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Sororidade, o que é? Ela existe?

Guarulhos, 01 de janeiro de 2022.

Luzimar Soares*.


Já decorreu algum tempo desde que escutei essa palavra pela primeira vez e confesso não consegui entender muito bem o que significava, parecia-me uma palavra muito estranha, complexa e de difícil assimilação. Todavia, algo que sempre moveu minha vida foi a necessidade de aprender, então, saí em busca de compreender, em primeira instância, de onde vem e o que realmente quer dizer.


Crédito: wix.




No Dicionário On-Line de Português, tem-se a seguinte definição:


Significado de Sororidade: substantivo feminino. Relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs. [Por Extensão] União de mulheres que compartilham os mesmos ideais e propósitos, normalmente de teor feminista, sendo caracterizada pelo apoio mútuo evidenciado entre essas mulheres.


Mas, de onde vem, qual a origem dessa palavra? Também, no mesmo dicionário, há a descrição de sua ascendência.A palavra sororidade deriva da junção da palavra de origem latina "soror,oris", com o sentido de irmã, e do sufixo nominal também latino -dade, este sufixo designa uma qualidade ou estado.


Primeira etapa da busca concluída, hora de entender sua aplicabilidade na realidade da viva, na cotidianidade das relações, nas disputas que somos inseridas diariamente, momento de avaliar as interações. Estamos inseridas e, portanto, fazemos parte de uma sociedade estruturada de maneira machista, na qual, ainda na atualidade, as mulheres ganham bem menos do que os homens, ainda que estejam fazendo o mesmo trabalho.


É verdade, também, que as mulheres trabalham muito mais do que os homens, haja vista que o trabalho doméstico, basicamente, é efetuado pela mulher; o que significa dizer que, mesmo aquelas que trabalham fora, quando voltam de seus empregos, ainda têm muito trabalho a fazer em casa. Cuidar dos filhos (para as que têm), cuidar da casa, preparar alimentação, dentre outros afazeres. Todos esses trabalhos sem remuneração, afinal, estão só cuidando do lar. Se é só cuidar do lar, por que não há igualdade de participação dos habitantes da casa?


O trabalho feminino não só é sem remuneração, é também ocultado, ou seja, invisibilizado e naturalizado de maneira que, mesmo trabalhando muito mais, detêm muito menos do que os homens. Naomi Wolf (2019, p. 43) nos diz:


De acordo com o Instituto Humphrey de Questões Públicas, “embora as mulheres representem 50% da população mundial, elas cumprem quase dois terços do total de horas de trabalho, recebem apenas um décimo da renda mundial e possuem menos de 1% das propriedades”.


Sendo assim, compreender o significa a palavra sororidade é importante, mas muito mais do que isso, é urgente perceber sua aplicabilidade na vida. Fomos ensinadas, nessa estrutura, que as mulheres não são leais às outras mulheres, que nos arrumamos para competirmos entre nós, que precisamos nos manter belas para sermos atraentes, que envelhecer é um “pecado” que a mulher não pode cometer, pois, assim que envelhece, deve ser substituída por uma mais jovem. E, assim, devemos manter a competição entre nós.


Então, resolvi fazer uma análise das pessoas mais próximas de mim, das minhas amizades e da quantidade de mulheres que fazem parte da minha vida. Busquei compreender o quanto cada uma dessas mulheres contribuiu para que minhas conquistas fossem possíveis. Carrego comigo, orgulhosamente, a certeza de que, nas minhas relações, a sororidade existe sim.


Venho, ao longo dos anos, buscando compreender o que é o feminismo e porque ele é importante. Sabemos que muitas correntes existem e, em razão dessa pluralidade, muitos podem achar que apenas não nos entendemos, mas não é verdade. As múltiplas correntes são necessárias, somos múltiplas e, portanto, temos necessidades diferentes. Observar as buscas e realidades de cada mulher, perceber-se como parte de um sistema que nos oprime, que nos relega aos piores postos de trabalho, aos menores salários e aos piores julgamentos, só será possível se estivermos com olhares diversificados.


A sociedade estruturada como está nos coloca em eterna posição de subordinação e competição. A indústria da beleza trabalha de forma a nos colocar em um quadro em que devemos ser basicamente iguais, da mesma maneira que, mandatoriamente, precisamos competir, imperiosamente iguais na aparência, para efetivamente disputarmos desde as coisas mais simples, como a forma de nos vestirmos, até o posto de trabalho.


Desse modo, volto a recorrer a Naomi Wolf. Ela coloca que somos levadas a acreditar que precisamos ser belas. “Encarar a beleza é obrigação para as mulheres, não para os homens, situação essa necessária e natural por ser biológica, sexual e evolutiva”. Nada disso faz o menor sentido, mas a dominação faz toda a diferença na cadeia produtiva e na indústria da beleza. Obviamente, não há nenhum mal em as mulheres buscarem a beleza, cuidarem de seus corpos e de suas mentes e manterem atividades que as façam se sentirem bem.


No entanto, essa colocação de que precisamos seguir padrões únicos de beleza, que na verdade não é exatamente de beleza, mas de comportamento. A mulher precisa ser bonita, mas não pode ser muito. Jargões machistas e grosseiros dizem que mulher muito bonita dá trabalho. Trabalho? Talvez seja a hora de nós mulheres nos entendermos no meio dessa situação toda e nos percebermos enquanto detentoras universais de nossas vidas, e praticarmos muito mais a sororidade.


Tenho comigo, durante todo o percurso da minha caminhada acadêmica, mulheres incríveis que foram minhas professoras, mulheres sábias, bondosas, generosas, mulheres que abraçaram a docência com sabedoria. Mas, para além da sabedoria, são mulheres de luta, de resistência, mulheres que inspiram suas alunas a buscarem mais conhecimento, a nunca desanimar, a se reinventar.


Por tudo que já foi exposto, realmente, acredito que sim, a sororidade existe entre as mulheres. Muitas, ainda, não perceberam quão parceiras e o quanto elas inspiram, muitas por serem modestas, outras por não se perceberem nesse papel de inspiradora. A despeito de todas as mulheres que me inspiram e que me fazem seguir, aqui, quero registrar que minha mãe sempre me inspirou, minhas irmãs (são cinco) são exemplos para mim, e todas as minhas amigas são mulheres incríveis. Para sintetizar, quero nomear uma que representa a sororidade naquilo que mais acredito: Luciene Carris, você é a potência da sororidade. Obrigada.


Muito obrigada a cada leitora e leitor, que consigamos cada dia mais atrair mulheres para a sororidade.


Feliz 2022!



Luzimar Soares é historiadora (PUC-SP).


Referências:

WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

https://www.dicio.com.br/sororidade/


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