanto rodou por redes sociais no qual o entrevistador perguntava: você prefere a baixa da inflação ou ganhar a Copa? A resposta foi em massa: vencer o mundial. O que soa "terceiro mundista" demais para algum outro desavisado, expressa a argentinização da pulsão de morte e, não menos importante, de vida: o povo argentino escolheu acreditar (yo elijo creer, inclusive, foi uma frase incansavelmente repetida durante o evento, sobretudo, diante do primeiro jogo dos hermanos: uma derrota para a Arábia Saudita, no dia 22 de Novembro de 2022).


O povo argentino escolheu acreditar que existiam caminhos outros para responder à alta inflacionária. Aqui, explico: não cabe a romantização de um tema que tanto impacta negativamente o povo argentino e, sim, perceber que de fato estamos falando de uma estratégia muy argenta. Se precisamos de mobilização, se precisamos ocupar as ruas, se as próximas eleições batem à nossa porta, não tem jeito: teremos que ser vencedores do mundial. Teremos que vencer e ser mais de 6 milhões pelas ruas de Buenos Aires. Teremos que subir ao obelisco e olhar a cidade desde o topo, tal como os jovens ─ vistos como párias ─ fazem em Pizza, birra, faso (icônico filme argentino de 1998). Afinal, como diz o ditado popular argentino “deus atende em Buenos Aires”... Será que desde o obelisco Ele nos escutará? Quem sabe la mano de Dios, Maradona…


Torcedores argentinos vão até o topo do Obelisco e celebram com a bandeira nacional após a Seleção Argentina vencer a Copa do Mundo, no dia 18 de Dezembro de 2022. Imagem disponível em: < https://elargentinodiario.com.ar/argentina/caba/20/12/2022/bomberos-evacuaron-a-personas-que-habian-ingresado-al-obelisco/> Acesso em: 1 jun. 2023.


Aproveito o momento para convidar oficialmente o cinema dos nossos hermanos para contribuir sobre essa reflexão pré eleições nacionais, carta de tarot, “juguianismos” e futebol. Pensar a cena de um grupo subindo até o topo do Obelisco é ativarmos um poderoso paralelismo cinematográfico, é lembrarmos dos áreas comentados no parágrafo anterior, lançando um luz à “disciplina política da cidade” (SENNET, 1992) de Buenos Aires, exposta como lócus do caos do neoliberalismo. Deus não atende em Buenos Aires - como diz o ditado - por um mero capricho. Tensionando o ditado: não é em qualquer Buenos Aires que Deus atenderia.

Como sempre - escreve Gorelik - a capital de Buenos Aires viu como estranho tudo o que estava fora de seus limites de ‘cidade europeia’ e, portanto, identificou como ‘invasão’; o aparecimento de alguns desses traços de alteridade (pobreza, informalidade, marginalidade). (GORELIK apud AGUILAR, 2015:195)

Aqui, porém, cabem observações. A capital portenha seria o locus neoliberal, como uma metrópole que é atingida pelos efeitos da globalização, bem como sua população é, expondo questões afins entre a cidade argentina e demais grandes cidades pelo mundo. No entanto, é necessário o cuidado de entender que o neoliberalismo posto na Argentina ocorre ao sul do globo, sendo assim, mais desestruturante do que em países ao centro/norte:

(...) Além disso, a ‘nova questão social’; tem sido amplamente tematizada nas sociedades avançadas mais desestruturantes da periferia globalizada, onde os países centrais altamente desenvolvidos, onde os dispositivos de controle público e os mecanismos de regulação social tendem a estar. mais forte, bem como margens mais amplas para a ação política (SVAMPA, 2005: 9-10)

Fiz esse convite oficial ao cinema contemporâneo argentino, pois ele contribui com a construção da problemática ao passo que se debruça no exercício de expor especificidades da vida na metrópole e de suas implicações, uma vez que transpõe às telas como a personalidade que se acomoda nos ajustamentos às forças externas nas grandes cidades e as condições psicológicas que as metrópoles criam.


Ganhar o Mundial no lugar da baixa da inflação: seria uma fuga? seria uma possibilidade de brecha dentro de um espaço de crise? A procura por um futuro se dá nesse processo, uma vez que “mesmo em meio a um presente tão desafortunado, eles (homens modernos) poderiam imaginar uma brecha para o futuro” (BERMAN, 2013:39). A demanda por tal brecha, a vontade de sair da noção de expectativas encurtadas, do tédio, do deslocamento, dialoga com o viver em estado de desamparo (BIRMAN, 2014). O sujeito que vive em estado de desamparo em tempos modernos, por mais que esteja experienciando o mal-estar, continua a movimentar-se com o intuito de construir ou encontrar algo ou alguém que possa ajudá-lo a chegar até as desejadas brechas.


E então, no dia 13 de dezembro, uma sexta-feira, quando a seleção argentina venceu a semifinal contra os Países Baixos – país que eliminou o Brasil na Copa–, percebo que foi exatamente o que fiz em 2022: elegí creer. Construí minha brecha. Digo isso a mim mesma enquanto todos festejavam nas ruas da capital. Ali, pensei: revolução. Esse ano foi revolução e esse país me deu uma vida. Os argentinos se bancam, esse é um dos maiores ensinamentos dos nossos hermanos em minha vida: a inflação pode ser assustadora, mas nós bancaremos e enfrentaremos o caos. Se for preciso, subiremos ao obelisco. Inclusive, vocês sabem o que significa cabanga? É o que se tem mais próximo de saudade na língua espanhola, é uma expressão da Costa Rica. É uma longa história, mas descobri isso em solo argentino: a cabanga pode transformar uma vida. A Argentina também. A carta de Tarot te disse, lembra? Pelo que sonho e busco, eu escolho acreditar. Algo que não dialoga com o lócus neoliberal ou a estrutura do capital, mas a rebeldia argentina me mostra caminhos possíveis. Não fáceis, pero posibles. Gracias, Argentina!


Referências bibliográficas

AGUILAR, Gonzalo. Más allá del pueblo. Cidade do México: EFE, 2015.

SENNET, Richard. La ville à vue d’oeil. Paris: Hachette, 1992. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Muito além do espaço: por uma história cultural do urbano. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, número 16, 1995.

SENNET, Richard. O declínio do homem público - As tiranias da intimidade. Rio de Janeiro: Editora Record, 2015.

SIJLL, Jennifer. Narrativa cinematográfica – Contando histórias com imagens em movimento. São Paulo: WMF, 2019.

SVAMPA, Maristella. La sociedad excluyente: la Argentina bajo el signo del neoliberalismo.

Buenos Aires: Taurus, 2005.


Filmografia

Pizza, Birra, Faso. (Argentina, 1998). Diretores: Adrian Caetano; Bruno Stagnaro.


Bárbara Pereira da Cunha é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ.

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