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Entre Sartre e Inglês de Sousa.



A presença do antissemitismo na literatura brasileira

de fins do século XIX


Toronto, 01 de janeiro de 2022.

André Sena*


O sistema de pensamento do filósofo francês Jean-Paul Sartre sempre me chamou atenção como proposta de leitura da realidade, especialmente a partir da ação humana. Obras como “O Ser e o Nada”, “A Náusea”, “As Mãos Sujas”, sempre me fascinaram desde que fui apresentado, ainda jovem, ao universo sartriano. No ano passado, um Rabino com quem estudo semanalmente a Torá (conhecida pelos cristãos como Pentateuco) propôs ao nosso círculo de estudos que abordássemos o livro do Deuteronômio a partir da obra “A Cerimônia do Adeus”, texto de despedida, escrito por Simone de Beauvoir juntamente com o filósofo, que já se encaminhava para seus últimos anos de vida.


crédito: Oxford University Press.


Com efeito, recomendei frequentemente a meus alunos a leitura de meu texto sartriano predileto: “O Existencialismo é um Humanismo”. O livro apresenta os contornos essenciais de um sistema filosófico que por séculos ainda fará muito sentido: a ideia da condenação do homem à liberdade será talvez um dos mais potentes princípios filosóficos, tanto para os nossos tempos quanto para os vindouros.


Entretanto é a obra dramatúrgica “Entre Quatro Paredes” (Hui Clos) que invoco neste momento como um ponto de partida para a breve reflexão que se seguirá pelas linhas abaixo. Encenada em um escurecido e árido ambiente post-mortem, três personagens entram em uma dinâmica de acusação recíproca, onde um curioso processo de revelação de seus erros e atrocidades cometidas em vida se desenvolve em uma angustiante cadência de interlocução. Hades sem diabo, sem caldeirão e sem enxofre; mas com choro e ranger de dentes diante da possibilidade de ver, sempre no próximo os seus próprios crimes. Conclusão filosófica sartriana por excelência: o inferno são os outros.


Nada mais apropriado para compreendermos a genialidade amazônica do grande intelectual e escritor brasileiro, Herculano Marcos Inglês de Sousa, de quem se ouve superficialmente nas escolas e no quadro geral de difusão cultural no Brasil.


Homem de formação intelectual robusta, Inglês de Sousa nasce em pleno processo de consolidação do Império brasileiro, em 1853, atravessando a virada do século e nos deixando já nos difíceis tempos da Primeira República, em 1918. Sua primeira educação deu-se entre o Maranhão e o Pará, onde nasceu, e estudiosos da sua obra o apontam como um dos introdutores do Naturalismo na literatura brasileira ao escrever O Coronel Sangrado, publicado em 1877, e ao obter grande sucesso literário com O Missionário, 14 anos depois. Foi também um intelectual transeunte das altas esferas do poder e do direito, tendo presidido as províncias de Sergipe e Espírito Santo, hoje estados da federação brasileira, bem como redigido códigos e obras jurídicas no campo do direito público e privado, dentre as quais o Projeto de Código Comercial, de 1912.


Embora tenha escrito outras obras, que apesar de importantes continuam ainda hoje lutando por visibilidade, como O Cacaulista e História de um Pescador, Inglês de Sousa aparece na história de nossas letras como um autor pioneiro na proposta de revelar ao resto do Brasil, e porque não dizer ao mundo, o universo amazônico onde nascera e crescera. O fez especialmente em uma série de contos que escreveu ao fim de sua carreira, conhecidos como “Contos Amazônicos”, reunidos e publicados já no Brasil republicano, no ano de 1893.


A influência da literatura e do pensamento francês, especialmente das modelizações pós-românticas da segunda metade do século XIX são tão evidentes na obra de Inglês de Sousa como declaradas pelo próprio autor em certa entrevista que deu ao célebre João do Rio. O escritor reconhece o legado em sua obra de nomes consagrados das letras francesas, como Émile Zola, Honoré de Balzac e Gustave Flaubert.


Contudo, uma das influências sobre Inglês de Sousa que mais me chamaram atenção quando comecei a interessar-me por sua obra foi aquela exercida pela dupla de escritores franceses alsacianos Émile Erckmann e Alexandre Chatrian, que fizeram furor entre as décadas de 1860 e 1870 com suas incríveis obras no campo da ficção policial e histórias de terror. Entre 1864 e 1868, Erckmann-Chatrian publicaram obras que exalavam um diálogo tão evidente quanto riquíssimo entre a cultura regional da Alsácia-Lorena, região que em breve passaria ao controle alemão até o final da Primeira Guerra Mundial, e a cultura judaica daquela parte da França.


Curiosamente os personagens judeus de obras como “O Amigo Fritz” e “O Judeu Polonês”, publicadas por Erckmann-Chatrian entre aqueles anos, iam na contramão do antissemitismo crescente da Europa do século XIX, especialmente em uma França que em breve se veria em meio ao escândalo do Caso Dreyfus, entre os anos de 1894 e 1906. O texto de “O Judeu Polonês”, por exemplo, em virtude de seu estrondoso sucesso, chegou a sofrer adaptações para uma ópera em 1900 e para o cinema em 1926 sob o título de “The Bells”.


Dificilmente saberemos se as obras da dupla francesa que lidavam com personagens oriundos da cultura judaica exerceram uma influência de tipo direto sobre a composição de O Baile do Judeu, sétimo conto da obra Contos Amazônicos, publicada por Inglês de Sousa em 1893. A dificuldade na precisão dessa afirmação encontra-se exatamente nos elementos de antissemitismo explícitos presentes em toda a primeira parte do conto, tratamento flagrantemente inverso ao que Erckmann-Chatrian deram a personagens judeus em seus escritos. Mesmo assim, o fascínio de Inglês de Sousa pelos autores alsacianos em questão, certamente contribuiu de alguma maneira para a escolha de Isaac, o judeu, como um dos personagens de sua literatura fantástica amazônica.




crédito: Bookplay.


O conto de Inglês de Sousa apresenta a figura do judeu como um escarnecedor da “verdadeira religião”, o cristianismo de confissão católica, já nas suas primeiras linhas. Decidido a dar uma festa, ambientada na cidade paraense de Óbidos (onde o próprio Inglês de Sousa nasceu) Isaac, o judeu, convida a elite local, com exceção das autoridades eclesiásticas e jurídicas, o que configura a casa do anfitrião como um espaço sem Deus e sem Lei e, portanto, propenso a todo o tipo de ocorrência contrária ao que essas duas representações culturais e sociais da época teriam o poder de neutralizar.


A disposição do judeu, não apenas como “o outro”, mas como “inimigo da fé” é aprofundada a medida em que se desenrola a narrativa, levantando-se por exemplo a questão do deicídio, elemento argumentativo tipicamente antissemita:


Era de supor que ninguém acudisse ao convite do homem que havia pregado as bentas mãos e os pés de Nosso Senhor Jesus-Cristo numa cruz. mas, às oito horas da noite daquele famoso dia, a casa do Judeu, que fica na rua da frente, a umas dez braças, quando muito, da barranca do rio, já não podia conter o povo que lhe entrava pela porta adentro; coisa digna de admirar-se, hoje que se prendem bispos e por toda parte se desmascaram lojas maçônicas, mas muito de assombrar naqueles tempos em que havia sempre algum temor de Deus e dos mandamentos de sua Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana.

As imagens decorrentes deste trecho do conto podem ser uma interessante pista para compreendermos os traços da presença do antissemitismo na literatura brasileira de fins do século XIX, a partir do caso de Inglês de Sousa. Os músicos convidados para tocarem na casa de Isaac são os mesmos que animam as missas de domingo na pequena cidade onde a trama se passa. Inglês de Sousa é implacável com cada um deles, evocando a própria punição divina (um deles perderá a própria vida como castigo!) em retaliação ao pecado de ter aceito o convite para tocar na casa do judeu, que aliás não se faz de rogado e dispensa de forma generosa uma certa “cerveja Bass”, que ao fazer efeito sobre seus convidados deixará o ambiente lascivo, eufórico e frenético o suficiente para a eclosão de certas manifestações, embebidas no folclore amazônico, que ocorrerão para o arrepio de todos, na festa em curso.


O termo judiaria, típico do mundo ibero-americano muito utilizado entre os séculos XV e XVII e que designara então, de forma segregadora, ruas, vilas e aldeias judaicas dos dois lados do Atlântico, é recuperado por Inglês de Sousa em O Baile do Judeu, não sem antes explicar ao leitor que “assim se pode chamar a casa de um malvado judeu”, terminando por definir a moradia de Isaac como “o covil de um inimigo da Igreja”. Ressalta ainda o autor que o personagem convidara apenas as pessoas de posse da região para a sua festa, o que se ilustra pela gente pobre e simples que espiava do lado de fora da casa o que dentro dela se passava.


O personagem judeu então desaparece de forma repentina da narrativa, dando lugar a uma série de acontecimentos paranormais, com a entrada no salão de um homem portando chapéu, impossível de ser reconhecido pelos convidados. Com a revelação de um orifício que o tal homem tinha em sua cabeça, todos finalmente o reconhecem como sendo o Boto, elemento central do folclore amazônico, raptor de mulheres e que no conto de Inglês de Sousa é suspeito de encarnar o próprio demônio. O homem-boto, que dança com uma das principais mulheres da região, a rapta e afoga-se com ela no rio, assustado com o sinal da cruz, feito por um dos personagens que primeiramente o reconheceu. O curto conto se encerra com a tácita moral da história: “desde esta vez, ninguém quis voltar aos bailes do Judeu.”


O antissemitismo naturalizado no conto de Inglês de Sousa pode ser rastreado de diversas maneiras, especialmente pela presença do catolicismo ultramontano, de matriz francesa, que permeou a segunda metade do século XIX no Império brasileiro, porém reduzir a questão a este fenômeno não será certamente o suficiente. A circulação internacional de ideias, costumes e preconceitos praticados na Europa da segunda metade dos oitocentos pode ter imensamente contribuído para a espontaneidade com a qual o autor de Contos Amazônicos descreve e configura o elemento judaico em O Baile do Judeu. Não era apenas a Europa das Luzes, da Ciência e do Progresso que chegava as nossas praias. O antissemitismo europeu, de profunda matriz cristã, e que naqueles momentos começava a dialogar com as estranhas teorias raciais pseudo-científicas da eugenia também alcançou nossas costas, e me parece que igualmente, os nossos igarapés.


*André Sena é historiador (UERJ).


REFERÊNCIAS:

INGLÊS DE SOUSA, Herculano Marcos. O Baile do Judeu. In: O Conto Fantástico. Panorama do Conto Brasileiro vol. 8, Editora Civilização Brasileira, 1959.

PEREIRA, Lúcia Miguel. História da Literatura Brasileira: prosa de ficção. Belo

Horizonte, Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1998.

PROENÇA FILHO, Domício. Memória Reverenciada I. (Tributo a Inglês de Sousa, Academia Brasileira de Letras). Memória Reverenciada I | Academia Brasileira de Letras

WIEVIORKA, Michel. The Lure of Antisemitism: hatred of Jews in Present-Day France. Jewish Identities in a Changing World. Vol. 10, Ed. Brill, 2007

MASSEY, Irving. Le personnage du Juif dans l’œuvre d’Erckmann-Chatrian. Méditations sur l’iconoclasme. Revista Studi Francesi, n. 183(LXI/III), 2017, pp.497-509.




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