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  • Foto do escritorAndréa Queiroz

Milton Fernandes: um menino do Méier

Rio de Janeiro, 01 de dezembro de 2022.

Andréa Queiroz*


O menino Milton Fernandes viveu a sua infância no Méier. As suas lembranças pueris foram guardadas e constantemente narradas a partir deste subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro. Entretanto, Milton passou os seus dois primeiros anos de vida na rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, onde nasceu. Contudo, a passagem de Milton por esse bairro repleto de histórias da boemia carioca nem sempre foi contemplada em suas memórias como cronista da cidade. Uma vez que a sua presença por lá foi bastante efêmera. Já no subúrbio do Méier existiram mil fantasias pueris que na maioria das vezes não se coadunaram com a representação do cosmopolitismo do bairro suburbano naquele período.




Crédito da imagem: Revista Carioquice.

Acesso em: 08 nov. 2022.



O pai de Milton, o espanhol Francisco Viola, conhecido como Don Paquito, nasceu em Madri e morreu no Rio de Janeiro aos 36 anos quando o menino não tinha nem um ano de idade. Era formado em engenharia, mas no Brasil não exerceu a sua profissão, logo que chegou ao país entrou no ramo do comércio. A mãe, Maria Viola Fernandes, ficou viúva aos 27 anos com quatro filhos e “sem saber coisa nenhuma do mundo” mudou-se com Milton e seus três irmãos – Judith, Hélio e Ruth – para uma casa na rua Isolina 59, no Méier, que seu pai havia comprado um pouco antes.


Milton estudou as primeiras letras na escola pública Ennes de Sousa, cunhada por ele, desde os tempos em que começou a trabalhar na revista O Cruzeiro, como a “Universidade do Méier”. Enfatizou: “tudo que aprendi foi nesse colégio. Sobretudo, uma coisa fundamental no ensino que é gostar de estudar, gostar de ler. O resto você aprende sozinho, né?” (FERNANDES, 2005, p.23). Segundo ele, para quem vinha do Centro da cidade do Rio de Janeiro, a escola ficava do lado esquerdo da linha do trem. Salientou que o lado do “Jardim do Méier era o outro, onde havia três cinemas. Um luxo” (FERNANDES, 2003, p.17).


De acordo com Silvia Fraiha e Tisa Lobo (2004, p.45-46), o Jardim do Méier dos tempos da lembrança do menino Milton oferecia diversos recantos elegantes e românticos, além de várias diversões para os frequentadores: o famoso teatrinho de marionetes, o tiro ao alvo, a leitura da sorte, a roda-gigante, o carrossel. Neste bairro, Milton viveu até os dez anos de idade, marcando, assim, a sua identidade como cronista das ruas e dos personagens urbanos.


O bairro do Méier no início do século XX, com a chegada dos bondes, alcançou uma posição geográfica de destaque na ligação entre o subúrbio e o Centro da cidade do Rio de Janeiro. A partir da década de 1920, o Méier e as adjacências tinham em torno de 57 mil habitantes, algo como 5% da população total do Rio no período (FRAIHA e LOBO, 2004, p.35).






Crédito da imagem: Jornal Opinião, Rio de Janeiro, 18-25 dez. 1972, ed. 07 p. 05.

Disponível em: http://memoria.bn.br/docreader/123307/153 Acesso em: 08 nov. 2022.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional



Durante a belle époque, o bairro já se dividia informalmente entre os estabelecimentos e moradias situados à direita e à esquerda da estação de trem. O Méier do início do século XX era bastante cosmopolita, possuía muitas casas comerciais no estilo das que existiam no Centro do Rio de Janeiro. É importante lembrar que a vida social do bairro era intensa desde o final do século XIX, com o surgimento de grêmios e clubes ligados às artes. Os clubes dramáticos recebiam visitas como a do dramaturgo Arthur Azevedo; no cine-teatro Politheama, Procópio Ferreira trabalhou, em 1918, fazendo todas as espécies de operetas vienenses e revistas. Eram também comuns as serenatas, os saraus, e, sobretudo, o carnaval. O bairro era repleto de cinemas como o Politheama, o Cine Mascote, o Cine Paratodos e o Cine Imperator (FRAIHA e LOBO, 2004, p.42-46).


Dessa maneira, por conta de uma intensa vida social e cultural, podemos compreender a importância que o bairro do Méier produziu na trajetória do menino Milton, influenciando, assim, nas crônicas do jornalista Millôr Fernandes. Embora em suas memórias, muitas vezes esse cosmopolitismo apresentado anteriormente foi contraposto por lembranças de um ambiente quase provinciano, ressaltado como um grande lamaçal, com carroças e com ruas sem calçadas.


Após a morte de sua mãe, em 1935, também aos 36 anos de idade como a de seu pai, Milton, com sete anos, e os seus irmãos foram distribuídos entre os familiares. Durante os três primeiros anos após ficar órfão, o menino foi morar com seu tio materno Francisco e a sua tia Maria (por coincidência os mesmos nomes de seus pais), no subúrbio de Terra Nova – entre Del Castilho e Tomás Coelho –, era uma casa pobre. Mas, a grande referência para Milton, naquele momento, foi a sua avó materna, Concetta di Napoli, que escolheu morar com o neto na mesma casa. Milton Fernandes teve uma infância rememorada à lá Charles Dickens. Assim, foram narradas as suas lembranças pueris. Órfão de pai e mãe, vivendo longe dos irmãos e ignorado pelos familiares, com exceção da avó Concetta, difundiu em seu modo de vida um grande ceticismo, o que ele traduziu como a “paz da descrença”.


O seu primeiro contato com o mundo dos jornais, não mais como leitor, mas como autor, foi aos dez anos de idade. Milton foi levado pelo seu tio Antônio Viola, que era chefe da gráfica d’O Jornal (um dos veículos de comunicação de Francisco de Assis Chateaubriand), a participar de um concurso de ilustração no mesmo periódico, ganhou o prêmio, recebeu o pagamento de 10 mil reis por ele e publicou o seu primeiro desenho, dando início a sua carreira no jornalismo. Segundo Millôr (entrevista, Carioquice, 2005, p.35), “a cena era bucólica: uma pastorinha, uma ovelhinha do lado. Nada a indicar o traço demolidor que, anos mais tarde, levaria à raiva e à loucura os poderosos”.


Depois, aos quatorze anos, foi trabalhar n’O Cruzeiro, uma das principais revistas de Chateaubriand, onde o menino fazia de tudo, era contínuo, traduzia legendas, organizava arquivos, entre outras atividades. Millôr (2003, p.30) lembrou que “não tinha uma função específica na revista. [...] Eu podia entrar na câmara escura para ajudar, ficar vendo o fotógrafo, Edgar Medina, trabalhar. [...] Descia na composição e via a bolandeira. [...] Lá dentro da redação é que eu fazia de tudo”.


Milton estudava no período noturno no Liceu de Artes e Ofícios, no Centro do Rio de Janeiro, contudo, a distância do colégio até o local onde morava (ainda no subúrbio, pois somente com o aumento do salário que recebeu na revista que pode se mudar para o Centro, ficando mais próximo do trabalho e da escola), o prestígio profissional (estabelecido pelo convívio com os jornalistas de O Cruzeiro) e o compromisso diário no jornal fizeram com que o jovem se afastasse para sempre dos “bancos escolares”. Corroborando, dessa maneira, para que se perpetuasse a imagem construída de si como autodidata.


E assim foi começando a nascer o jornalista Millôr Fernandes. Que dentre suas principais marcas podemos destacar o humor provocante, a sátira política, a ironia sobre da vida cotidiana, a crítica das normas costumeiras, em especial, da própria língua produzindo, com isso, recriações verbo-visuais que geravam novos sentidos para os signos já conhecidos ou os reiventados. Ele mesmo é uma exemplaridade dessa recriação. Podemos dizer que ele se reinventou com uma nova identidade. Nascido Milton Fernandes, em 16 de agosto de 1923, mas oficializado em 27 de maio de 1924, descobriu-se Millôr aos 17 anos, pela caligrafia do escrivão em sua certidão. Muitos poderiam pensar que fosse um erro ortográfico, mas Millôr se aproveitou das formas das letras desenhadas para criar outros sentidos para elas. Segundo o criador (ou criatura), “estava lá, aquele M aberto, i, l, depois vinha o t – que o cara fazia também aberto –, o; e termina com um r perfeito. Como ele riscou o t em cima do o, o que estava escrito era Millôr [...]. Aí resolvi mudar. Foi curioso, porque assumi o nome de Millôr e todo pessoal, que trabalhava comigo e de casa, imediatamente, começou a me chamar de Millôr. O Milton sumiu na mesma hora. Tanto que eu sou 17 anos mais moço do que eu mesmo!” (FERNANDES, 2003, p.32-33).


A relação entre as formas das letras de seu nome e o som destas lhes gerou uma nova identidade e, segundo ele, criou um novo conteúdo para a sua existência. Nasceria a partir daquele momento o Millôr Fernandes, deixando o menino Milton atrelado às memórias pueris do subúrbio do Méier, contemplado em suas lembranças como um lugar idílico. Essa nova criação e/ou criatura promoveria nele um novo ser, ligado, sobretudo, ao labor diário dos grandes periódicos. Millôr já despontava, naquele momento, para a arte de escrever sobre o cotidiano com uma verve humorística, marca indelével de si mesmo, de suas representações e de seus questionamentos que, em sua maioria, estiveram ambientados no cenário urbano carioca. Mas isso é tema para outro texto!



Referências:

FERNANDES, Fernandes. Millôr Fernandes. Entrevistador: Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Ed. Rio / Universidade Estácio de Sá, 2003. Transcrição de áudio: Cristina Magalhães. Coleção Gente.

FERNANDES, Millôr. Carioquice, Rio de Janeiro, p.32-39, abr./jun. 2005. Entrevista. Disponível em: <http://www.carioquice.com.br/upload05/05/mat6.pdf>. Acesso em: abr. 2010.

FRAIHA, Silvia e LOBO, Tiza. Bairros do Rio: Méier e Engenho de Dentro. Rio de Janeiro: Fraiha editora; Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2004.

QUEIROZ, Andréa Cristina de Barros. Enfim, um escritor com estilo: o jornalista, pasquiniano, ipanemense e sem censura Millôr Fernandes, 2011. Tese (Doutorado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011.



*Andréa Queiroz é Historiadora e diretora da Divisão de Memória Institucional/SiBI/UFRJ. Pós-Doutoranda em História Social/PPGHIS/UFRJ. Contato: andreaqueiroz@sibi.ufrj.br. Este texto é um recorte do primeiro capítulo de minha tese de Doutorado em História Social defendida no PPGHIS/UFRJ, em 2011, com o título: “Enfim, um escritor com estilo: o jornalista, pasquiniano, ipanemense e sem censura Millôr Fernandes”.

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