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  • Foto do escritorLuciene Carris

O Rio é uma festa

Rio de Janeiro, 24 de março de 2023.

Luciene Carris*


A vinda da Família Real para o outro lado do Atlântico, em 1808, acarretou uma série de transformações no Rio de Janeiro, que de colônia de Portugal desde o século XVI se tornou a capital do vice-reino em 1763, por fim, a sede da monarquia portuguesa. Até então, nenhum monarca europeu havia pisado em algum dos seus territórios ultramarinos, portanto, se tratava de uma novidade. E, assim, foi transferido todo um aparato burocrático, assim como um contingente populacional que modificou a estrutura urbana da antiga cidade colonial. Novos hábitos foram introduzidos, a partir daí, se buscou erradicar certas heranças coloniais, se aproximando de determinados ideais civilizatórios tão em voga. Aliás, era um movimento que envolvia o embelezamento e a melhoria da salubridade da cidade, tornando-a mais limpa e iluminada, e, assim, ao longo do século XIX uma série de ininterruptas transformações na urbe carioca, o que também contribuiu para as novas de sociabilidades e de lazer.



Festa do Divino Espírito Santo, Henry Chamberlain, 1822.

Uma das mais antigas festividades católicas, chegou ao Brasil no século XVI.


A chegada da Corte portuguesa é realmente um marco. Não por acaso foi tema de filmes, de novelas, de romances e de tantos livros sobre os integrantes da monarquia, que têm como o cenário o Rio de Janeiro. Contudo, a impressão que paira sobre a sociedade colonial anterior à 1808 era de pura monotonia, um universo restrito ao ambiente familiar e da casa, e ao cotidiano da igreja com as suas tradicionais missas, festas ou procissões religiosas. Sem dúvida, não há como comparar a vida daqueles indivíduos com outras épocas, pois pecaremos pelo anacronismo e pelo superficialismo. Mas entendamos que para aqueles habitantes da América portuguesa “cerimônias e rituais públicos faziam parte integrante da cultura religiosa em Portugal desde a época dos descobrimentos” (MOTT, 1997, p. 160). Portanto, “católico que honrasse o nome não se limitava a cumprir a obrigação pascal e os mandamentos da Santa Madre Igreja: convinha alimentar sua vida espiritual privada e comunitária” (MOTT, 1997, p. 159).


Porém, em paralelo à ortodoxia religiosa, a sociedade convivia com as superstições herdadas do medievo europeu ao lado de práticas e rituais incorporadas dos povos originais, os indígenas, e dos africanos. Um destes rituais conhecidos era o calundu, praticado principalmente na Bahia e em Minas Gerais, que tinham em comum “o uso de instrumentos de percussão, a invocação de espíritos (muitas vezes de defuntos a quem se faziam oferendas), a possessão, a adivinhação e a busca da cura de doenças” (DAIBERT, 2015). Há o registro de um desses terreiros de uma certa parda forra conhecida pelo nome de Veríssima nos arredores do Rio de Janeiro. Aliás, a escolha de lugares distantes era uma forma de se proteger da possível repressão dos homens brancos, embora os adeptos de tais rituais também preferissem florestas e rios, pois eram os lugares ideais para o contato com os seus deuses africanos, bem como a possibilidade de certa privacidade para a prática das danças, das cantorias e do batuque (MOTT, 1997, p. 206-207).


Em datas especiais ocorriam festas que mobilizavam toda a cidade, especialmente durante o século XVIII, quando aumentou a importância econômica da colônia para Portugal. Apesar das inúmeras restrições impostas, política ou religiosa, a população se envolvia ativamente, como bem demonstrou o cronista Luiz Edmundo:


Se o movimento se fazia sentir ativo e vivo nas casas, nas lojas e oficinas, transformando o aspecto patriarcal e tranquilo da cidade, não menos vivo e ativo era o que ia pelos campos indicados para o levantamento de um anfiteatro, onde pudessem ser corridos touros e cavalos, exibidos danças e carros alegóricos. Trabalhavam carapinas vindos de toda parte; pedreiros e pintores de brocha até de madrugada, à luz de cabeças de alcatrão, que a escravaria carregava. E de um amontoado de lonas, de madeiras que carretas cuspiam sem descanso ao redor da praça, surgia, enfim, a grande peça de arquitetura, que se dispunha a impressionar os basbaques do tempo (Edmundo, 2000, p. 104).


A notícia era espalhada pelas ruas da cidade, geralmente, de boca a boa, pois a imprensa era proibida pela Coroa, apesar de algumas tentativas frustradas. As festas como expressão social, também, possuíam uma função, e, por tabela, constituíam uma necessidade, pois, os folguedos “servem ainda de exultórios à violência contida e às paixões, enquanto queimam o excesso de energia das comunidades. A alegria da festa ajuda as populações a suportar o trabalho, o perigo e a exploração, mas reafirma, igualmente, laços de solidariedade ou permite aos indivíduos marcar suas especificidades e diferenças” (PRIORE, 1994, p. 10). Misturando o sagrado e o profano, as festas envolviam a Igreja e o Estado numa espécie de cultura dirigida e forjada, evidenciando a centralidade do rei nas celebrações de datas importantes da monarquia, e reforçando, portanto, vínculos de fidelidade entre os seus colonos no ultramar e a Coroa. Não por acaso eram reguladas pelas leis canônicas e pela legislação régia (KANTOR, 2008).


Os preparativos para as festas envolviam o embelezamento da cidade o que implicava em melhor iluminá-la, um contraponto às habituais noites escuras. As luminárias eram um item indispensável para o sucesso dos festejos. Aliás, os indivíduos que oferecessem mais luminárias adquiriam um certo status perante o resto da comunidade. Neste movimento, a população preparava as suas casas com decorações nas portas e janelas nos dias de procissão ou de festa profana, assim, era comum “alcatifar as ruas com flores odoríferas, ornar as janelas com colchas de Pequim ou China ou com as lindezas dos senhores desta terra; noz moscada era jogada nas portas de entrada, para perfumá-las” (PRIORE, 1994, p. 39).


De uma maneira geral, as festividades ganharam proeminência ao longo do século XVIII, especialmente, missas solenes, procissões, representações teatrais, danças, corridas de touros, jogos de cavalaria, sempre marcadas pela teatralidade, pelo espetáculo e por uma riqueza visual. Não raro as pessoas se vestiam com as suas melhores roupas e adereços seguindo o luxo e a ostentação típicos do espírito barroco, desse modo, “as celebrações dos séculos 17 e 18 tinham ênfase na festa barroca, com todos os elementos que traduzissem o dramático, o excesso, o simulacro, o êxtase, a luz, a vida, a morte” (FERNANDES, 2011, p. 52). De acordo com Nireu Cavalcanti, as festas eram realizadas no Largo do Paço, onde se localizava a administração colonial, o Palácio dos Vice-Reis, denominado anteriormente como Terreiro do Polé (pelourinho) e Largo do Carmo, e no Campo de Santana, antigo Campo da Cidade. O primeiro local seria o palco para as celebrações oficiais, enquanto o segundo se destinava para as diversões da população como touradas, jogos equestres, peças teatrais e espetáculos com fogos de artifício (CAVALCANTI, 2006).


Vale acrescentar que à medida que a cidade crescia, novos espaços eram demandados, e o Campo da Cidade, que era um terreno alagadiço desabitado, local de despejo de detritos humanos, foi devidamente aterrado e saneado durante a administração do vice-rei D. José Luís de Casto, o conde de Resende (1790-1801). Daí, se converteu em um espaço para festividades.

O Campo era geograficamente delimitado entre a rua da Vala, atual Uruguaiana, e o Mangal de São Diogo, a atual Cidade Nova. Como a região não era valorizada até então, a Irmandade de São Domingos ergueu a sua igreja, assim como ocorreu com os devotos de Santa Ana, que também construíram a sua capela, ambas frequentadas por negros, o que bem evidencia a estratificação do espaço urbano. Para lá Vale recordar que, a cidade era repleta de charcos, pântanos, mangues, e se encontrava limitada aos morros: Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio. Desse modo, as festividades permitem compreender como a hierarquização e a exclusão pautavam a dinâmica daquela sociedade, em síntese, as relações sociais e a estratificação espacial:


A festa começava pelo desfile de símbolos (as máscaras, os arautos, as bandeira, o mastro, a decoração das ruas e os foguetes), que eram apropriados diferentemente pelas diversas camadas da população. Ora status, ora poder, ora resistência, a cultura popular ou a de elite davam funções diversas a esses vários símbolos. Jogos de espelhos onde os membros da sociedade colonial refletiam-se distintamente, as festas iniciavam-se com um feite de símbolos que anunciavam um tempo de identidades encobertas, ou falsificadas, numa constelação de utopias (PRIORE, 1994, p. 41).



Referências:

BARBOSA, Roberta Martinelli. As festas reais no Rio de Janeiro (segunda metade do século XVIII). Tese (Doutorado), Programa de Pós-Graduação em História Social da PUC-Rio, 2016.

CAVALCANTI, N. O. Campo, Rocio, Largo, Praça, Passeio: Espaços Públicos na Cidade do Rio de Janeiro Colonial. In: Miguel Figueira de Faria. (Org.). Praças Reais Passado, Presente e Futuro. 1ed.Lisboa: Horizonte, 2008, v. 01, p. 305-322.

EDMUNDO, L. O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000.

FERNANDES, Cybele Vital Neto. Festas reais em Portugal e no Brasil Colônia: organização, sentido, função social. Arte & Ensaios, Revista do PPGAV, Escola de Belas Artes, UFRJ, Rio de Janeiro, n. 23, 2011.

KANTOR, Iris. Festas públicas e processo colonizador: as festas de comemoração do Tibagi na segunda metade do século XVIII. Politeia: Hist. e Soc., Vitória da Conquista, v. 8, n. 1, 2008.

MOTT, Luiz. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o lundu. In: NOVAIS, Fernando. História da Vida Privada. SP: Cia das Letras, 1997. V. 1.

PRIORE, Mary Del. Festas e utopias no Brasil colonial. SP: Brasiliense, 1994.


* Luciene Carris é historiadora (UERJ).

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