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Reflexões sobre o Estigma em tempos de pandemia


Verônica Moreira S. Pires*

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2021.



Erving Goffman (1922-1882), estudioso de grande projeção, nascido no Canadá, responde por várias publicações, dentre as quais destaco, para efeito deste ensaio interpretativo, a obra Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, de 1963. De acordo com o sociólogo, o estigma nasce de “um atributo profundamente depreciativo”. (GOFFMAN, 1988, p. 13) Um atributo que torne uma pessoa diferente dentro de um grupo de pessoas no qual esta pudesse ser incluída. Essa diferença, visível ou não, no âmbito das relações intragrupos, se tratada como incompatível com as normas instituídas por seus membros, pode levá-lo à condição de desacreditado ou desacreditável, ambas estigmatizantes. Dos três diferentes tipos de estigma, chama atenção:



“[...] os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família. [...] Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa [...].”(GOFFMAN, 1988, p. 14-15).



Decidi destacar a teoria, antes de definir o foco de minhas reflexões, não só por honestidade, mas por necessidade intelectual. A nova conjuntura, protagonizada pela pandemia por COVID-19, tem ceifado inúmeras vidas e, como se não bastasse, vem causando outros tantos estragos, muitos deles inimagináveis, como por exemplo, o aumento exponencial das agressões físicas e/ou verbais, incluindo variadas formas de assédio via internet, contra asiáticos, em vários países. No Brasil, Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina), registra que podem passar de 300 mil, desde janeiro de 2020, os casos de manifestações racistas e xenófobas direcionadas a descendentes de chineses, japoneses e coreanos, entre outros membros da comunidade asiático-brasileira. (WERNER, 2021)


A título de ilustração - triste ilustração, por certo - Fernanda Yumi Tagashira, descendente de japoneses, com apenas um mês no emprego, aos 19 anos, passou a ser tratada com deboche, a ser chamada de coronavírus, por uma colega de empresa, e foi vítima de uma borrifada de álcool no rosto, conforme publicação do Jornal de Brasília, de 24 de março de 2020.



Fernanda Yumi Tagashira


Além do injustificável ocorrido, passagens como “chines e japones é o mesmo” [sic] e “vc tem corona pq como coisas estranhas?”[sic], presentes na postagem da vítima, tonam imperativa a imersão teórica, posto que tal comportamento não deve ser tratado como caso isolado ou de baixa importância vis-à-vis o debate sobre a vacinação e, consequentemente, o controle da pandemia. Nesse sentido, considerando o fato de que grupos estigmatizados, como indicam algumas pesquisas, reproduzem desigualdades sociais por intermédio das hierarquias de grupo, me lanço, de forma ainda incipiente, na problematização das transformações sócio-históricas de atributos capazes de edificar e manter dimensões macro do estigma em relação aos asiáticos. A julgar pelas limitações de qualquer estudo, me limito às dimensões macro do “estigma tribal” em relação aos chineses, com ênfase no atual contexto pandêmico.


Isto posto, não parece absurdo afirmar que a disseminação das contaminações e o crescente número de mortos, por COVID-19, não criaram, mas deram novo tom à estigmatização de grupos falantes da língua chinesa. Incluindo o medo de contrair o vírus, ganham destaque a cultura alimentar, as diretrizes utilizadas para o uso de máscaras, a ideologia política e o racismo entre as justificativas para a discriminação do grupo em questão. No que tange à cultura alimentar, nas palavras de Jianhua Xu [et al.]: “A representação de certos alimentos chineses como primitivos e sujos existe há muito nos países ocidentais (Lu e Fine 1995). Esse estereótipo foi revivido com a disseminação do Covid-19.” (XU et al., 2021) Vale, contudo, ressaltar, que até mesmo chineses residentes no país condenaram Wuhan por suas práticas alimentares. E se algo dessa natureza se deu entre chineses, dentro da própria China, em que pese as tensões envolvendo as relações com Taiwan e Hong Kong, fica mais fácil imaginar o desdobramento disso no Ocidente.


Além da cultura alimentar, outras reflexões podem e dever ser problematizadas levando em consideração fatores relacionados à estigmatização dos asiáticos e de seus descendentes, redefinida pelo novo coronavírus. Por fim, sob forma de esboço do porvir na pesquisa em curso, o debate sobre estigma ganha corpo como fenômeno social, de acordo com Matthew Clair, com a publicação de Bruce Link e Jo Phelan, em 2001. Para esses sociólogos, o estigma surge a partir da co-ocorrência de quatro processos, a saber: “(1) rotulação das diferenças humanas; (2) estereotipação dessas diferenças; (3) separação dos rotulados do nós; e (4) discriminação contra os rotulados com base na perda de status.” (CLAIR, 2018). Na sequência, outros nomes passam a engrossar as fileiras dos que se debruçam sobre os estudos contemporâneos relacionados ao estigma, mas é em Erving Goffman que encontram sua inspiração e, por esta razão, nunca é demais referenciá-lo. E se as palavras não foram suficientes para provocar a desestigmatização dos asiáticos, falantes da língua chinesa ou de qualquer outro grupo estigmatizado, deixo abaixo a obra de Eduardo Kobra, intitulada Coexistência, como mais um apelo à racionalidade humana.




O artista brasileiro Eduardo Kobra posa diante da sua obra Coexistência, na cidade de Itu, em São Paulo. Foto Rebeca Reis/AGIF. Fonte: https://projetocolabora.com.br/ods3/cresce-o-odio-contra-asiaticos/



*A nossa convidada da quinzena 15-30 de junho é a professora Verônica Moreira S. Pires da Universidade Veiga de Almeida.



Referências:


CLAIR, Matthew. Stigma. Core Concepts in Sociology, 2018. Harvard University. Disponível em: https://scholar.harvard.edu/files/matthewclair/files/stigma_finaldraft.pdf. Acesso em: 12 jun. 2021.


GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.


JBR. Por coronavírus, jovem sofre racismo por ser de descendência asiática. Jornal de Brasília, 24 mar. 2020. Disponível em:


LINK, Bruce; PHELAN, Jo. Conceptualizing stigma. Annual Review of Sociology. N. 27, 2001. Disponível em: https://www.annualreviews.org/doi/pdf/10.1146/annurev.soc.27.1.363. Acesso em: 12 jun. 2021.


WERNER, Luciana. Ódio e preconceito contra asiáticos crescem no Brasil e nos Estados Unidos. #Colabora, 25 maio 2020 (atualizado em 06 jun. 2021). Disponível em: https://projetocolabora.com.br/ods3/cresce-o-odio-contra-asiaticos/. Acesso em: 12 jun. 2021.


XU, Jianhua et al. Stigma, discrimination, and hate crimes in Chinese-speaking world amid Covid-19 pandemic. Asian Journal of Criminology. N. 16, 2021. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7785331/. Acesso em: 12 jun. 2021.




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