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FIDEL CASTRO, PUEBLA E ZOE VALDÉS: RITMOS DA HISTÓRIA.

Toronto, 18 de fevereiro de 2022.

André Sena*


Vi nesta semana, no prestigioso jornal canadense The Globe and Mail, uma nota histórica sobre a posse de Fidel Castro como Primeiro-Ministro de Cuba, a 16 de fevereiro de 1959. Uma monarquia constitucional marcada pelo progressismo liberal da Era Trudeau, o Canadá não se furta a discutir ad nauseam os mais diversos e contraditórios projetos de mundo e sociedade que nosso mundo presenciou na contemporaneidade. Nesse sentido revisitei um texto que produzi faz alguns anos e achei oportuno ajustá-lo e republicá-lo nesta coluna do Box Digital de Humanidades.




Crédito: The Toronto Star.




"Nasci em uma ilha que quis inventar o paraíso.”


Essas são palavras da escritora cubana Zoe Valdés em seu romance autobiográfico “La nada Cotidiana”, sem tradução para o português. Valdés passou boa parte de sua vida adulta no exílio em Madri tentando compreender a terra onde nasceu e os destinos que essa terra tomou. Graças a essa inquietude conseguiu desenvolver uma literatura de fôlego onde Cuba sempre aparece como personagem central, ora oculto, ora revelado.


A Revolução Cubana apresentou ao mundo latino americano da década de 1960 o esboço de um projeto alternativo de vida e de mundo que se apresentava no imaginário popular como transformador e inaugural de um novo tempo histórico. Uma das questões que me fascinam no tema são as alegorias dentro da cultura, das artes, da música e da literatura, que buscaram legitimar este projeto com alegorias, propaganda e fantasia.


O cancioneiro revolucionário cubano é o mais interessante exemplo disso. Em um país onde a música é tão importante quanto o mar que bate sobre a Ilha, de Havana a Santiago, o compositor Carlos Puebla serviu a esta causa política no campo da música e do panfleto.


El Moncada nos mostro El Camino a percorrer Y desde aquel alto ejemplo Para nosotros siempre es 26


A letra fala do assalto ao quartel do Moncada por 165 homens liderados por Fidel Castro em 26 de julho de 1953. Quartel que visitei em 1995, cuja invasão histórica insere-se nesta letra política como o ponto de partida de todo o projeto revolucionário, que mais tarde se tornaria o que alguns chamam de ditadura castrista e outros a única democracia real das Américas. Fica ao gosto do freguês.


O que desejo aqui é mergulhar nesta dimensão da propaganda que se mistura com as esperanças e com as utopias políticas. Esse entrelaçamento entre projetos de poder e versos que os tornam mais digeríveis, menos perigosos e aparentemente mais ingênuos. Nesse aspecto Puebla foi um mestre! Ele consegue narrar todo um processo sangrento e duríssimo (todo processo revolucionário o é… até mesmo as ditas revoluções de veludo envolvem sangue!) como uma epopeia (en)cantada naqueles acordes da salsa cubana que nos fazem delirar, sonhar mesmo.


Enquanto personagem central da trama, Fidel Castro consiste em um fator de organização e instalação, não de uma nova ordem, mas DA ordem porque na trama cancioneira antes dele havia apenas o caos. O Comandante chega e põe a termo uma “farra” de privilégios liberando o povo cubano de uma elite da qual o próprio Fidel descende. Ele irritaria profundamente sua família posteriormente ao desapropriar terras de parentes e de seus próprios pais. Trata-se da construção mitificada de um herói, celebrado aqui na salsa “Y en eso llego Fidel” (E então chegou Fidel):


Y se acabo la diversion Llego el comandante y mando a parar! A quien pensavan seguir Ganando ciento por ciento De casas y apartamentos Y hechar el Pueblo a sufrir Y seguir de modo cruel Contra el Pueblo conspirando Para seguirlo explotando Y en eso llego Fidel! Y se acabo la diversion Llego el comandante y mando a parar!


Colocarei os links onde você poderá ouvir as canções que cito nesta coluna sobre a Ilha de Valdes. A Igualdade é um mistério e tudo o que se nos apresenta de forma misteriosa nos deixa curiosos. Imagine all the people, sharing all the world diria Lennon, que sem ser castrista, embora barbudo em alguns momentos da vida, ciscou por essa seara musical difusora das nossas utopias. E sem ser Lennon, Puebla nos brinda com mais uma letra-propaganda, que defendeu com afinco o projeto de seu país, ou talvez dos donos dele a partir de 1959:



Eso de pedir permiso hace tiempo que pasó pues Cuba se liberó de pactos y compromisos

Para su bien o para su mal la cosa con Cuba es de igual a igual Para subien o para su mal la cosa con Cuba es de igual a igual



A cultura revolucionária cubana é fascinante e quando você ouvir a música por dentro dessas letras vai entender o que digo. Independente daquilo que pessoalmente achemos do Comandante-Ditador-Tirano-Revolucionário-Barbudo-Libertador, podemos mergulhar nesse universo do século XX e talvez nos perguntarmos se nossas vidas não estão carecendo de sonhos e esperanças embalados a salsa.


O vácuo deixado por um século de utopias falidas como foi o passado ainda não foi preenchido por outra coisa que o mundo frio dos aplicativos e a máscara das redes sociais. Onde estão nossos menestréis? Aqueles que cantavam o que desejávamos, ou o que eles queriam que desejássemos viver?


Eles podem estar fazendo mais falta do que imaginamos, em um mundo de novos mitos, pouco comprometidos com as comunidades que dizem governar, e contra a qual vem produzindo “tenebrosas transações.”



*André Sena é historiador (UERJ).


REFERÊNCIAS:

VALDES, Zoe. La Nada Cotidiana. Emece, 1996

SADER, Emir. Cuba, Chile e Nicarágua. O Socialismo na América Latina. Saraiva, 1996.

GUERRA, Lilian. Visions of Power in Cuba. Revolution, Redemption and Resistance, 1959-1971. KADPPR, 2014.

RAMONET, Ignacio. Fidel Castro: biografia a duas vozes. Boitempo, 2006.


Links para as canções:

(Siempre es 26)

(Y en eso llego Fidel)

(De Igual a Igual)





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