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  • Foto do escritorAndré Sena

Na casa do senhor não existe Satanás: Salman Rushdie

Toronto, 17 de agosto de 2022.

André Sena*


Eu ainda era adolescente quando o aiatolá Ruhollah Khomeini lançou sobre o escritor britânico Salman Rushdie uma fatwa que o condenou a morte, ao isolamento e ao pânico por toda a vida. Recentemente, ainda sob a inspiração do integrismo religioso que o marcou, o autor de Os Versos Satânicos foi vítima, de um atentado em plena Nova Iorque, Meca da cultura ocidental, um dos berços do multiculturalismo moderno. O escritor perdeu um olho, teve a função motora de seu braço esquerdo comprometido, e agoniza no hospital. O terrorista que o vitimou possivelmente entendia estar cumprindo um desejo que, concretizado na fatwa emitida em 1989, originava-se na própria vontade divina.



Uma fatwa não necessariamente indica uma condenação a morte. Tecnicamente as fatwas são um pronunciamento, um conclame de um especialista em jurisprudência islâmica, algo conhecido no sistema religioso muçulmano como Fiqh, para esclarecimentos e aprofundamento acerca de uma determinada ação, considerada ipso facto digna de reprovação no campo teológico. Naturalmente, em uma teocracia sanguinária como a que se desenvolve na República Islâmica do Irã desde 1979, as fatwas podem assumir um caráter bem mais agressivo e letal, como a que foi emitida contra Rushdie, com consequências imprevisíveis, que podem se estender por uma longa duração, chegando inclusive a tentativas de cumprimento violento do decreto. Embora uma fatwa não possa ser invalidada nunca, há um crescente um debate, tanto no campo político quanto no teológico, acerca da possibilidade de revisão do veredito sobre Salman Rushdie. Nunca se chegou a uma conclusão, e quase sempre quando Deus se cala, malucos se movem, quase sempre em seu nome.


Os Versos Satânicos foi o quarto romance de Rushdie e aquele que mais o notabilizou. Uma belíssima história sobre os desafios da vida, que infelizmente foi ofuscada pela controvérsia que cercou o livro, publicado um ano antes de sua condenação no Irã. Inspirado na vida do Profeta Maomé, o autor buscou fazer uso do realismo mágico (uma de suas ferramentas preferidas! Há algum tempo falou aqui na Biblioteca Pública de Toronto sobre um de seus mais recentes livros infantis, utilizando o mesmo recurso) para pensar dilemas humanos a partir de versos do Alcorão, bem como de questões contemporâneas que se passavam na Inglaterra de Margaret Thatcher.


Esta incrível obra, que precisa ser relida e que graças ao ultimo atentado contra o autor (este não foi o primeiro, mas definitivamente o mais bem sucedido de todos) volta a ganhar visibilidade, é marcada por uma dualidade narrativa que muitos analistas da obra de Rushdie acreditam ser autobiográfica: são dois os seus principais personagens, que se metamorfoseiam nas figuras de um anjo e um demônio, examinando, ao caminhar por um labirinto, aspectos da vida de nossos dias a partir das antíteses céu-inferno, luz-trevas, vida-morte, apolíneo-dionisíaco, passado-iconoclastia. O título do livro pode ter incomodado os religiosos, mas foi na própria tradição islâmica que Rushdie o recolheu; o termo Os Versos Satânicos refere-se a um conjunto de versos corânicos, que abordam deuses pagãos condenados pelo sistema religioso fundado pelo Profeta, especialmente as deusas Allatu, Al-Huzza e Manat, muito presentes na cultura religiosa pré-islâmica da Península Arábica, onde a terceira modalidade de Monoteísmo Clássico surgiu, no século VII.


Um bom romance deve ser capaz de exalar humanidade, e é precisamente isso que Os Versos Satânicos consegue fazer, especialmente a partir de um fio condutor especulativo radicalmente ontológico: a questão do ser aparece de forma rasgada no passeio alegórico dos dois personagens que povoam a obra, propondo ao leitor, ao mesmo tempo o deleite de uma leitura estimulante, somada a um exercício de autorreflexão sobre si mesmo. A pergunta sobre quem somos é formulada no livro de lugares diferentes e por diferentes propostas de questionamento, expressas em perguntas que as duas criaturas alegóricas se fazem a si mesmas, ou com as quais alfinetam-se alternadamente.


Recentemente li uma biografia interessantíssima do Profeta Maomé, lançada faz pouco tempo por Deepak Chopra. O autor utilizou personagens da família do fundador do Islã, e ainda explorou alegoricamente outros componentes hagiográficos de Maomé, como o monge nestoriano que profetizou ser ele um emissário de Deus, sua cuidadora em tempos de criança e até mesmo um de seus inimigos declarados.


Não houve, ao menos até agora uma fatwa condenando Chopra e sua obra. Os tempos são outros, e as relações entre o mundo muçulmano e o “Ocidente” sofreram alterações incontornáveis depois dos desdobramentos do 11 de Setembro de 2001. Entretanto, ao ler o livro de Deepak Chopra, igualmente um autor ocidental de origens orientais, pensei imediatamente no pioneirismo de Salman Rushdie na década de 1980. Impossível comparar os dois autores, com o pendor da balança definitivamente pesando para o autor de Os Versos Satânicos, homem de letras, vencedor de prêmios e um tesouro literário. Mas algo me disse que a venturosa biografia de Maomé, escrita pelo autor-médico-mentalista americano Deepak Chopra, devia a Salman Rushdie, como muitos autores posteriores a ele, muito da sua ousadia e destemor, em um tema que se tronou, graças ao fanatismo religioso, um perigo de morte.


Que Os Versos Satânicos continue a ser publicado e lido pelas futuras gerações. E que Salman Rushdie viva, nos legando por mais tempo, obras ainda mais interessantes e contundentes.


*André Sena é historiador (UERJ).

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