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  • Foto do escritorAndré Sena

Ernesto Nazareth: o “Mestre da dança brasileira.”

Toronto, 01 de novembro de 2022.

André Sena*


Muitos apelidos que nos dão acabam se consolidando e integrando nossa própria identidade. Se sábios, conseguiremos nos livrar daqueles que julgamos não nos caber, ignorando solenemente, tanto a época em que nos foram dados, quanto aqueles que tentaram com eles nos intimidar de alguma forma. Porém nem tudo precisa ser tão mau: há apelidos que contribuem para o nosso crescimento, justamente porque revelam sobre nós uma leitura a partir do outro que nos olha. Pepino, o breve, Ivan o terrível, Carlos, o temerário, foram julgados através de seus apelidos, por sua aparência, comportamento e ação política. Luís, o piedoso, Pedro, o grande e Catarina a magnânima também o foram, por sua ação como monarcas ou pelo seu legado.



Crédito da imagem: Lgsm.rádio


Mário de Andrade, erudito brasileiro e apaixonado por nossas artes, especialmente por nossas músicas e ritmos decidiu que Ernesto Nazareth deveria entrar para a história como “o mestre da dança brasileira.” O apelido pegou, e figura em qualquer biografia bem escrita sobre o músico e compositor que deu seus primeiros passos nas notas, arpejos e acordes com a ajuda de sua mãe, compondo sua primeira grande obra ainda na adolescência, chacoalhando o ambiente comunitário francamente carioca onde nasceu: o Morro do Nheco, nome que precedeu o atual Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, região próxima as pequenas Áfricas cariocas, por demais colorida pela miséria e pela exclusão, mas também pelo batuque, o samba e o cateretê, que uma certa elite recentemente republicana buscava a todo custo criminalizar e esconder.


Não Nazareth. Sem nenhuma timidez, compreendeu ainda jovem algo que perseguiu por toda a vida: que a arte da música era capaz, talvez como nenhuma outra, de promover um casamento entre elementos eruditos e populares, gerando uma simbiose que mais tarde alguns estetas tropicalistas chamariam de geleia geral. Nazareth foi um antropófago pré-modernista, que atravessou o modernismo e criou um estilo e identidade ao mesmo tempo universalmente brasileira e absolutamente particular.


Aprendeu dentro de casa e ainda bem moleque a dar seus primeiros vôos musicais, que aos 14 anos aflorariam em uma bela polca lundu chamada Você Bem Sabe. A influência não poderia deixar de ser mais óbvia: Frederico Chopin, que exerceu enorme fascínio sobre grandes nomes da nossa música, como Joaquim Antônio da Silva Callado e Francisca Edwiges Gonzaga, cuja fama dispensa maiores comentários para aqueles que verdadeiramente amam a nossa música. As mazurcas de Chopin provocaram desde cedo Nazareth, muito possivelmente porque o revolucionário polonês exilado em Paris foi uma espécie de trailblazer na conjugação de uma música de raízes, emanada diretamente do seio popular, com a forma sonata e a polifonia elaborada do repertório erudito.


Ernesto Nazareth expressou de forma singular essa conjugação em suas composições para Maxixe, ritmo que como o compositor brasileiro de quem ora falamos recebeu seus apelidos, dentre eles o discutível e controverso “tango brasileiro”, algo um tanto exagerado e injusto, seja para o Tango, seja para o Maxixe, mas que encarnou no final do século XIX e início do XX a pujança dos ritmos negros brasileiros e sua incrível capacidade de penetração e resistência em nossa cena cultural.


Além disso, estudou como talvez nenhum outro dos nossos, os ritmos escoceses, que fizeram furor em um certo idealismo romântico vitoriano de virada de século e encantaram o compositor com a mesma força do conjunto musical popular de Chopin. As “scottishes” chegaram aos ouvidos brasileiros da época de Ernesto Nazareth e literalmente hipnotizaram os espíritos de muitos de nossos músicos, contribuindo sobremaneira para suas concepções estéticas e musicais.


Se podemos falar em uma busca pela “alma brasileira”, podemos igualmente afirmar que Nazareth foi um de seus maiores perseguidores, um verdadeiro arquiteto dessa sempre utópica esperança em definir quem sabe um dia uma essência estética e cultural, para um povo tão diverso como o nosso. Embora isso se revele cada vez mais incompreensível, não se pode deixar de exaltar as almas pensantes e criativas brasileiras que tentaram conhecer o Brasil e defini-lo de (ou a partir de) alguma forma como fez ao logo de toda vida este nosso grande gênio musical, que nos legou pelo menos 211 peças completas para piano.


Apanhei-te Cavaquinho, por exemplo, aparece em seu extenso repertório como uma das mais famosas e celebradas pelo público ouvinte, assim como uma de suas mais lindas polcas, Ameno Resedá, uma sequência frenética de notas ácidas e ritmadas com tal feitiço que não encontramos uma alternativa a não ser mexer alguma parte do corpo, quando não agarrar a alma mais próxima e rabiscar algum pas de deux qualquer. Experimente ouvir. Duvido que não comprove o que acabo de afirmar acima.


O mesmo ocorre com Coração que Sente, Expansiva e Turbilhão de Beijos, mesmo que no caso dessas três peças haja mais tranquilidade e paz em nossas escutas. Um romantismo lírico, sempre atravessado por uma aceleração repentina do piano, como que a imitar a vida e seus momentos de calmaria e tempestade. Não há melodia composta por Ernesto Nazareth que não imprima em nós o desejo de cantar e dançar, além das emoções que atravessam o coração ao ouvi-las.


Alguns chegarão a dizer que Nazareth refinou o popular ao mesmo tempo que popularizou o erudito, mas esse jogo de palavras pode carregar um certo preconceito, que não apenas empobrece seu legado como simplifica por demais o seu gênio. O que fez e nos deixou Nazareth foi simplesmente música boa, e não “boa música”. Deixou-nos ainda um verdadeiro parque de diversões musical que acalma o espírito e ao mesmo tempo nos infunde de beleza e bom gosto. Em tempos como os que vivemos isso pode ser mais valioso do que possamos imaginar, o que faz de nossa gratidão ao “mestre da dança brasileira”, tal como quis Mário de Andrade, uma obrigação da qual não podemos fugir.


Viva então o Mestre, e que melhores tempos nos encontrem, preferencialmente embalados no maxixe ladino de suas composições.


REFERÊNCIAS:

NAZARETH, Ernesto. Antologia para Piano. Ed. Irmãos Vitale, 2020.

COSTA, Haroldo. Ernesto Nazareth. Primeiro do Brasil. Ed. ND Comunicação, 2005.

RITTO, Beth. O Rio de Ernesto Nazareth. Editora Funarte, 2016.

MACHADO, Cacá. O enigma do homem célebre. Vocação e ambição de Ernesto Nazareth. Ed. IMS, s.d.


*André Sena é historiador (UERJ).

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