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Luis da Câmara Cascudo: uma certa ideia de Brasil

Toronto, 15 de setembro de 2021.

André Sena*

Certa vez o escritor potiguar Diógenes da Cunha Lima indagou Câmara Cascudo sobre a origem da expressão popular nhem nhem nhem, muito utilizada entre nós em certas ocasiões, especialmente quando nos pomos a criticar alguém que não vai direto ao ponto, e acaba falando mais do que o supostamente necessário. “Não sei! Vou verificar.”, disse o autor do ainda hoje valiosíssimo Dicionário do Folclore Brasileiro.


Crédito: Elfi Kurten Fenske.


Passados alguns dias, Cascudo convida Diógenes para um café e lhe explica: “Nhém” é o verbo “falar” em Tupi; portanto, a expressão tem origem indígena e provavelmente sugere o ecossistema cultural autóctone, prenhe de falas abundantes e expressivas, se comparado ao taciturno ambiente português colonizador, contido e fechado em si mesmo.

Assim era Luís da Câmara Cascudo, um dos mais extraordinários intelectuais brasileiros, cuja obra impactou não apenas os estudos de folclore, mas também os gastronômicos. Qualquer chefe de cozinha do quilate de uma Roberta Subtrack - eleita em 2015 a melhor da América Latina, e autora do famoso fish and fries feito com o nosso Pirarucú, oferecido à comitiva do Príncipe Charles em visita ao Brasil - consulta seus livros sobre a variada cultura alimentícia do nosso país.

Além desses campos de estudo, a obra de Câmara Cascudo foi uma das maiores (senão a maior) contribuições para os estudos de história cultural brasileira. Brasileiríssimo, Cascudo não se furtava a se corresponder com folcloristas e historiadores do mundo inteiro, não apenas para trocar ideias, mas para compreender os sistemas culturais de outros povos, como um método para aguçar a compreensão do nosso. Seu arquivo documental, hoje armazenado digitalmente no Instituto Ludovico, no Rio Grande do Norte, abarca milhares de correspondências com pesquisadores do Canadá, Estados Unidos e América Latina. Saber do mundo, saber de si.

A maneira pela qual Câmara Cascudo produziu sua obra me remete às reflexões do historiador francês François Dosse, na obra História em Migalhas. Não há detalhe que possa parecer desimportante ao historiador. Tudo lhe importa e pode ser por ele aproveitado, com a finalidade de compor uma narrativa que levada ao público, o ajudará a compreender-se como comunidade, como sociedade capaz de atuar no espaço e no tempo.

Mais do que isso, a perspectiva cascudiana da cultura brasileira baseava-se fortemente na força da experiência, distanciando-se da abstração pura e simples sobre os objetos de análise. Não se pode falar da jangada sem conhecer o jangadeiro, e não se faz isso sem ir até ele. Conhecimento por aproximação. Empiria no melhor sentido da palavra.

Um bom exemplo disso é a obra Meleagro, publicada em 1951, onde Câmara Cascudo nos apresenta seus estudos sobre o Catimbó (Culto aos Senhores Mestres), religião xamânica, e considerada por muitos o mais antigo sistema religioso brasileiro. Meleagro é fruto das anotações feitas por Cascudo, sentado em seu tamborete, durante as sessões de Catimbó que visitava, interrompidas frequentemente pela truculenta perseguição policial de uma república não tão laica quanto se supunha. Não é de hoje que a laicidade e a democracia estão em risco em nosso país.




Credito: neciklopedio.


Câmara Cascudo entretanto, apesar da complexidade e dos problemas inerentes a um país como o nosso, jamais sucumbiu ao fatalismo quando se tratava de pensar a sociedade brasileira. Sua frase “o Brasil não tem problemas, apenas soluções adiadas” ressalta uma intrigante percepção acerca dos desafios que nos cercam como país independente há quase 200 anos.

Em meio a uma extensa produção sobre o folclore e a cultura brasileira, sua obra mais conhecida é um dicionário de tradição essencialmente enciclopedista (e me refiro ao movimento de Diderot e D’Alembert mesmo!) legado ao mundo sob o título de Dicionário do Folclore Brasileiro. Não confundamos essa obra com o chatíssimo (embora fascinante) compêndio de páginas e páginas, contendo o significado de palavrinhas e palavrões. Esta obra é na verdade um cascudo universo de mundos diferentes, disponíveis em cada página. Uma espécie de Talmude brasileiro, onde os verbetes, comentários, apêndices e referências funcionam como um tipo de portal dimensional, em direção a peças de um mosaico de cultural que hoje chamamos Brasil.



Crédito: amazon.ca.


Publicado primeiramente em 1954, a obra levou 15 anos para assumir seu formato original com então 660 páginas. A cada reedição, até as comemorações de seu sexagenário em 2014, novos comentários, verbetes e referências são acrescentadas, sobre um povo dinâmico e cujo folclore encontra-se vivo nas tradições revisitadas. Câmara Cascudo deixa claro nessa obra, que a cultura popular brasileira transcende a mera contação, compilação ou coleção de lendas estacionadas no tempo. Há um caldeirão de expressões culturais populares em movimento no Brasil, que devem ser pesquisadas com o rigor necessário, mas jamais vistas como algo inerte. Folguedos, Festas do Divino, Congadas, Zambiapungas, Pisa-Pólvovas, Marujadas, Lambe-Sujos e tantas outras performances culturais dos povos do Brasil, são reinventados em meio ao ritmo das gerações, o que faz do trabalho do historiador e do folclorista um ofício perpétuo.



Crédito: Folha de Pernambuco


Em tempos desafiadores como estes, onde nossa diversidade cultural e popular vem sendo cada vez mais posta sob suspeita por algumas instituições, bem como por alguns setores integristas e religiosos da sociedade brasileira, Luís da Câmara Cascudo surge como um lembrete de que a nossa pluralidade cultural, místico-religiosa e histórica, poderá ser exatamente o lugar onde nossa força como uma sociedade civilmente sadia residirá. Nossa unidade em construção depende, paradoxalmente, das nossas diferenças. E ninguém compreendeu isso melhor do que Câmara Cascudo, o Ludovicus Riograndense.



Referências:


CASCUDO, Luis da Câmara. Meleagro. Agir, 1951.

Idem. Dicionário do Folclore Brasileiro. Global, 2010.

DOSSE, François. A História em Migalhas. Dos Annales à Nova História. Ed. Unicamp, 1994.

Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo. (www.cascudo.org.br)


*André Sena é historiador (UERJ).



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