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Um olhar judaico sobre Palmares pela lente de Quilombo, de Cacá Diegues.

Toronto, 01 de setembro de 2021.

André Sena*


Dedico este texto a historiadora Anita Novinsky

(In Memoriam, Z”L)


Dentre todos os aspectos que podemos apreender acerca da história colonial brasileira, apontamos sem medo as negativas que Portugal sofreu em nossas terras desde o primeiro momento. Sua imposição como metrópole e como centro de poder decisório colonial nunca foi consenso entre aqueles que, em diferentes níveis de intensidade, passaram pelo processo de assujeitamento à Coroa Portuguesa no Brasil, entre 1500 e 1815.



Crédito: IMDB.


Encontramos por aqui a resistência dos vários enclaves comunitários no sudeste (especialmente os paulistas), a agressão de potências internacionais discordantes, como a França e a Holanda; vulneráveis alianças e revezes com as populações autóctones, chamadas pelos europeus de “negros da terra”, bem como os diversos setores da Igreja, especialmente no âmbito jesuítico; há ainda os capitães hereditários, que oscilaram entre o sim e o não à Lisboa, ciosos de suas sesmarias; o problema da formação de comunidades coloniais remotas no Grão-Pará, a proximidade demasiada do sul platino com uma Coroa vizinha, mas quase sempre percebida como inimiga: a Espanha, mesmo com praticamente um século de União Ibérica.


Definitivamente, a “empresa colonial portuguesa”, como dizia o grande historiador Nelson Werneck Sodré, não foi obra nem contínua nem linear, quando sim diversa e multifacetada.


Entretanto, nenhuma negativa parece ter sido mais elevada a uma sonoridade tão estridente e tão visível como Palmares. O Quilombo de Ganga Zumba, Dandara e Zumbi, mas também do generalíssimo Katambo, estabeleceu-se na então Capitania de Pernambuco, e floresceu entre os séculos XVI e XVII. Grande parte da documentação que temos sobre Palmares foi produzida por seus inimigos, de modos que é sempre necessário desconfiar de datas e números.


Um dos primeiros documentos que fala de seu território data de 1597, o que indica que sua formação é anterior, podendo chegar a 1580. Com efeito, a ideia de homens e mulheres negras conformadas com sua condição escrava é tão enganadora quanto criminosa. Os escravizados nunca se renderam inteiramente. E Palmares foi decididamente um intenso e precoce sintoma, do desarranjo daquilo que Fernando Novais chamou de o “antigo sistema colonial”.


A mesma temporalidade de Palmares pode também ser relacionada a história judaica colonial brasileira. A expulsão dos Judeus da Espanha em 1492, e de Portugal, cinco anos depois, espalhou-os na direção do mundo turco-árabe e da Grécia (os Djudezmos), mas também os levou para o Norte da África, especialmente pelo Marrocos e pela comunidade de Djerba, na Tunísia. O fim da suposta Idade de Ouro dos Judeus na Espanha também os levou de volta ao que hoje seria o Israel contemporâneo (há uma migração judaica para esta região, que se intensifica muito a partir do século XVII, não apenas da Península Ibérica, como de várias outras regiões da Europa, como o Reino da Polônia e Grão-Ducado da Lituânia, especialmente após 1648).


Mas foi também na direção do Brasil colonial da Era Palmarina que vemos a chegada de uma diáspora judaica, especialmente (embora não apenas!) no Nordeste brasileiro. Nomes como Bento Teixeira, autor de Prosopopéia, um dos primeiros poemas épicos do nosso Barroco literário, instalaram-se no Brasil, na mesma época em que Palmares se erguia na Serra da Barriga. Foi também no auge da confederação dos mocambos de Aqualtune, Andalaquituche, Subupira e Cerca Real do Macaco, que chegou ao Brasil Holandês Isaque Aboab da Fonsceca, o primeiro Rabino das Américas e pioneiro na composição de textos em hebraico no Novo Mundo. Textos que ainda hoje são respeitosamente recitados na Sinagoga Portuguesa de Amsterdã.



Crédito: PERNAMBUCO.COM.


É precisamente sobre este contexto histórico riquíssimo que o cineasta Cacá Diegues realizou uma das mais belas obras do cinema nacional: Quilombo, lançado no Brasil em 1984, contando com nomes preciosos da dramaturgia brasileira, como Toni Tornado, Zezé Motta, Antônio Pitanga Markus Konká e Antônio Pompêo. O filme baseia-se em duas obras históricas: Ganga Zumba, de João Felício dos Santos e Palmares. A Guerra dos Escravos, de Décio Freitas; e é nele que vemos surgir Samuel, um intrigante personagem judeu, que se apresenta como uma espécie figura intermediária no enredo.


Samuel é interpretado na trama por Jonas Bloch, ator que igualmente figura na história do cinema e da televisão brasileira. O personagem aparece no filme, primeiramente sentado a soleira de sua casa, de onde pode-se ouvir os “tambores de Palmares”. Com essa informação de cena, podemos presumir que Samuel, o judeu, instalara-se em um ponto estratégico da região da capitania, mais precisamente às margens da rota de Angola Janga, nome dado pelos quilombolas à estrada vigiadíssima que os conduzia até a subida das serras, na direção dos mocambos.


A cena lembra por diversas razões a festa judaica de Pessach*: Samuel está sentado com seus filhos e acompanhado de sua mulher, narrando, como se faz nesta ocasião, o trecho bíblico que relata a saída dos judeus da escravidão no Egito, rumo à Terra Prometida. Educando possivelmente seus filhos na tradição judaica (filhos de um homem judeu casado com uma mulher indígena), Samuel se depara com uma visita inesperada: Ganga Zumba, Dandara, Acaiuba e diversos outros homens e mulheres estão igualmente em meio ao seu êxodo na direção de Eretz Palmares**.




Crédito: DEUTSCHE WELLE.


A personalidade conciliadora e comunicativa de Ganga Zumba fascina Samuel, que parece reconhecer no príncipe negro uma espécie de Moisés colonial. Convencido por ele a acompanhá-los até Palmares, Samuel, de branquitude comprometida por sua identidade judaica, decide não apenas testemunhar a história da aclamação de Ganga Zumba como futuro soberano do Quilombo, como também atuar como uma espécie de atravessador comercial entre Palmares e o mundo, em troca de proteção a si e a sua família.


O diálogo entre o judeu e o quilombola, ambos forasteiros e ao mesmo tempo tão palmarinos, reconhecedores de que suas histórias, embora distintas, encontram-se embebidas tanto na tragédia da diáspora, quanto na busca pela liberdade, salta os nossos olhos na dramaturgia de Cacá Diegues, e parece ancorado em trechos da Torá***, especialmente o célebre וְגֵ֥ר לֹא־תוֹנֶ֖ה וְלֹ֣א תִלְחָצֶ֑נּוּ כִּֽי־גֵרִ֥ים הֱיִיתֶ֖ם בְּאֶ֥רֶץ מִצְרָֽיִם׃ (“O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito”) que encontramos no capítulo 22 do Livro do Êxodo. Vejamos mais de perto:


Uma misteriosa mulher chamada Acotirene, líder mítica dos primeiros contornos do que no futuro será Palmares, recebe Ganga Zumba e Samuel para uma audiência. Vendo a cor branca do homem judeu, ela questiona ser ele um estrangeiro entre os quilombolas. A sabedoria de um Ganga Zumba ainda jovem, nos lembra as velhas discussões talmúdicas**** entre rabinos e sábios judeus imemoriais, mas que aqui aparecem na voz do líder negro: “também somos estrangeiros nesta terra. Em uma terra onde todos são estrangeiros, quem é o estrangeiro?”, ao que Samuel responde em retribuição e conferindo um tom diplomático a conversa: “há muitos no vale, como eu, que podem ajudar vocês”.


A última cena em que vemos Samuel, o judeu, é na aclamação de Ganga Zumba como rei palmarino. Samuel é o primeiro a exclamar “Ganga Zumba!”, que por sua vez começa a narrar sua própria história na África aos presentes, exatamente como Samuel fazia a seus filhos em sua casa, quando o soberano quilombola o encontrara à beira de Angola Janga, há alguns parágrafos acima.


O filme de Cacá Diegues, obra prima do cinema latino-americano, pode ser visto por dimensões as mais variadas. Mas não resta dúvida de que em uma obra esteticamente potente como essas, é possível detectarmos um curioso olhar judaico sobre Palmares, um dos mais significativos, complexos e ainda não satisfatoriamente estudados fenômenos históricos brasileiros.


*André Sena é historiador (UERJ).



Notas:

*Pessach: Festa popularmente conhecida como a Páscoa Judaica, que não apenas comemora, como narra, todos anos, o Êxodo judaico do Egito.

** Eretz é uma palavra hebraica que pode ser traduzida como “terra de...” país. Normalmente o termo se remete a uma carinhosa expressão judaica referente a Israel, Eretz Israel (ארץ ישראל), a ‘terra de Israel”.

***Torá: conhecida em Português como Pentateuco, a Torá corresponde aos 5 primeiros livros da Bíblia.

****discussões talmúdicas. O Talmude é um conjunto de obras, cujos textos dedicam-se a uma interminável discussão entre rabinos sobre as mais diversas questões judaicas em torno da filosofia, espiritualidade, direito, festas e ritos judaicos.


Referências:


SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de História da Cultura Brasileira. Ed. Bertrand, 1993.

NOVAIS, Fernando A. Estrutura e Dinâmica do Antigo Sistema Colonial. (Séculos XVI-XVIII). Ed. Hucitec, 2018.

GOMES, Flávio. Mocambos de Palmares. Histórias e Fontes (Séculos XVI-XIX). Ed. 7 Letras, 2010.

NOVINSKY, Anita [et al]. Os Judeus que construíram o Brasil. Fontes inéditas para uma nova visão da história. Ed. Planeta do Brasil, 2015.

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